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| Sara Paiva | Segurança

Como te podes autoproteger depois de uma ameaça/violência?

O Trabalho Sexual (TS) acarreta riscos particulares, sendo que as pessoas trabalhadoras do sexo (PTS) estão mais expostas a situações de ameaça ou violência. Autoprotegeres-te, física e emocionalmente, depois de uma situação de ameaça ou violência é fundamental para que ultrapasses o trauma e evites situações futuras.

Se passaste por uma experiência destas, é fundamental que saibas que não estás sozinhx e que as tuas reações são válidas (sejam elas físicas ou emocionais). Além disso, é importante saberes que é perfeitamente normal alguém que sofreu de uma situação de violência ter certas reações.

Neste artigo, trazemos-te um guia prático e de apoio, desenvolvendo a autoproteção, segurança e controlo para te ajudar neste período traumático,

Reações normais do corpo e da mente após o susto

Após sofreres uma situação de ameaça ou violência, o teu corpo e a tua mente entram num estado de alerta máximo. Esta é a resposta biológica do corpo quando está em perigo — o sistema nervoso trabalha pela tua proteção e sobrevivência.

Assim, é importante que olhes para as tuas reações como normais, pois só assim vais conseguir reconhecer o que te está a acontecer e vais ultrapassar o episódio.

Mas o que é “normal” sentir?

Logo após o episódio, é comum que apresentes reações típicas de stress agudo (reações imediatas e a curto prazo).

Apresentares estas reações não significa que vais desenvolver Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT).
 

 

Reação normal

Descrição e função

Manifestações

Hipervigilância

O teu cérebro procura constantemente por perigo, como se o evento pudesse acontecer novamente a qualquer momento. É uma tentativa de te manter segurx.

  • Dificuldade em relaxar;
  • Sobressaltas-te com facilidade;
  • Necessidade de verificar constantemente o que está à tua volta;
  • Desconfiança excessiva.

Culpa e autorrecriminação

A tua mente tenta encontrar uma razão para o que aconteceu, na esperança de que, se encontrares o “erro”, possas evitá-lo no futuro. É uma ilusão de controlo.

  • Pensamentos como:
    • “Eu (não) devia ter feito isto”;
    • “Foi culpa minha por estar lá”;
    • “Eu devia ter previsto isto”.

Nota importante: estes são pensamentos errados e falsos. A culpa é sempre dx agressorx.

Insónia e pesadelos

O teu sistema nervoso está excessivamente ativo, o que impede um sono profundo e reparador. Os pesadelos são sinal de que o teu cérebro está a tentar processar o que aconteceu.

  • Dificuldade em adormecer;
  • Acordar a meio da noite;
  • Suores noturnos;
  • Sonhos perturbadores.

Flashbacks e pensamentos intrusivos

O cérebro tenta integrar a memória traumática revivendo o momento — vais ter lembranças (do nada) do evento que parecem estar a acontecer naquele momento.

  • Imagens, sons e/ou cheiros “levam-te” ao momento traumático;
  • Pensamentos e imagens do evento aparecem sem aviso.

Dissociação e entorpecimento

O corpo cria um mecanismo de defesa para te proteger da dor emocional, resultando numa sensação de estares “fora do teu corpo” ou de que as coisas à tua volta não são reais.

  • Sentes-te “vazix”;
  • Dificuldade em sentir emoções;
  • Esquecimento de partes do evento;
  • Sensação de que o mundo está a ficar mais lento/a parar.

Neurobiologia da sobrevivência: luta, fuga ou congelamento

Quando o nosso cérebro deteta uma ameaça, o sistema límbico (centro emocional) assume o controlo, ativando a resposta de luta, fuga ou congelamento (em inglês: fight, flight, or freeze). Esta é uma resposta normal do corpo, primitiva e automática, para a luta pela sobrevivência.

Assim, o corpo:

  • Luta (fight): é comum sentir raiva, querer confrontar ou reagir agressivamente;
  • Fuga (flight): normalmente, sente-se uma necessidade muito grande de fugir, afastar-se do local ou da situação;
  • Congelamento (freeze): é normal sentires-te paralisadx, incapaz de te moveres ou falares. Vale ressaltar que esta é uma resposta comum e não um sinal de fraqueza. É o corpo que tenta de tudo para fazer-se passar “despercebido” ao perigo.
A forma como reagiste (ou não reagiste) durante a situação foi a melhor estratégia de sobrevivência que o teu corpo conseguiu fazer naquele momento. Não há uma reação certa ou errada, mas sim a possível.

