Saúde Reprodutiva
Endometriose: o que é, sintomas, diagnóstico e tratamentos — guia completo
A endometriose é uma doença que provoca muita dor física e, em alguns casos, é incapacitante. Na maioria dos casos não tem cura e o diagnóstico precoce é essencial para travar a sua progressão. Apesar disso, e de todo o sofrimento que causa, o diagnóstico é, muitas vezes, lento, causando frustração nas pessoas que sofrem com esta doença, até porque a dor passa a ser normalizada (quando nunca o deveria ser).
Estima-se que 1 em cada 10 pessoas com útero em idade reprodutiva sofram de endometriose — o que se traduz em cerca de 350 mil pessoas em Portugal (embora algumas fontes, como o Hospital da Luz, refiram um número bem superior) e mais de 190 milhões em todo o mundo.
De acordo com o Estudo VivEndo, realizado em Portugal com o apoio da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) e da Associação MulherEndo, o atraso médio no diagnóstico da endometriose no nosso país é de 8 anos. Durante este tempo, quem sofre da doença ouve repetidamente que "as dores menstruais são normais", adiando o tratamento e permitindo que a doença progrida silenciosamente.
É importante dizer que a dor nunca pode ser normalizada. Não é normal sentir dor e, quando existe, deve ser investigada a sua causa. Se este é o teu caso, continua a ler este artigo. A informação é fundamental para saberes se algo não está bem no teu corpo.
Índice
- Endometriose: o que é
- O que causa endometriose
- Quais os sintomas e sinais de endometriose?
- Como saber se tenho endometriose?
- Como diagnosticar endometriose?
- Tipos de lesões de endometriose
- Qual o tratamento para a endometriose?
- Uma pessoa com endometriose pode engravidar?
- Qual o impacto da endometriose na qualidade de vida?
- Perguntas frequentes sobre endometriose (FAQ)
- Dores menstruais intensas são normais?
- Todas as pessoas com endometriose sentem dor?
- A endometriose pode ser confundida com outras doenças?
- A endometriose é uma doença rara?
- A endometriose só afeta pessoas adultas?
- Existe relação entre endometriose e cancro?
- Engravidar cura a endometriose?
- A histerectomia cura a endometriose?
- A pílula cura a endometriose?
- A endometriose melhora com a menopausa?
- Posso fazer exercício físico com endometriose?
- A endometriose afeta apenas pessoas com útero?
- A dor não deve ser desvalorizada: procura ajuda
Endometriose: o que é
A endometriose é uma doença inflamatória crónica e estrogénio-dependente, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio (a mucosa que reveste a parede interna do útero) fora da cavidade uterina.
O endométrio normal cresce e espessa-se para preparar o útero para uma possível gravidez. Quando a gravidez não ocorre, este tecido descama e é expulso sob a forma de menstruação.
O problema da endometriose é que o tecido "ectópico" (fora do seu local normal) responde exatamente às mesmas flutuações hormonais. Ou seja, durante o ciclo, cresce, inflama e sangra. No entanto, como está localizado fora do útero, este sangue e tecido não têm como sair do corpo — ficam retidos, desencadeando uma resposta inflamatória local que resulta na formação de tecido cicatricial (fibrose), aderências (que "colam" os órgãos uns aos outros) e lesões ou quistos.
As localizações mais comuns destas lesões são na região pélvica, afetando:
- Ovários (onde frequentemente formam quistos, conhecidos como endometriomas);
- Trompas de Falópio;
- Vagina;
- Útero (adenomiose);
- Áreas ao redor do útero;
- Ligamentos uterossacros (que suportam o útero);
- Bexiga e ureteres;
- Intestino grosso (especialmente o reto e o cólon sigmoide).
Em casos mais raros, a endometriose pode atingir o umbigo, cicatrizes de cesarianas, o diafragma e até os pulmões.
Endometriose profunda e as suas implicações
Existem vários tipos de endometriose, os quais são baseados na profundidade e na localização das lesões. A endometriose profunda (ou endometriose infiltrativa profunda) é a forma mais grave da doença.
