Infeções Sexualmente Transmissíveis
Hepatite
A hepatite é uma inflamação do fígado, que representa um dos maiores desafios de saúde pública a nível mundial, uma vez que afeta centenas de milhões de pessoas. O termo “hepatite” abrange um conjunto de doenças que, embora partilhem o mesmo órgão-alvo, têm características, vias de transmissão e prognósticos diferentes.
De acordo com o Global Hepatitis Report 2024, da OMS, as hepatites virais causaram 1,3 milhões de mortes em 2022 em todo o mundo, sendo que 83% destas foram causadas pela hepatite B e 17% pela hepatite C.
O número de óbitos anuais devido às hepatites B e C é superior ao número de mortes provocadas pelo HIV e comparável à mortalidade por tuberculose.
Índice
O que é a hepatite e a hepatite viral?
A palavra hepatite deriva do grego hépar (fígado) e do sufixo -ite (inflamação). Assim, a hepatite designa uma inflamação das células do fígado (hepatócitos) em resposta a uma agressão, a qual pode ter diferentes origens. Falamos de uma hepatite viral quando esta tem origem numa infeção por vírus.
Uma inflamação no fígado não deve ser ignorada, até porque este é um dos órgãos mais importantes do nosso corpo, desempenhando mais de 500 funções vitais, entre as quais:
- Regula o metabolismo dos hidratos de carbono, gorduras e proteínas;
- Armazena glicose (glicogénio), libertando-a para a corrente sanguínea quando os níveis de açúcar no sangue baixam;
- Metaboliza os ácidos gordos para produzir energia;
- Sintetiza colesterol e triglicéridos;
- Converte o excesso de aminoácidos em ureia (que depois é excretada pelos rins);
- Sintetiza proteínas essenciais — o fígado produz: albumina (proteína essencial para manter a pressão oncótica e transportar substâncias), fatores de coagulação (sem os quais o sangue não coagula), protrombina, fibrinogénio e proteínas de transporte. Quando há falência hepática, ocorrem hemorragias incontroláveis e edemas, precisamente porque as proteínas deixam de ser produzidas;
- Desintoxica o organismo — filtra mais de 1 400 litros de sangue por dia, removendo e neutralizando substâncias tóxicas (incluindo álcool, drogas recreativas, medicamentos, pesticidas, produtos do metabolismo bacteriano provenientes do intestino);
- Produz bílis (fluido digestivo essencial para a emulsificação e absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis no intestino delgado);
- Excreta substâncias que os rins não podem eliminar — como a bilirrubina. Um fígado inflamado não consegue processar a bilirrubina adequadamente, acumulando-se no sangue e nos tecidos, causando icterícia;
- Armazena reservas de vitaminas e minerais (A, D, E, K, B12, ferro e cobre);
- Atua na imunidade — é no fígado que se encontram as células de Kupffer, as maiores “destruidoras” de bactérias, vírus, células tumorais e outros agentes patogénicos.
Quando o fígado é agredido — seja por um vírus, por substâncias tóxicas, como o álcool, por medicamentos ou pelo próprio sistema imunitário — os hepatócitos sofrem danos celulares, os quais ativam uma resposta inflamatória. Perde progressivamente a sua capacidade de funcionar, podendo levar a complicações graves e potencialmente fatais, como cirrose, insuficiência hepática aguda e carcinoma hepatocelular.
Tipos e causas da hepatite
As causas mais comuns (e com maior impacto global) são as infeções por vírus, dando origem às hepatites virais (A, B, C, D, E e G). Contudo, a inflamação hepática pode ser desencadeada por causas não-infecciosas, incluindo:
- Hepatite tóxica ou medicamentosa — causada pelo consumo de álcool em excesso, pela exposição a produtos químicos industriais, pelo uso de drogas recreativas ou pela toma prolongada (ou em doses excessivas) de certos medicamentos, como o paracetamol.
- Esteatose hepática (doença do fígado gordo) — resulta da acumulação excessiva de gordura nas células hepáticas, intimamente ligada à obesidade, à diabetes tipo 2 e à síndrome metabólica. É uma das causas crescentes de cirrose nos países desenvolvidos.
- Hepatite autoimune — condição crónica em que o próprio sistema imunitário perde a tolerância e ataca as células hepáticas saudáveis.
Quantas hepatites virais existem?