Stress agudo vs. Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT)

As reações que te mostrámos antes são comuns em stress agudo e tendem a diminuir, significativamente, nas primeiras semanas após a situação de violência ou ameaça. Durante esta fase, o teu corpo descarrega adrenalina e cortisol, de modo que as reações que tens são consequência disso mesmo.

Portanto, viver sintomas intensos é normal na fase de stress agudo, mas estes devem diminuir depois de um mês do evento. Embora tenhas dificuldade, consegues retomar as tuas rotinas.

Só estamos perante um quadro de PSPT (ou a desenvolver um) se os sintomas/reações perdurarem no tempo (mais de um mês, sem melhorias) e se estes interferirem na tua vida diária, tornando-se incapacitantes. Dormir, interagir com outras pessoas ou trabalhar são tarefas impossíveis.

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Ter PSPT significa que o teu cérebro não conseguiu sair do modo de sobrevivência. Procura ajuda profissional para ultrapassares este momento difícil.

Passos práticos para recuperar a sensação de controlo

Sofrer de uma ameaça ou de violência tira-te o controlo da situação. É fundamental que adotes ações que te permitam reverter essa sensação e te devolvam segurança. Deves, portanto, começar por pequenos passos que te devolvam o poder sobre o teu próprio corpo, o teu espaço e as tuas decisões.

Que fazer nas primeiras horas?

As primeiras horas são as mais importantes. Se não precisares de atenção médica urgente, foca-te em três coisas:

  • Sair do local — afasta-te do local onde ocorreu a ameaça/violência o mais rápido possível. Vai para um sítio onde te sintas inquestionavelmente segurx;
  • Contactar apoio — liga para a tua pessoa de confiança (ou para uma linha de apoio). Não precisas de falar, só de ouvir uma voz amiga que te transmita paz e segurança;
  • Não tomar decisões importantes — esta não é a hora de tomar decisões que tenham implicações sérias na tua vida. O teu cérebro está em modo de crise. Por isso, respira (apenas isso).

Criar um ambiente seguro (físico e emocional)

Passado o impacto, é hora de garantires que tens um ambiente seguro. Cria uma bolha de segurança na qual possas processar tudo aquilo que aconteceu, sem possíveis ameaças.

  • Segurança física — se o evento ocorreu no teu local de trabalho, considera fazer uma pausa ou mudar temporariamente de local, se for possível. Reforça a segurança da tua casa (trocar fechaduras, instalar alarmes, entre outras ações que te mantenham mais segurx).
  • Segurança emocional — não fiques perto de pessoas que te julgam, minimizam o que aconteceu ou que te pressionam a superar o episódio rapidamente. O teu círculo de apoio deve ser composto por pessoas que te oferecem validação, calma e segurança.

Pessoas de confiança: quem melhor te pode ajudar?

Sabes aquelas (poucas) pessoas de confiança a quem podes ligar a qualquer hora, que validam o que sentes e não te julgam? Essas são as tuas pessoas de confiança.

Não é necessário contar a história toda. Podes, simplesmente, ligar para uma pessoa e pedir para falar contigo durante 10 minutinhos, só mesmo para te distraíres. Se conseguires, e se (e só se) tiveres vontade, pode para que a pessoa ouça o que te aconteceu, o que sentes, sem julgar ou dar conselhos.

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Não incluas no teu círculo de confiança pessoas que te pressionam a seguir em frente, que questionam as tuas ações e decisões, ou que te fazem sentir culpadx do que aconteceu. O mais importante é o teu bem-estar físico e emocional, não a opinião alheia.

Organizações especializadas

Se não tens pessoas de confiança, ou se não te sentes confortável em abordá-las, procura apoio de organizações que trabalham diretamente com PTS (podes sempre contactar o Plano Aproxima, o qual conta com profissionais que te podem ajudar e encaminhar para o melhor apoio).

Fala sobre o que aconteceu (no teu tempo)

Tu não és obrigado a contar o que aconteceu a ninguém, nem às autoridades, se essa não for a tua vontade, ou se não te sentires preparadx ou segurx. É importante que saibas que o desabafar e contar o que se passou é uma ferramenta de cura para ti, não para as outras pessoas.