Estamos perante um quadro de endometriose profunda quando as lesões ou nódulos penetram mais de 5 mm abaixo da superfície do peritoneu (revestimento da pelve). Estas lesões são densas, duras e têm uma tendência grande para invadir órgãos vitais, como:
- Intestino;
- Bexiga;
- Ureteres;
- Vagina;
- Ligamentos uterossacros.
Sintomas da endometriose profunda
Os sintomas da endometriose profunda são muito severos (normalmente) e estão associados geralmente ao órgão que está a ser invadido. Assim:
- Se atinge o intestino — dor muito forte ao defecar, cólicas intestinais violentas, episódios de diarreia alternados com obstipação severa, inchaço na barriga, e, em casos avançados, sangramento retal (retorragia);
- Se atinge a bexiga ou ureteres — dor intensa quando a bexiga está cheia, dor ao urinar, idas mais recorrentes à casa de banho para urinar, presença de sangue na urina (hematúria) durante o período e infeções urinárias de repetição sem presença de bactérias nas análises;
- Se atinge os nervos pélvicos (como o nervo ciático) — dor que irradia para as nádegas, pernas ou região lombar, agravando-se com a menstruação;
Outros sintomas comuns na endometriose profunda:
- Dor pélvica crónica severa — dor constante e intensa no fundo da barriga, que não cede com analgésicos e anti-inflamatórios comuns;
- Dispareunia profunda — dor muito intensa durante as relações sexuais, a ponto de impossibilitar a vida sexual.
Endometriose profunda pode matar?
A endometriose é uma doença benigna, ou seja, as suas células não são cancerígenas. No entanto, o seu comportamento pode ser extremamente agressivo, uma vez que pode invadir outros órgãos que são vitais.
Embora seja muito raro a doença ser diretamente fatal, a endometriose profunda não tratada pode trazer complicações graves, as quais podem pôr a vida ou a função de órgãos em risco. Por exemplo:
- A infiltração profunda nos ureteres pode bloqueá-los de forma silenciosa. Sem dor aparente, a urina acumula-se no rim (hidronefrose), podendo levar à perda total e irreversível da função renal;
- A invasão severa do intestino pode causar uma obstrução intestinal aguda, uma emergência médica que requer cirurgia imediata para evitar a perfuração do intestino;
- Existe também uma associação entre endometriomas (quistos de endometriose nos ovários) e um tipo raro de cancro do ovário (carcinoma de células claras).
A endometriose profunda pode causar danos graves e irreversíveis. Por isso, esta doença requer um acompanhamento médico rigoroso e multidisciplinar, e o diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para garantir o bem-estar e a qualidade de vida de pacientes com endometriose.
Adenomiose e endometriose: qual a diferença?
A adenomiose é uma doença muito similar à endometriose. A diferença é que, enquanto na endometriose o tecido cresce fora do útero, na adenomiose o tecido cresce e infiltra-se dentro da parede muscular do útero (miométrio).
Principais diferenças entre adenomiose e endometriose:
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Endometriose |
Adenomiose |
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Localização |
Fora do útero (ovários, intestino, bexiga, etc.) |
Dentro da parede muscular do útero |
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Sintomas principais |
Dor pélvica, dispareunia, sintomas intestinais/urinários |
Menstruações muito abundantes, útero aumentado, dor pélvica |
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Diagnóstico |
Ecografia, ressonância magnética, laparoscopia |
Ecografia transvaginal, ressonância magnética |
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Tratamento |
Hormonal ou cirúrgico |
Hormonal, DIU ou histerectomia (em casos graves) |
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Fertilidade |
Pode reduzir a fertilidade |
Pode reduzir a taxa de implantação embrionária |
A adenomiose e a endometriose coexistem, muitas vezes, na mesma pessoa, o que agrava a severidade dos sintomas e torna o tratamento mais complexo.