Identificaram-se, até à data, 6 tipos principais de vírus que atingem o fígado, designados pelas letras A, B, C, D, E e G. Cada um dos vírus pertence a famílias virais diferentes e, por isso, com características epidemiológicas distintas. Vejamos:
- Hepatite A — VHA (picornavírus), não apresenta risco de cronicidade;
- Hepatite B — VHB (hepadnavírus), alto risco de cronicidade em recém-nascidos (apenas 5% em adultos);
- Hepatite C — VHC (flavivírus), risco muito elevado de cronicidade (60 a 85%);
- Hepatite D — VHD (deltavírus), risco de cronicidade, acelera a cirrose;
- Hepatite E — VHE (hepevírus), cronicidade rara (exceto em pessoas imunossuprimidas);
- Hepatite G — VHG, ou mais recentemente Human Pegivirus 1 (HPgV-1). O vírus infeta o fígado, mas não provoca inflamação hepática clinicamente significativa na grande maioria dos casos.
As hepatites B e C são aquelas que mais preocupam, uma vez que estes vírus têm a capacidade de estabelecer infeções crónicas assintomáticas que, ao longo de décadas, destroem o fígado.
A hepatite é contagiosa?
As hepatites virais são contagiosas e podem ser transmitidas de pessoa para pessoa, embora as vias de transmissão variem consoante o tipo de vírus:
- Hepatite A — transmitida principalmente pela via fecal-oral, ingerindo comida ou água contaminada com fezes de uma pessoa infetada. Pode ser transmitida por via sexual, através de práticas de sexo oral-anal com uma pessoa infetada;
- Hepatite B — transmitida pelo contacto com sangue ou fluidos (sémen e corrimento vaginal) de uma pessoa infetada;
- Hepatite C — transmite-se pelo contacto com sangue infetado (mesmo que em pequenas quantidades). A transmissão sexual ocorre principalmente quando há exposição a sangue durante o ato sexual (práticas sexuais traumáticas, durante a menstruação, em pessoas com lesões genitais ou infeções sexualmente transmissíveis concomitantes, ou em homens que têm sexo com homens com práticas de maior risco);
- Hepatite D — só ocorre em pessoas infetadas pelo vírus da hepatite B, uma vez que o vírus D é biologicamente incapaz de se replicar sem a presença do vírus B. É principalmente transmitido pelo contacto com sangue ou fluidos corporais infetados;
- Hepatite E — transmite-se principalmente pela ingestão de água contaminada e carne malcozinhada (especialmente de porco, javali ou veado);
- Hepatite G — transmite-se, sobretudo, pelo contacto com sangue infetado, embora também possa haver transmissão durante relações sexuais sem preservativo.
Resumindo:
|
Hepatite |
Agente viral |
Principal via de transmissão |
Risco de cronicidade |
Profilaxia (vacina) |
|
A |
VHA (picornavírus) |
Fecal-oral (alimentos/água contaminados), sexo oral-anal |
Não |
Sim (altamente eficaz) |
|
B |
VHB (hepadnavírus) |
Sangue, fluidos sexuais, via perinatal (mãe-filho) |
Sim (alto em recém-nascidos; ~5% em adultos) |
Sim (incluída no PNV) |
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C |
VHC (Flavivírus) |
Exposição a sangue infetado (agulhas, transfusões, via sexual) |
Sim (elevado, 60-85%) |
Não |
|
D |
VHD (deltavírus) |
Sangue, fluidos sexuais (requer a presença do VHB) |
Sim (acelera a cirrose) |
Sim (vacina do VHB previne o VHD) |
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E |
VHE (hepevírus) |
Fecal-oral (água contaminada, carne malcozinhada) |
Rara (exceto em pessoas imunodeprimidas) |
Sim (apenas na China) |
|
G |
VHG/GBV-C (Pegivírus) |
Sanguínea, sexual, vertical |
Viremia crónica frequente; doença hepática não estabelecida |
Não |
Hepatite aguda vs. crónica
A doença hepática é classificada de acordo com a sua duração e persistência:
- Hepatite aguda — inflamação do fígado com duração inferior a 6 meses. Pode ser assintomática, apresentar sintomas ligeiros (semelhantes aos de uma gripe), ou evoluir para uma hepatite fulminante (insuficiência hepática aguda), uma emergência médica com elevada taxa de mortalidade (entre 40 e 80% dos casos);
- Hepatite crónica — inflamação que persiste por mais de 6 meses, frequentemente sem sintomas. A inflamação persistente leva à morte dos hepatócitos e à sua substituição por tecido cicatricial (fibrose). Com o passar dos anos (ou até mesmo décadas), a fibrose severa evolui para cirrose (aumentando exponencialmente o risco de desenvolvimento de cancro do fígado). As causas mais comuns de hepatite crónica são os vírus da hepatite B e C, consumo de álcool em excesso, hepatite autoimune e esteatose hepática.