  • Escreve-te — escreve o que aconteceu num diário ou num ficheiro no teu computador. A ideia não é que faças uma história ou uma narrativa perfeita. A ideia é que registes os factos e as tuas emoções. Este ato vai ajudar-te na externalização da memória, ou seja, vai ajudar a “mover” a memória daquele momento do centro emocional do cérebro para a parte lógica (local onde será processada). Esta ação também tem excelentes resultados na diminuição de flashbacks;
  • Documentação — se, um dia, quiseres apresentar queixa, é importante que tenhas tudo documentado. Por isso, mesmo que não tenhas vontade de apresentar uma queixa neste momento, documenta o máximo de detalhes possível: data, hora, local, descrição do agressor, testemunhas, e-mails ou mensagens, para que essa informação não se perca, caso mudes de ideias. Guarda esta informação num local seguro e privado. Lembra-te: esta decisão é tua e só tua.
  • Procura ajuda psicológica — a ajuda de uma pessoa especialista em Psicologia é importante para ultrapassares o episódio. Vais estar num ambiente seguro e controlado, e a pessoa só tem o objetivo de te ajudar a processar a experiência.

Onde procurar ajuda psicológica ou médica sem ser julgadx?

Um dos maiores obstáculos para as PTS é o medo do julgamento ao procurar ajuda. Infelizmente, o estigma associado ao TS pode levar a experiências negativas em serviços de saúde e de apoio.

É essencial procurar serviços que tenham uma abordagem de redução de danos e que sejam aliados da comunidade, ou seja, que te vejam como uma pessoa que merece respeito e cuidado, independentemente da tua profissão.

Abordagem não-julgadora

A abordagem de redução de danos é fundamental para conseguires ultrapassar o evento da melhor forma. Assim, o profissional de saúde/apoio não te vai pedir para mudares o teu comportamento ou a tua profissão para teres acesso a cuidados. 

  • O que posso esperar? Respeito pela tua autonomia, confidencialidade absoluta e foco nas tuas necessidades imediatas de saúde e segurança.
  • O que não posso aceitar? Perguntas invasivas sobre a tua vida profissional que não sejam relevantes para o tratamento, “sermões” ou insinuações de que “procuraste” a situação. Se isto acontecer, tens o direito de pedir para falar com outrx profissional ou de te retirares.

Apoio médico imediato (se precisares)

Se a violência foi física ou sexual, a intervenção médica imediata é crucial, especialmente para profilaxia de IST e gravidez. Podes procurar:

  • Hospitais e centros de saúde: os hospitais com serviços de urgência ginecológica/obstétrica ou de medicina legal estão preparados para receber vítimas de violência sexual. Não precisas de apresentar queixa para receber tratamento médico. O teu foco deve ser a tua saúde. Se tiveres dúvidas, podes ligar para a Linha de Saúde 24 (808 24 24 24) e pedir informações sobre o hospital mais próximo com capacidade para atender vítimas de violência sexual;
  • Profilaxia Pós-Exposição (PEP): se houve risco de exposição a alguma IST, a medicação de Profilaxia Pós-Exposição (PEP) deve ser iniciada o mais rapidamente possível, idealmente nas primeiras horas e, no máximo, até 72 horas após a exposição. Não hesites em pedir este tratamento.

Podes pedir para falar com umx assistente social ou psicólogx do hospital. Menciona que és trabalhadorx do sexo apenas se for relevante para o tratamento (como para o teu histórico de saúde sexual), mas não é um requisito para seres tratadx com dignidade.

A equipa deve garantir a tua privacidade e confidencialidade.

Apoio psicológico especializado

Procura profissionais ou organizações que tenham experiência em trauma e que sejam sensíveis à realidade do TS.

  • Organizações Não Governamentais (ONG): ONG que trabalham com a comunidade de trabalhadorxs do sexo oferecem apoio psicológico gratuito ou a baixo custo. Já têm uma compreensão da tua realidade e não te vão julgar. Procura associações que trabalham diretamente com a comunidade de PTS em Portugal, pois estas são as que melhor entendem os desafios específicos que enfrentas;
  • APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima): a APAV tem uma rede nacional de Gabinetes de Apoio à Vítima e uma linha de apoio. Embora não sejam exclusivas para PTS, o seu serviço é gratuito e confidencial.
  • Serviço Nacional de Saúde (SNS): podes pedir uma consulta de Psicologia no teu centro de saúde. Embora a espera possa ser longa, é um recurso gratuito. Se for uma situação de crise, podes ser encaminhadx para um serviço de urgência psiquiátrica hospitalar.
  • Psicólogxs com formação em PSPT: procurando umx psicólogx particular, pergunta se têm experiência em PSPT ou em terapias focadas no trauma, como a EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento pelo Movimento Ocular) ou a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) focada no trauma. Estas abordagens são cientificamente validadas para o tratamento de trauma.