O que causa endometriose
Ainda não se encontrou uma causa direta para a endometriose, e existem várias teorias médicas para esta doença que ainda estão em cima da mesa. Uma das mais debatidas é a da menstruação retrógrada (também conhecida como teoria de Sampson): durante a menstruação, parte do fluxo menstrual retrocede pelas trompas de Falópio em direção à cavidade pélvica (onde as células endometriais se implantam e crescem).
Contudo, a menstruação retrógrada ocorre em 76 a 90% das pessoas com útero, mas apenas uma pequena percentagem desenvolve endometriose, o que indica que outros fatores estão presentes, como:
- Predisposição genética — se alguém da família próxima tem endometriose, o risco de se desenvolver a doença aumenta;
- Disfunção do sistema imunitário — o sistema imunitário pode não reconhecer e destruir o tecido endometrial fora do útero;
- Metaplasia do epitélio celómico — células normais que revestem os órgãos abdominais transformam-se em células endometriais por estímulos inflamatórios ou hormonais;
- Fatores ambientais — a exposição a desreguladores endócrinos, como as dioxinas, tem sido associada a um maior risco;
- Fatores reprodutivos — menarca precoce, ciclos menstruais curtos, menstruações abundantes e prolongadas, e nunca ter tido filhos estão associados a risco mais elevado.
Quais os sintomas e sinais de endometriose?
A endometriose é frequentemente chamada de "doença camaleão", porque os seus sintomas variam muito de pessoa para pessoa e podem confundir-se com os de outras condições, como a síndrome do intestino irritável ou a doença inflamatória pélvica (DIP).
O sintoma central (e o mais debilitante) é a cólica menstrual muito intensa (dismenorreia severa) que começa dias antes da menstruação e pode durar vários dias (muitas vezes, a dor não alivia com analgésicos ou anti-inflamatórios). Se a tua dor te impede de fazer atividades rotineiras ou de trabalhar, é um sinal de alerta.
Outros sintomas comuns incluem:
- Dispareunia profunda — dor intensa e profunda durante e/ou após as relações sexuais com penetração;
- Dor pélvica crónica — dor constante e persistente (que dura há mais de 6 meses) no fundo da barriga ou na região lombar (independentemente do ciclo menstrual);
- Problemas digestivos — dor aguda ao evacuar (disquesia), obstipação, diarreia, cólicas intestinas ou náuseas (quadro que se agrava durante a menstruação);
- Disúria — dor ou ardor ao urinar, sensação de bexiga pesada ou necessidade frequente de ir à casa de banho (especialmente durante a menstruação);
- Fadiga crónica — cansaço extremo e inexplicável, exaustão, que piora na menstruação;
- Alterações no fluxo menstrual — menstruação muito abundante (menorragia) ou perdas de sangue de cor escura fora do período menstrual (spotting);
- Infertilidade ou dificuldade em engravidar — em algumas pessoas, este pode ser o primeiro sinal detetado.
Barriga de endometriose: o que é
Outro dos sintomas comuns da endometriose é o inchaço abdominal. É tão frequente que foi apelidado de “barriga de endometriose” ou “endo belly”.
Durante as crises, a barriga pode inchar de tal forma que a pessoa parece estar grávida de vários meses. O inchaço pode surgir de repente, ao longo do dia, e é frequentemente acompanhado de dor e desconforto intensos. Geralmente, o inchaço ocorre na segunda metade do ciclo menstrual (à medida que as alterações hormonais fazem aumentar os sintomas).
A barriga de endometriose pode ser causada pela inflamação sistémica gerada pelas lesões, associada à retenção de líquidos na cavidade pélvica, ao envolvimento do intestino pela doença e à disbiose intestinal (desequilíbrio da flora intestinal).
Como diminuir a barriga de endometriose?