Sintomas de hepatite
Os principais sintomas de hepatite incluem:
- Enjoos;
- Perda de apetite;
- Náuseas e vómitos;
- Diarreia;
- Urina escura e fezes claras;
- Olhos e pele amarelados (icterícia);
- Dores de cabeça;
- Cansaço.
A gravidade da doença é muito variável e depende da causa, mas uma inflamação do fígado pode tornar-se crónica e evoluir para complicações mais graves como cirrose e insuficiência hepática.
Por esta razão, um diagnóstico de hepatite deve sempre ser acompanhado por umx médicx para que a doença seja devidamente tratada.
Algumas hepatites resolvem-se com repouso e alimentação adequada, outras necessitam de tratamentos complexos que permitam controlar a sua evolução.
Nos casos das hepatites B e A, é possível fazer a profilaxia (vacina da hepatite) em pessoas que tenham muitos contactos de risco e independentemente da idade.
Caso tenhas tido um contacto de risco que inclua relações sexuais desprotegidas, atos sexuais em que o preservativo rebentou, partilha de agulhas ou material para piercing e tatuagem não esterilizado, é importante realizar o rastreio às hepatites, principalmente se surgir algum dos sintomas típicos de hepatite, entre 15 a 45 dias após o contacto.
Hepatite A
A hepatite A é uma infeção viral, causada pelo VHA, um vírus do qual existem 7 genótipos. Este vírus é particularmente resistente ao calor e tem a capacidade de se manter infeccioso após meses à temperatura ambiente e por 30 minutos à temperatura de 60ºC. Resiste ao congelamento, bem como a muitos desinfetantes comuns.
É uma doença endémica em países de baixo e médio rendimento, com infraestruturas precárias de saneamento básico e acesso limitado a água potável.
Sendo um vírus cuja principal forma de transmissão é a oral-fecal, estas características fazem que com seja importante uma correta esterilização de certos alimentos e água — por exemplo, pela ação de raios UV, formaldeído ou cloro.
Embora a mortalidade seja relativamente baixa quando comparada com as hepatites B e C, os surtos de hepatite A podem paralisar comunidades inteiras e causar perdas económicas significativas.
Hepatite A: como se transmite?
O VHA é transmitido, principalmente, pela via fecal-oral. Entra no organismo primeiramente pela boca, podendo a infeção ocorrer através de:
- Relação sexual em que há contacto desprotegido ânus-boca;
- Consumo de alimentos e água contaminados, principalmente em locais em que o saneamento básico é precário — incluem-se aqui água não tratada, gelo contaminado, marisco cru (criado em águas com esgotos), frutas e vegetais lavados com água contaminada;
- Contacto pessoal (mais comum dentro da família), pela confeção de alimentos por parte de uma pessoa infetadas com as mãos mal lavadas, por exemplo.
Após a entrada pela boca e desenvolvimento no fígado, o vírus é excretado pelas fezes do indivíduo infetado, mesmo que este não apresente sintomas. A partir daí, pode contaminar água, alimentos ou superfícies e ser ingerido por outras pessoas, perpetuando o ciclo de transmissão.
Sintomas de hepatite A
O período de incubação do VHA varia entre 14 e 28 dias. Em crianças com menos de 6 anos, a infeção é geralmente assintomática (em 90% dos casos). No entanto, em adolescentes e pessoas adultas, a doença manifesta-se de forma muito mais severa.
Os sintomas hepatite A surgem, na maior parte dos casos, de forma abrupta e incluem:
- Fase prodrómica (pré-ictérica) — febre, mal-estar profundo, fadiga, náuseas, vómitos, diarreia e dor abdominal (especialmente na parte superior direita).
- Fase ictérica — icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos), colúria (urina muito escura) e acolia (fezes claras ou acinzentadas, devido à ausência de pigmentos biliares).