Pequenos rituais para “(re)tomares o corpo”

O trauma faz-te sentir desconectadx do teu corpo. Fazer estes rituais simples ajudam-te a regressar ao presente e a reafirmar que o teu corpo é teu e que está seguro agora:

Grounding e respiração

Quando te sentires hipervigilante, ansiosx ou a ter um flashback, o teu sistema nervoso está a sinalizar perigo. Usa técnicas de grounding para te trazer de volta ao “aqui e agora”, sinalizando ao teu cérebro que estás segurx.

  • Regra 5-4-3-2-1: esta técnica usa os teus cinco sentidos para te ligares ao presente, interrompendo o ciclo de pensamentos intrusivos.
    • 5 coisas que vês: nomeia 5 coisas que consegues ver à tua volta. Presta atenção aos detalhes (cores, formas, texturas);
    • 4 coisas que tocas: toca em 4 objetos e descreve a sua textura (a roupa, o chão, a parede). Sente a temperatura e o peso;
    • 3 coisas que ouves: identifica 3 sons (o trânsito, o frigorífico, a tua respiração). Concentra-te no som mais subtil;
    • 2 coisas que cheiras: identifica 2 cheiros (o teu perfume, o café). Se não houver cheiros, cheira a tua mão.
    • 1 coisa que saboreias: bebe um gole de água ou come algo pequeno (um rebuçado, uma pastilha).
  • Respiração Quadrada (ou 4-4-4-4): esta técnica acalma o nervo vago.
    • Inspira contando até 4;
    • Segura a respiração contando até 4;
    • Expira contando até 4;
    • Segura a respiração contando até 4.
    • Repete todo o procedimento 5 vezes.

Banho, toque e cuidado físico

Como dissemos, o trauma faz-te sentir desconectadx do teu corpo, como se ele não te pertencesse. O toque e o cuidado intencional são formas de o chamar de volta.

  • Banho: toma um banho quente e demorado. Concentra-te na sensação da água a escorrer pela tua pele. Usa um sabonete com um cheiro agradável. Este é um ato de cuidado intencional e de reafirmação poder que tens sobre o teu corpo;
  • Massagem e toque suave: massaja as tuas mãos, pés ou ombros, com um creme ou óleo. O toque suave e seguro, feito por ti, ajuda a reintroduzir sensações positivas no teu sistema nervoso;
  • Exercício leve: não precisas de ir ao ginásio. Uma caminhada, alongamentos ou ioga ajudam a libertar a tensão acumulada nos músculos. Lembra-te de que o trauma é armazenado no corpo. Assim sendo, o movimento ajuda a libertá-lo.

Rotina e contacto social

A rotina é o oposto do caos. Enquanto o trauma é caótico, a rotina é previsível e segura. Portanto:

  • Retoma a rotina: mantém horários regulares para dormir e comer, mesmo que não tenhas sono ou apetite. Pequenas tarefas diárias (como lavar a loiça ou fazer a cama, por exemplo) dão-te uma sensação de normalidade e competência;
  • Contacta amigxs: o isolamento é um sintoma claro do trauma. Contraria marcando encontros com amigxs de confiança, mesmo que seja só para ver um filme ou beber um café. O objetivo é a conexão, que é um antídoto poderoso contra o stress. O apoio social acelera a recuperação do trauma.

Cover GuiaSaudeMental

A importância da rede de apoio comunitária

O Trabalho Sexual é, muitas vezes, estigmatizado, o que torna a violência mais difícil de processar. É por isso que a tua comunidade é vital.

Segurança coletiva

O que te aconteceu pode acontecer a outrxs. A segurança coletiva é um pilar fundamental para as PTS.

Se te sentires capaz, podes, além de documentar tudo, avisar a comunidade. Partilhar informações sobre clientes perigosxs (sempre de forma segura) pode proteger outrxs.

O poder da partilha e do peer support

O peer support (apoio entre pares) é um dos recursos mais valiosos. Apenas outrx trabalhadorx do sexo pode entender verdadeiramente as nuances da tua experiência.

Participar em grupos de apoio (online ou presenciais) com outrxs trabalhadorxs do sexo pode ser uma ferramenta curativa incomparável. Ouvir histórias semelhantes e partilhar a tua pode fazer com que deixes o isolamento e a culpa para trás.

O caminho é teu: não o apresses nem exijas demais de ti

A recuperação não é igual para todas as pessoas, nem é igual em todos os momentos. Haverá dias bons e dias maus. O mais importante é que sejas gentil e paciente contigo. Lembra-te sempre de que:

  • Não és culpadx;
  • As tuas reações são normais;
  • Tens o direito de te sentir segurx.

Procura o apoio de quem te valida e te vê para além do teu trabalho.