Para diminuir a barriga de endometriose, é essencial fazer alterações no estilo de vida e na alimentação (sempre complementar ao tratamento médico). Se sofres com este sintoma, deves:
- Adotar uma dieta anti-inflamatória — ingere mais alimentos ricos em ómega-3 (sementes de linhaça e chia, peixes gordos), antioxidantes (frutos vermelhos, gengibre, entre outros) e vegetais. Reduz, também, o consumo de alimentos processados, açúcar refinado, álcool e gorduras saturadas;
- Eliminar alimentos prejudiciais — muitas pessoas com endometriose sentem o sintoma agravar-se com alimentos específicos, como aqueles com glúten, carne vermelha e laticínios. Faz um diário alimentar para te ajudar a identificar os alimentos que agravam os teus sintomas;
- Aumentar o consumo de fibras e água — uma boa hidratação e uma alimentação rica em fibras evita a obstipação;
- Ingerir chás digestivos — experimenta beber infusões de gengibre, funcho ou hortelã-pimenta;
- Fazer fisioterapia pélvica — pode ajudar a relaxar os músculos do pavimento pélvico, reduzir as aderências superficiais e melhorar a mobilidade abdominal;
- Fazer exercício físico moderado — atividades como pilates, ioga ou natação podem reduzir a inflação e melhorar o bem-estar geral.
Como saber se tenho endometriose?
Se reconheces em ti algum dos seguintes sinais, é importante procurar ajuda médica especializada. É importante teres acompanhamento precoce, pois, quanto mais cedo tiveres o diagnóstico, menos a doença progride. Não esperes que a dor se torne insuportável para procurar ajuda.
Sinais de alerta:
- Dores menstruais que não melhoram com ibuprofeno ou outros analgésicos comuns;
- Dor durante ou após as relações sexuais com penetração;
- Dor ao urinar ou ao evacuar, especialmente durante o período;
- Menstruações muito abundantes ou com coágulos grandes;
- Fadiga extrema associada ao ciclo menstrual;
- Dificuldade em engravidar após 6 a 12 meses de tentativas;
- Inchaço abdominal persistente ou cíclico (barriga de endometriose);
- Dor pélvica crónica que dura mais de 6 meses.
No já mencionado estudo VivEndo, 80,4% das pessoas com endometriose em Portugal afirmam que, pelo menos, umx dxs médicxs que as viu afirmou que as dores que sentem são normais.
Não são!
Se as tuas dores não são consideradas, procura outra opinião médica. A dor merece ser investigada e tratada.
Como diagnosticar endometriose?
O diagnóstico da endometriose é feito a partir da história clínica (histórico familiar e sintomas), exame físico e exames de imagem. Em alguns casos, pode fazer-se um procedimento cirúrgico para confirmar a suspeita da doença.
Exames de imagem para diagnosticar endometriose
Apesar da grande evolução dos exames de imagem, a eficácia ainda depende muito da experiência da pessoa que os realiza. A verdade é que uma ecografia “normal” não exclui endometriose. É fundamental que esta seja feita por uma pessoa especialista em endometriose.
A ecografia pélvica transvaginal ainda é o exame preferido para o diagnóstico, uma vez que é eficaz na deteção de endometriomas e de lesões de endometriose profunda no intestino, bexiga e ligamentos.
Quando a ecografia não é conclusiva, faz-se uma ressonância magnética pélvica. Este exame de imagem permite mapear com precisão lesões de endometriose profunda muito complexas, além de ser útil para planear uma cirurgia.
Laparoscopia para diagnosticar endometriose
A laparoscopia é uma cirurgia minimamente invasiva, em que se introduz uma câmara minúscula através do umbigo. Desta forma, é possível visualizar diretamente toda a cavidade pélvica, avaliar a extensão da doença e recolher biópsias do tecido para confirmar o diagnóstico de endometriose.
A grande vantagem da laparoscopia é que permite diagnosticar e remover as lesões no mesmo momento.
Geralmente é um procedimento rápido, mas, dependendo da extensão da doença, pode durar algumas horas.
Tipos de lesões de endometriose
As lesões de endometriose não têm todas o mesmo aspeto e variam muito de acordo com o tipo de lesão:
Lesões superficiais, peritoneais
As lesões superficiais, peritoneais, são as mais comuns e estão localizadas no peritoneu. São lesões pequenas e superficiais, cuja invasão não ultrapassa os 5 mm.