A hepatite A não causa doença crónica. A recuperação dos sintomas pode ser lenta (semanas ou meses), contudo, a maior parte das pessoas recupera da hepatite A e ganha imunidade para toda a vida.
Em casos raros (especialmente em pessoas idosas ou com doença hepática prévia), pode desencadear uma hepatite fulminante fatal.
Vacina da hepatite A e outras medidas de prevenção
A vacina da hepatite A é a forma de prevenção mais eficaz. É administrada em duas doses, conferindo proteção a longo prazo.
Em Portugal, esta vacina não faz parte do esquema universal do Programa Nacional de Vacinação, mas é fortemente recomendada para grupos de risco:
- Viajantes para áreas endémicas (África, Ásia, América Central e do Sul);
- Pessoas com práticas sexuais oral-anal desprotegidas;
- Pessoas que utilizam drogas injetáveis ou não injetáveis;
- Doentes com doença hepática crónica (como os portadores de hepatite B ou C).
Além da vacinação, é aconselhado:
- Manter a higiene pessoal, familiar e doméstica;
- Higienização de alimentos suscetíveis;
- Lavagem frequente das mãos, da região perianal e genital antes e após o contacto sexual.
Hepatite B
A hepatite B é causada pelo VHB, um vírus de ADN resistente e extremamente infeccioso (até 100 vezes mais do que o vírus do HIV). O VHB pode sobreviver fora do corpo humano por, pelo menos, 7 dias, mantendo a sua capacidade de causar infeção.
Transmissão do VHB
A transmissão do VHB ocorre através da exposição a sangue, sémen ou fluidos vaginais infetados. As principais vias incluem:
- Transmissão vertical (perinatal) — de uma mãe infetada para x recém-nascidx durante o parto. Esta é a via mais comum em áreas de alta endemicidade (como a Ásia e África Subsaariana);
- Transmissão horizontal (infância) — contacto próximo entre crianças infetadas e não infetadas, através de pequenas feridas ou arranhões;
- Transmissão sexual — relações sexuais desprotegidas com umx parceirx infetadx;
- Exposição percutânea — partilha de agulhas e seringas no consumo de drogas, procedimentos médicos invasivos sem esterilização adequada, tatuagens, piercings e partilha de objetos cortantes e outros que possam conter sangue (lâminas de barbear, alicates de cutículas, escova de dentes, entre outros).
A hepatite B não é transmitida através de:
- Partilha de comida;
- Água;
- Partilha de talheres;
- Amamentação (de acordo com a OMS o risco de transmissão da hepatite B pela amamentação é praticamente inexistente quando os bebés de mães com hepatite B recebem a vacinação adequada);
- Beijo ou abraço;
- Tosse ou espirro.
Sintomas da hepatite B e evolução clínica
A fase aguda da hepatite B é frequentemente assintomática. Quando existem sintomas, estes são semelhantes aos da hepatite A:
- Febre;
- Fadiga;
- Perda de apetite;
- Vómitos e náuseas;
- Dor abdominal;
- Urina escura e fezes claras;
- Icterícia.
Muitas pessoas conseguem resolver a infeção nesta fase naturalmente, outras desenvolvem doença crónica, cirrose ou cancro do fígado. O risco de desenvolver hepatite B crónica é inversamente proporcional à idade em que a infeção ocorre:
- Infeção na infância (até 5 anos): 95% evoluem para cronicidade;
- Infeção em adultos saudáveis: menos de 5% evoluem para cronicidade.
A infeção crónica pode levar décadas até manifestar sintomas, que geralmente só surgem quando já existe cirrose ou insuficiência hepática (ascite, encefalopatia, hemorragias digestivas).
Tratamento da hepatite B
As infeções agudas podem não precisar de tratamento específico e o sistema imunitário consegue controlar a infeção, eliminando o vírus em cerca de 6 meses. A medicação deve ser administrada quando há sintomas, para diminuir a sua gravidade e o seu impacto na vida do doente.
Nas infeções crónicas, a pessoa infetada é medicada com antivirais para controlar a infeção. Esta medicação não cura a infeção, mas é altamente eficaz na redução das lesões no fígado e na diminuição das complicações que decorrem da mesma. O tratamento é, geralmente, contínuo e para toda a vida.
A profilaxia pós-exposição é uma medicação que atua como a PPE, isto é, deve ser tomada após um contacto de risco para evitar a infeção por VHB.
