
Candida auris: o que é, sintomas e como tratar este superfungo?
A Candida auris é um fungo multirresistente que tem vindo a preocupar a comunidade médica global. O seu aparecimento representa um desafio para a saúde pública, principalmente em ambientes hospitalares. Saber identificar os sintomas precocemente é essencial para um tratamento eficaz.
Nos últimos tempos, muito se tem falado da Candida auris. Este fungo, com surgimento em 2009, no Japão, já se espalhou por muitos países e chegou agora a Portugal. A preocupação maior com esta estirpe de Candida deve-se à sua multirresistência a medicamentos antifúngicos.
Sabe aqui o que é a Candida auris, quais as principais diferenças para as estirpes mais comuns de Candida, quais os sintomas, quem são as pessoas de risco, como prevenir e como tratar este superfungo.
Candida auris: o que é?
A Candida auris é uma estirpe que pertence ao género Candida, o qual engloba centenas de espécies de fungos (apenas algumas são patogénicas para as pessoas), sendo a mais conhecida a Candida albicans (responsável pela candidíase comum).
Este superfungo distingue-se por ter:
- Multirresistência — a auris é resistente a, pelo menos, uma das três principais classes de medicamentos antifúngicos (polienos, azóis e equinocandinas);
- Capacidade de colonização — este superfungo é capaz de colonizar a pele e resistir por longos períodos em superfícies hospitalares, como equipamentos médicos, colchões, grades de camas, entre outros, contribuindo para a rápida transmissão em ambientes de saúde;
- Patogenicidade — causa infeções invasivas graves (candidemia), apresentando elevadas taxas de mortalidade em pacientes já vulneráveis.
Uma das características mais intrigantes da Candida auris é a sua diversidade genética: divide-se em, pelo menos, cinco grupos genéticos, os quais emergiram de forma independente em diferentes regiões do mundo, quase em simultâneo.
O que está na origem da Candida auris?
A origem do superfungo é ainda um enigma, muito embora seja um tema de intensa investigação científica. Existe, contudo, uma teoria proeminente que aponta para as alterações climáticas como o fator desencadeador (Arturo Casadevall et. al).
A maior parte dos fungos ambientais não sobrevive no nosso corpo devido à sua alta temperatura (média de 37ºC), fator que age como uma barreira térmica natural, protegendo-nos da grande parte das infeções fúngicas.
A Candida auris era, possivelmente, um desses fungos que vivem em temperaturas baixas, mas, com o aumento da temperatura média global (causada pelas alterações climáticas), adaptou-se a temperaturas mais altas no seu ambiente, conferindo-lhe a capacidade de tolerar temperaturas mais próximas dos 37ºC.
Essa adaptação quebrou, portanto, a barreira natural térmica do nosso organismo, tornando-se capaz de sobreviver e causar infeção em seres humanos (e outros mamíferos também).
Apesar desta teoria ser a mais discutido, apontam-se, ainda, outros fatores que podem ter contribuído para a emergência e disseminação do superfungo, como:
- Uso de fungicidas agrícolas — os fungicidas da classe dos azóis são de uso generalizado na agricultura, podendo ter levado a uma seleção de estirpes de Candida resistentes no ambiente e, posteriormente, tornando-se patogénicas para as pessoas. Este é um fator levado em alta consideração pela comprovada resistência do superfungo aos azóis;
- Maior quantidade de pessoas imunocomprometidas — o aumento de pessoas com sistemas imunitários comprometidos (devido a transplantes, doenças crónicas, quimioterapia, entre outros) pode ter ajudado o fungo a proliferar e a causar infeções graves;
- Más práticas hospitalares — a alta taxa de transmissão hospitalar sugere, igualmente, que a emergência do superfungo pode ter sido exacerbada por falhas nas práticas hospitalares de controlo de infeções, como a desinfeção das superfícies e a higiene das mãos.
Quais são os grupos de risco?
A Candida auris é um patogénico oportunista, ou seja, procura pessoas com o sistema imunitário comprometido ou em situações de vulnerabilidade clínica. Assim, este fungo não costuma afetar pessoas saudáveis.
Os principais fatores de risco são:
- Internamento prolongado — pessoas que permanecem longos períodos em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) ou em hospitais;
- Doenças crónicas graves — pessoas com comorbilidades severas, como é o caso de doenças renais, cancro ou diabetes descontrolada, por exemplo;
- Cirurgia recente — pessoas submetidas a procedimentos cirúrgicos complexos;
- Uso de dispositivos médicos invasivos — este fungo tem a capacidade de aderir e formar biofilmes em cateteres venosos centrais, sondas de alimentação, ventiladores e algálias;
- Uso de antibióticos e antifúngicos de largo espectro — pessoas que usam estes medicamentos indiscriminadamente, ou por longo tempo, podem ter a flora microbiana natural desequilibrada, favorecendo a colonização e infeção pela Candida auris.
Candida auris vs. candidíase comum
A palavra Candida é conhecida da maioria das pessoas, uma vez que está, geralmente, associada à candidíase (infeção fúngica comum e fácil de tratar, causada principalmente pela Candida albicans).

A Candida albicans é, regra geral, sensível aos antifúngicos comuns, sendo de fácil tratamento, ao contrário da Candida auris, que é multirresistente.
A candidíase comum afeta as mucosas (oral, genital), pele e unhas. Já a Candida auris infeta a corrente sanguínea (candidemia), órgãos internos (invasiva), feridas e ouvidos.
Enquanto a C. auris afeta pessoas hospitalizadas, imunocomprometidas e com comorbilidades, a C. albicans afeta também pessoas saudáveis.