Estas podem assumir diferentes aspetos:
- Vermelhas ou rosadas — são lesões ativas, altamente vascularizadas, que se assemelham ao endométrio. Estas são frequentemente hemorrágicas, rodeadas por reação inflamatória;
- Acastanhadas ou negras — lesões antigas apresentam uma cor acastanhada ou um aspeto de microcistos negros;
- Esbranquiçadas —indicam um processo de cicatrização.
Endometriomas ováricos
As lesões quísticas dos ovários, ou endometriomas ováricos, são lesões hemorrágicas que podem variar entre alguns mm e vários cm. Elas encistam sob o parênquima ovárico e deslocam-no progressivamente.
Resultam da invaginação intraovariana de uma lesão na superfície do ovário, ou seja, a lesão inicia na superfície do ovário e infiltra-se no interior do ovário progressivamente.
Lesões profundas, subperitoneais
São lesões duras e fibrosas que penetram mais de 5 mm no peritoneu e tendem a infiltrar-se nos órgãos circundantes (intestino, bexiga, ureteres), comportando-se de forma agressiva.
Qual o tratamento para a endometriose?
Não existe um tratamento único para a endometriose, devendo este ser personalizado, dependendo da intensidade da dor, da localização das lesões, da idade, do desejo de engravidar e dos efeitos secundários dos medicamentos.
Sabendo que a endometriose se “alimenta” de estrogénios e se agrava com a menstruação, uma das principais indicações para todas as pessoas com endometriose é suspender a menstruação (induzir a amenorreia) e bloquear as flutuações hormonais. Desta forma, conseguem controlar-se as lesões e reduzir a inflamação.
Sendo assim, é comum ser prescrita a pílula combinada (contínua) para pessoas com dor moderada e que não desejem engravidar no curto prazo.
Progestativos, como o Dienogest/Visanne, são recomendados para pessoas com dor moderada a severa. É um tratamento a longo prazo que inibe o crescimento do endométrio.
Pessoas com dor pélvica e adenomiose associada podem ver melhorias com o DIU hormonal. Já aquelas com dor severa ou em fase pré-cirúrgica podem beneficiar com análogos da GnRH (induz menopausa temporária).
Qual a melhor pílula para endometriose em Portugal?
A pílula Dienogest (comercializada como Dimetrum, Visanne, Zafril, entre outros) é uma das opções médicas para a endometriose, como mencionado no artigo Dienogest in endometriosis treatment: A narrative literature review. Este progestativo revelou grande eficácia na redução da dor pélvica, assim como na atrofia das lesões de endometriose.
Embora tenha excelentes resultados, a melhor pílula é aquela que se adequa melhor ao perfil clínico da pessoa com endometriose. O tratamento deve ser individualizado e, assim, não há uma solução igual para todas as pessoas.
Na escolha da pílula, deve ter-se em conta:
- História clínica;
- Sintomas;
- Desejo (ou não) de engravidar;
- Tolerância a possíveis efeitos secundários;
- Custo e disponibilidade do medicamento.
Como complemento a outros tratamentos, podem ser prescritos analgésicos e anti-inflamatórios para alívio sintomático da dor (ligeira a moderada).
Cirurgia para tratar endometriose
A cirurgia para tratar a endometriose está indicada quando os tratamentos não conseguem controlar a dor, em casos de endometriose profunda que ameaça o funcionamento de órgãos (como o intestino e os rins), quando existem quistos ováricos muito grandes, ou para melhorar a fertilidade.
Geralmente, esta cirurgia é feita por videolaparoscopia, em que x cirurgiãx remove todas as lesões visíveis de endometriose, liberta aderências e restaura a anatomia normal da pelve.