Esta profilaxia é mais eficaz nas primeiras 12 horas após a infeção e consiste em duas etapas:
- Administrar a imunoglobulina endovenosa de forma a estimular a produção de anticorpos anti-VHB;
- Iniciar o esquema de vacinação (3 tomas) nas pessoas não vacinadas.
Vacina contra a hepatite B
A vacina contra a hepatite B é bastante eficaz (entre 80% a 100%) na prevenção. Já se encontra no Plano Nacional de Vacinação de forma universal desde 1995. Desde essa altura, todos os bebés recebem a primeira dose da vacina quando nascem e, depois, aos 2 e 6 meses de idade, num esquema de 3 doses. Quando tomada na infância, esta vacina tem uma taxa de eficácia elevada (de 95 a 99%).
Todos os adolescentes que ainda não tenham feito a vacinação devem iniciar o esquema vacinal o quanto antes, cumprindo o mesmo sistema de 0, 2 e 6 meses após a primeira dose.
A vacina contra a hepatite B é recomendada e gratuita também para alguns grupos de risco, tais como:
- Profissionais de saúde;
- Pessoas hemodialisadas;
- Pessoas hemofílicas;
- Pessoas que moram com portadorxs de hepatite B;
- Estudantes e docentes de faculdades de Medicina e Medicina Dentária, Enfermagem e Tecnologias da Saúde.
Para evitar a hepatite B, para além da vacina, deves ter os seguintes cuidados:
- Usar o preservativo em todas as práticas sexuais;
- Evitar o contacto com sangue ou outros fluidos corporais;
- Praticar sempre sexo seguro;
- Utilizar apenas agulhas esterilizadas e descartáveis (seja no consumo de substâncias ou em tratamentos estéticos);
- Evitar a partilha de escovas de dentes, lâminas de barbear e/ou outros objetos perfurantes ou cortantes (como os utilizados na manicura ou outros procedimentos estéticos);
- Fazer tatuagens, piercings ou acupuntura apenas com material descartável ou devidamente esterilizado.
Hepatite C
A hepatite C é causada pelo Vírus da Hepatite C (VHC). É uma infeção diferente da hepatite C, tanto na sua evolução como no seu tratamento.
Transmissão do VHC
Esta infeção pode ser transmitida pela via sexual, no entanto esta não é a via preferencial, exceto no caso de relações anais (que têm maior risco de transmissão) e em pessoas portadoras de HIV.
O maior risco de transmissão ocorre em situações em que há entrada de sangue diretamente no organismo, como acontece na partilha de material não esterilizado para consumo de drogas injetáveis.
O risco de transmissão de mãe para filhx durante a gravidez é bastante baixo (cerca de 6%), e a amamentação, por norma, é segura, uma vez que, para existir transmissão do vírus, teria de haver troca direta de sangue através de cortes no mamilo e na boca da criança.
Assim sendo, as vias de transmissão incluem:
- Partilha de material injetável — atualmente, é a principal via de novas infeções em países desenvolvidos (uso de drogas intravenosas);
- Transfusões de sangue e produtos sanguíneos — historicamente a via mais comum antes da introdução do rastreio do sangue obrigatório em 1992;
- Procedimentos médicos e estéticos — equipamento médico, odontológico ou de tatuagem mal esterilizado;
- Transmissão sexual e vertical — ocorrem, mas são vias muito menos eficientes do que na hepatite B (risco de transmissão sexual é baixo, exceto em práticas com exposição a sangue, ou em pessoas coinfetadas com HIV).
Sintomas da hepatite C
A infeção aguda por VHC é assintomática em 75 a 85% dos casos, de acordo com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention). Segundo a OMS, dos indivíduos infetados, 30% (com intervalo de 15–45%) conseguem eliminar o vírus espontaneamente. Os restantes 70 a 85% desenvolvem hepatite C crónica.
A progressão da doença é muito lenta, ocorrendo durante décadas, muitas vezes sem sintomas. Sem diagnóstico, cerca de 15 a 30% destes doentes desenvolverão cirrose.
A infeção pode ser aguda e surgir entre 2 e 12 semanas após a infeção. Os sintomas são geralmente leves:
- Fadiga;
- Náusea, vómitos;
- Febre;
- Dores nos músculos ou articulações;
- Perda de apetite;
- Perda de peso;
- Icterícia;
- Urina escura e fezes claras.