A C. auris é transmitida pessoa-a-pessoa em ambiente clínico e através do contacto com superfícies contaminadas, já a candidíase comum não é transmitida por superfícies, mas advém de desequilíbrios temporários da flora.
Fungo Candida auris: sintomas
Os sintomas da Candida auris podem ser facilmente confundidos com outras infeções fúngicas ou bacterianas, o que dificulta o diagnóstico. Também, os sintomas podem ser mascarados pelas condições médicas subjacentes, sendo mesmo um dos grandes problemas da infeção por este superfungo.
Quando este fungo causa uma infeção invasiva, candidemia (infeta o sangue, proliferando para os órgãos internos), os sintomas apresentados são aqueles comuns a uma infeção generalizada (sépsis):
- Febre alta (não cede com medicação);
- Calafrios e tremores;
- Aumento da frequência cardíaca (taquicardia);
- Tonturas e vómitos (geralmente em casos mais graves);
- Fadiga;
- Mal-estar geral.
Por serem sintomas comuns a várias patologias, é fundamental que se faça o diagnóstico laboratorial, especialmente quando a pessoa não responde aos tratamentos iniciais.
Candida auris: sintomas na pele
A Candida auris é conhecida por colonizar a pele e outras superfícies do corpo, como os ouvidos e mucosas, embora a infeção invasiva seja a mais perigosa. O perigo da colonização da pele é que não manifesta sintomas, tornando-se uma fonte de contaminação para o ambiente hospitalar e facilitando a transmissão a outras pessoas.
Além disso, a presença do fungo na pele, especialmente em pessoas imunocomprometidas, pode penetrar na corrente sanguínea através de feridas, mucosas ou cateteres, por exemplo, causando a infeção invasiva.
Candida auris em Portugal: propagação é hospitalar e não comunitária
O fungo da Candida auris já é uma realidade em Portugal, mas não há motivos para alarmismos. A propagação deste superfungo no nosso país, tal como a nível global, é hospitalar e não comunitária.
A sua relevância em saúde pública está associada à facilidade com que se transmite em unidades de cuidados de saúde, assim como à resistência a alguns antifúngicos.
É fundamental que se priorize a vigilância e a articulação entre a investigação e as unidades de saúde.
Candida auris: tratamento
Como já vimos, a C. auris é um fungo multirresistente, o que torna o tratamento desafiante. Para determinar o melhor tratamento, é importante que se façam testes laboratoriais específicos (antifungigrama) para detetar a sensibilidade do fungo.
A maior parte das infeções por este fungo é tratada com equinocandinas, como a micafungina, a caspofungina e a anidulafungina, as quais estão na primeira linha de defesa contra a C. auris atualmente.
Vale notar que também é possível ocorrer resistência a esta classe de medicamentos, dificultando bastante o tratamento. Nestes casos, pode ser necessário combinar vários antifúngicos em doses altas.
Como prevenir a C. auris?
Tendo em conta que a Candida auris é um problema de saúde pública que se manifesta em ambientes hospitalares e de cuidados de saúde, torna-se fulcral apostar na prevenção e no controlo da infeção.
Pessoas profissionais de saúde, assim como unidades hospitalares e a população em geral devem assumir essa responsabilidade, adotando medidas essenciais de controlo de infeção:
- Higiene das mãos rigorosa — este é o grande pilar de toda a prevenção de infeções. A população em geral deve adotar o hábito de lavar as mãos durante as visitas hospitalares e as pessoas que trabalham em hospitais e outras unidades de cuidados de saúde devem lavar e desinfetar as mãos com água e sabão ou desinfetante à base de álcool (antes e depois de qualquer contacto com pacientes ou ambiente);
- Visitas — deve evitar-se visitas desnecessárias a pessoas hospitalizadas, lares, ou outras unidades de cuidados de saúde, especialmente em caso de surto ou se estiveres doente;
- Desinfeção de equipamentos e superfícies — como o fungo pode sobreviver em equipamentos e superfícies durante semanas, é fundamental que se faça uma limpeza e desinfeção regular destes com produtos específicos;
- Uso de equipamento de proteção individual (EPI) — profissionais de saúde devem usar luvas e batas descartáveis sempre que entrarem em contacto com pessoas infetadas ou colonizadas;
- Isolamento de contacto — pessoas colonizadas ou infetadas devem ser alojadas em quartos de isolamento de contacto, evitando, assim, a propagação da Candida auris;
- Gestão dos dispositivos médicos de risco — deve fazer-se a revisão e a remoção atempada de cateteres, sondas e outros dispositivos médicos invasivos (os quais aumentam o risco de infeção por C. auris).
Vigilância e responsabilidade são as palavras de ordem no combate à Candida auris
A Candida auris é, sem dúvida, um dos grandes desafios da medicina moderna, pela sua resistência a antifúngicos e pela sua alta capacidade de causar infeções invasivas em pessoas vulneráveis.
Apesar de desafiante, é importante não entrar em pânico, até porque não se justifica. Como dissemos, o risco para a população em geral é muitíssimo baixo. A verdade é que esta é uma batalha que é travada nos hospitais e unidades de cuidados de saúde, através de protocolos de higiene rigorosos e vigilância laboratorial.
Para lidar com a Candida auris, o melhor que podes fazer é agir preventivamente e com responsabilidade. Assim, deves praticar a higiene das mãos de forma exemplar, principalmente se estiveres em locais de risco, como hospitais, e evitar fazer visitas a pessoas vulneráveis se te sentires doente ou se houver um surto.