A cirurgia:
- É feita sob anestesia geral;
- Tem uma duração variável, podendo ir de 1 hora a 5 ou mais horas, dependendo das lesões e do envolvimento de outros órgãos;
- Pode requerer ressecção intestinal, com participação de cirurgiãx colorretal, em casos de endometriose profunda com envolvimento intestinal;
- Tem uma recuperação relativamente rápida (entre 1 e 4 semanas, dependendo da complexidade).
Regra geral, recomenda-se manter o tratamento hormonal após a cirurgia, para prevenir a recorrência de lesões.
Riscos da cirurgia para tratar a endometriose
Todas as cirurgias, por muito simples que sejam, têm riscos, e a laparoscopia para o tratamento da endometriose não é exceção. Assim, é possível haver:
- Hemorragia;
- Infeção;
- Lesão de órgãos adjacentes;
- Complicações decorrentes da anestesia.
Cirurgias de endometriose profunda complexa acarretam riscos mais altos, pelo que devem ser feitas em centros especializados com equipas multidisciplinares.
Endometriose tem cura? Como curar endometriose?
Não há cura definitiva para a endometriose, mas é uma doença tratável. O tratamento não pretende curar, mas:
- Eliminar ou reduzir significativamente a dor;
- Travar a progressão das lesões;
- Evitar danos nos órgãos;
- Preservar ou restaurar a fertilidade;
- Devolver qualidade de vida e bem-estar.
Uma pessoa com endometriose pode engravidar?
Muitas pessoas com endometriose enfrentam dificuldades em engravidar. O Estudo VivEndo revelou que 77,7% das pessoas que tentaram engravidar tiveram dificuldades, e 51,4% recorreram a tratamentos para conseguir uma gravidez.
Existem várias razões para a fertilidade ser prejudicada pela doença, entre as quais destacamos:
- As aderências severas podem bloquear as trompas de Falópio, impedindo que o espermatozoide alcance o óvulo;
- Os endometriomas ováricos podem, igualmente, danificar o tecido saudável do ovário e reduzir a quantidade de óvulos disponíveis;
- A inflamação resultante da endometriose torna o ambiente pélvico tóxico para os espermatozoides, para os óvulos e para a implantação do embrião no útero;
- Quando a endometriose coexiste com adenomiose, a implantação embrionária é ainda mais difícil. De acordo com o estudo Impact of adenomyosis and endometriosis on IVF/ICSI pregnancy outcome in patients undergoing gonadotropin-releasing hormone agonist treatment and frozen embryo transfer, pessoas com endometriose e adenomiose apresentam uma taxa de gravidez clínica significativamente inferior (22,72%) à de pessoas apenas com endometriose (36,62%).
Apesar da maior dificuldade, quem tem endometriose pode engravidar. Pessoas com formas ligeiras a moderadas da doença conseguem engravidar com mais facilidade.
Pessoas com muitas dificuldades em engravidar podem beneficiar da cirurgia para remoção das lesões, uma vez que melhora a taxa de gravidez espontânea. Quando a cirurgia não resolve ou quando a reserva de óvulos já está comprometida, pode optar-se por tratamentos de fertilidade.
Se sofres de endometriose, discute a preservação da fertilidade com x médicx que te acompanha.
Qual o impacto da endometriose na qualidade de vida?
A endometriose tem impacto físico, emocional e social profundo, principalmente porque a dor é tamanha que impossibilita viver normalmente e manter rotinas.
Assim, a doença interfere em:
- Trabalho e estudos — a dor crónica e a fadiga levam a que pessoas com endometriose faltem ao trabalho/escola e vejam a sua produtividade baixar;
- Saúde mental — a demora do diagnóstico, a dor constante e a não valorização da dor por parte dxs profissionais de saúde podem gerar ansiedade, isolamento social e depressão.
- Sexualidade e relacionamentos — a dor sentida durante as relações sexuais (dispareunia) gera medo, evitamento da intimidade e, consequentemente, tensão nos relacionamentos conjugais. De acordo com o Estudo VivEndo, o impacto na vida sexual e o impacto psicológico são os fatores que mais afetam a vida das pessoas com endometriose;
- Vida social — uma pessoa com endometriose não sabe quando as crises de dor surgem. Muitas evitam viagens, passeios ou convívios fora de casa pela imprevisibilidade das crises.