A infeção crónica é a mais comum e define-se pela replicação ativa do vírus durante, pelo menos, 6 meses. Os sintomas podem ser leves e pouco específicos durante os primeiros anos:
- Fadiga extrema;
- Problemas cognitivos ligeiros.
Quando não é tratada, a hepatite C pode resultar em cirrose e cancro do fígado.
Por ser uma doença frequentemente assintomática, muitas pessoas desconhecem que estão infetadas e que são transmissoras do vírus.
Para saber se estás infetadx pelo vírus da hepatite C, deves fazer o teste caso tenhas tido algum comportamento de risco e/ou surjam sintomas característicos da infeção.
O principal exame para diagnóstico da hepatite C é a pesquisa de anticorpos contra o vírus VHC, o anti-VHC. Para se chegar a um diagnóstico definitivo, devem ser feitos exames complementares em meio hospitalar.
Podes fazer o teste em vários locais, como centros de saúde, farmácias ou laboratórios, mas muitas pessoas preferem realizá-lo nas diferentes entidades não governamentais e associações. Pesquisa as que se encontram na tua localidade utilizando o nosso mapeamento.
Como tratar a hepatite C? Antivirais de ação direta (DAA)
Ao contrário da hepatite B, já existe cura para a hepatite C. Cerca de 95% dos casos de hepatite crónica desaparecem com o tratamento, que é feito com os antivirais de ação direta (DAA), os quais são tomados sob vigilância durante o tempo estipulado pelx médicx, que pode durar várias semanas.
Quando os efeitos colaterais do tratamento são muito severos, pode haver necessidade de suspender o tratamento.
Nos casos em que não ocorre a cura total, o tratamento permite, pelo menos, diminuir a severidade dos sintomas e evitar a doença hepática grave. Quando a doença danifica de forma extensa o fígado, causando cirrose, x paciente pode ter de recorrer a um transplante de fígado.
As pessoas infetadas com VHC devem evitar o álcool e medicamentos tóxicos para o fígado, para potenciar a cura e evitar mais danos.
Como prevenir?
O vírus da hepatite C possui muitas variações e mutações, chamadas de subtipos ou genótipos. Por esta razão, não existe vacina para a hepatite C, acabando a prevenção por ser a de evitar o contacto com sangue infetado.
A partilha de agulhas e seringas contaminadas é ainda a principal via de infeção.
O que deves evitar:
- Consumo de substâncias injetáveis com material não esterilizado;
- Partilha de escovas de dentes, lâminas e outros objetos que possam conter sangue;
- Fazer tatuagens e piercings com material não esterilizado;
- Praticar sexo sem proteção.
Hepatite D
A hepatite D (VHD) é um vírus que necessita obrigatoriamente da presença do vírus da hepatite B (VHB) para se replicar e infetar as células. A coinfeção (adquirir ambos em simultâneo) ou a superinfeção (adquirir o VHD quando já se tem hepatite B crónica) resulta na forma mais grave de hepatite viral.
De acordo com a OMS, a superinfeção acelera drasticamente a progressão da doença (70-90% dos casos), levando à cirrose num curto espaço de tempo.
Como prevenir e tratar?
Uma vez que a hepatite D só infeta quem tem o VHB, a prevenção dá-se através da vacina contra a hepatite B.
Recentemente, a Agência Europeia do Medicamento aprovou o Bulevirtide, um novo fármaco que inibe a entrada do VHD nas células, para o tratamento de hepatite D crónica.
Hepatite E
O vírus da hepatite E (VHE) é muito similar à hepatite A. Transmite-se pela via fecal-oral, principalmente através do consumo de água contaminada ou pelo consumo de carne de porco ou javali malcozinhada.
O VHE geralmente causa uma doença aguda e autolimitada (resolve-se por si própria). No entanto, a hepatite E, de acordo com a OMS, é particularmente perigosa para mulheres grávidas, podendo causar insuficiência hepática fulminante no terceiro trimestre de gestação, com taxas de mortalidade materna a atingir os 20-25%.
Como prevenir e tratar?
Não existe um tratamento antiviral específico para a hepatite E aguda, contudo, como a doença é geralmente autolimitada, recomenda-se apenas:
- Repouso, hidratação e alimentação ligeira;
- Evitar medicamentos que possam agravar a função hepática, como o paracetamol.