Perguntas frequentes sobre endometriose (FAQ)
Dores menstruais intensas são normais?
Não. Não é normal ter dores menstruais que incapacitam e que não passam com analgésicos.
Todas as pessoas com endometriose sentem dor?
Não. Algumas pessoas não apresentam sintomas, descobrindo a doença durante exames de fertilidade (muitas vezes pela dificuldade em engravidar).
A endometriose pode ser confundida com outras doenças?
Sim. Os sintomas da endometriose sobrepõem-se frequentemente aos da síndrome do intestino irritável (SII), da doença inflamatória pélvica (DIP), dos miomas uterinos e de outras condições ginecológicas. Esta sobreposição é uma das principais razões para o atraso no diagnóstico.
A endometriose é uma doença rara?
Não. Esta doença afeta 1 em cada 10 pessoas com útero em idade reprodutiva.
A endometriose só afeta pessoas adultas?
Não. A doença pode surgir desde a primeira menstruação.
Existe relação entre endometriose e cancro?
A endometriose é uma doença benigna. No entanto, vários estudos científicos, como o de Yue Sun e Guoyan Liu ou o de K.S. Kim et al., apontam uma forte associação entre a endometriose e o aumento do risco de cancro do ovário.
Engravidar cura a endometriose?
Não. A gravidez até pode suprimir os sintomas, mas é algo temporário e não cura a doença. Os sintomas regressam após o parto.
A histerectomia cura a endometriose?
Sim, se a endometriose estiver restrita ao útero. Caso existam lesões fora do útero, estas podem persistir após a remoção do útero.
A pílula cura a endometriose?
Não. A pílula controla os sintomas, mas não remove as lesões causadas pela endometriose.
A endometriose melhora com a menopausa?
Na maioria dos casos, sim. Como a endometriose é dependente dos estrogénios, a menopausa natural (que reduz drasticamente os níveis de estrogénio) tende a levar à regressão das lesões e ao alívio dos sintomas. No entanto, em mulheres que fazem terapia hormonal de substituição após a menopausa, a doença pode reativar-se.
Posso fazer exercício físico com endometriose?
Sim, e é altamente recomendado. O exercício físico moderado e regular tem efeitos anti-inflamatórios e pode ajudar a reduzir a dor crónica. Opta por atividades de baixo impacto, como ioga, pilates, natação e caminhada. Evita exercícios de alto impacto durante as crises de dor.
A endometriose afeta apenas pessoas com útero?
Não. A endometriose afeta principalmente pessoas com útero, mas a evidência científica documenta a sua ocorrência noutras populações. De acordo com o estudo Endometriosis in Transgender Men: Bridging Gaps in Research and Care—A Narrative Review, em homens trans (pessoas designadas do sexo feminino à nascença que se identificam como homens), a prevalência estimada é de cerca de 25%, sendo que 32% dos que reportam dor pélvica recebem um diagnóstico de endometriose.
Em homens cisgénero, a endometriose é muitíssimo rara, como refere o estudo Endometriosis in a Man as a Rare Source of Abdominal Pain: A Case Report and Review of the Literature, estando apenas documentados 16 casos na literatura médica mundial, a maioria associada a terapia prolongada com estrogénios (por exemplo, no tratamento do cancro da próstata), cirrose hepática ou, mais raramente, a alterações hormonais secundárias à obesidade.
A dor não deve ser desvalorizada: procura ajuda
A endometriose é uma doença que pode condicionar a tua vida. A dor não deve ser desvalorizada (nem por ti nem pelxs profissionais de saúde). Com o diagnóstico certo e o tratamento adequado, a dor associada à doença pode ser gerida com eficácia.
Se sentes dor e reconheces em ti os sintomas descritos acima, procura ajuda médica especializada. Quanto mais cedo tiveres o diagnóstico, menos a doença progride e mais rápido recuperas a tua qualidade de vida.