A hospitalização só se dá nos casos de hepatite fulminante ou em grávidas sintomáticas (pelo risco de mortalidade no terceiro trimestre de gravidez).
A OMS identifica as seguintes ações de prevenção:
- Garantir a qualidade e segurança do abastecimento público de água potável;
- Implementar sistemas adequados de tratamento e eliminação de fezes humanas (saneamento básico);
- Manter práticas rigorosas de higiene pessoal, incluindo lavagem das mãos;
- Evitar o consumo de água e gelo de origem desconhecida ou não tratada;
- Cozinhar bem a carne de porco, javali e veado, uma vez que estes animais são reservatórios do vírus.
Na China, é usada uma vacina contra o VHE (HEV 239 — Hecolin), contudo, o seu uso comercial generalizado não está disponível fora do país, sendo usada, principalmente, como resposta a surtos em contextos humanitários.
Hepatite G
O vírus da hepatite G (VHG), ou, pela nomenclatura mais recente, Human Pegivirus 1 (HPgV-1), foi identificado em 1995 e pertence à família flaviviridae, o mesmo grupo taxonómico do vírus da hepatite C.
A hepatite G não se encontra nas tabelas padrão da OMS nem nos programas de saúde pública, pois, ao contrário dos vírus A, B, C, D e E, a infeção pelo VHG não está associada a inflamação hepática clinicamente relevante, como revela o estudo de Kleinman et al. (2001), publicado na revista Transfusion.
Alguns estudos, como o de Xiang et al. (2001), publicado no New England Journal of Medicine, sugerem ainda que a coinfecção com VHG pode ter um efeito protetor em doentes com HIV, retardando a progressão para SIDA.
Transmissão da Hepatite G
O VHG transmite-se, principalmente, pelo contacto com sangue contaminado. Por isso, encontra-se mais frequentemente este vírus em pessoas que usam drogas injetáveis, doentes em hemodiálise, recetores de transfusão de sangue e pessoas coinfetadas com VHC ou HIV,
A transmissão sexual e a transmissão vertical (de mãe para filho) estão documentadas, mas em números muito baixos.
Tratamento e prevenção da Hepatite G
Não existe tratamento antiviral específico aprovado para a hepatite G, até porque a infeção não provoca inflamação hepática significativa. Também não existe vacina contra este vírus.
A prevenção baseia-se em:
- Não partilhar seringas, agulhas ou qualquer material de injeção;
- Exigir material esterilizado em procedimentos médicos, odontológicos, de tatuagem ou piercing;
- Praticar sexo seguro com uso de preservativo;
- Garantir o rastreio do sangue em transfusões e produtos sanguíneos.
Hepatite autoimune
A hepatite autoimune é uma doença crónica de causa desconhecida, na qual o sistema imunitário do organismo ataca e destrói as próprias células hepáticas. Afeta, principalmente, pessoas do sexo feminino e, especialmente, na adolescência/início da idade adulta e após os 40 anos.
Sintomas da hepatite autoimune
Os sintomas iniciais são, frequentemente, ligeiros ou inexistentes. Quando há sintomas, os mais comuns são:
- Fadiga;
- Dores nas articulações;
- Desconforto abdominal;
- Comichão;
- Náuseas;
- Aumento do fígado;
- Icterícia (ocasionalmente).
Em 10% a 20% dos casos, a doença apresenta-se de forma aguda e fulminante.
Como tratar a hepatite autoimune?
O tratamento deste tipo de hepatite tem como objetivo suprimir a resposta imunitária para induzir e manter a remissão da doença, geralmente pelo uso de corticosteroides associados a um imunossupressor.
O transplante de fígado é a única opção curativa quando a doença progride para cirrose descompensada.
Rastreio das hepatites
Uma vez que a maior parte dos casos de hepatite não apresenta sintomas, o rastreio torna-se essencial para detetar casos precocemente, evitando o evoluir para doenças hepáticas graves. O rastreio é feito através de análises clínicas para avaliar a função hepática.
A OMS e as autoridades de saúde recomendam o rastreio das hepatites B e C a todos os adultos pelo menos uma vez na vida, e testes regulares para populações com comportamentos de risco.
Se tens dúvidas sobre o teu estado de saúde ou se estiveste expostx a algum fator de risco, marca uma consulta médica para fazer o teu rastreio.