
Doença inflamatória pélvica (DIP): o que é, causas e tratamento
A doença inflamatória pélvica (DIP) é uma infeção silenciosa, com sintomas que podem passar despercebidos, a qual afeta os órgãos reprodutores superiores, podendo mesmo levar a complicações sérias, como infertilidade ou dor crónica (se não tratada a tempo).
Uma dor no fundo da barriga, facilmente confundida com dores menstruais, ou um corrimento diferente podem ser os primeiros sinais de DIP. Por serem sintomas muito pequenos, muitas pessoas desvalorizam e não procuram ajuda atempadamente.
Embora seja uma condição comum, principalmente entre as pessoas mais jovens (entre os 15 e os 25 anos), a DIP continua a ser pouco falada. As infeções sexualmente transmissíveis (IST) são as principais causadoras da doença inflamatória pélvica e, com o aumento preocupante dos casos em Portugal e na Europa de IST, é importante estares informadx.
Aqui, vamos dar-te um guia completo sobre DIP: causas, sintomas (incluindo os mais subtis), tratamentos, entre outras informações úteis.
O que é a doença inflamatória pélvica (DIP)?
A doença inflamatória pélvica (DIP) é uma infeção grave do trato genital superior. Na maior parte dos casos, desenvolve-se de forma progressiva: a inflamação começa na vagina, espalha-se e atinge o colo do útero (cervicite), o revestimento do útero (endometrite), as trompas de Falópio (salpingite) e os ovários (ooforite). Em alguns casos, pode acometer toda a pelve e o baixo-ventre.
Não havendo tratamento adequado, a inflamação pode ter consequências graves, como obstrução das trompas ou formação de abcessos.
O diagnóstico precoce é essencial, pois a DIP é perfeitamente tratável e as complicações mais graves podem ser facilmente evitadas.
Quais são as causas mais comuns da DIP?
A principal causa da doença inflamatória pélvica é o contacto com bactérias transmitidas através de relações sexuais desprotegidas. A verdade é que a maioria dos casos de DIP é provocada por IST não tratadas adequadamente, especialmente por:
- Clamídia (Chlamydia trachomatis) — é a infeção bacteriana mais reportada em Portugal e no resto da Europa. Afeta, principalmente, pessoas jovens, entre os 20 e os 24 anos. Não costuma apresentar sintomas iniciais, o que dificulta o diagnóstico precoce;
- Gonorreia (Neisseria gonorrhoeae) — também é uma infeção bacteriana muito frequente e, se não tiver tratamento atempado, sobe para o trato reprodutor. Esta tende a causar sintomas mais graves.
Apesar de não ser tão comum, pode desenvolver-se DIP quando as bactérias normais da vaginal e do trato intestinal se desequilibram e ascendem para as partes superiores.
Outros fatores de risco incluem:
- Procedimentos médicos locais (biópsia uterina, curetagem ou colocação do DIU);
- Parto normal;
- Aborto;
- Duches vaginais frequentes.
Doença inflamatória pélvica (DIP): sintomas mais frequentes
A dificuldade de diagnóstico da doença inflamatória pélvica prende-se à grande variação de apresentação clínica. Tanto pode ser uma doença aguda e sintomática, como pode ser uma doença subclínica e crónica.
Na doença subclínica, os sintomas são muito subtis e, em alguns casos, inexistentes. Não há presença de febre, pode não ter dor (quando há, é pouca) e o corrimento apresenta alterações pouco expressivas. Nestes casos, a pessoa não procura ajuda, por não sentir necessidade, mas a inflamação vai progredir e causar danos.
Na forma aguda, o corpo dá sinais claros de que algo não está bem. Entre os sintomas mais comuns estão:
- Dor ou sensibilidade na zona inferior da barriga (dor pélvica) — pode ocorrer de forma repentina ou pode ser uma dor contínua;
- Corrimento vaginal anormal — apresenta, na maior parte das vezes, mau cheiro e cor amarelada/esverdeada;
- Ardor ou dor ao urinar;
- Dor ou grande desconforto durante as relações sexuais;
- Febre (igual ou superior a 38ºC);
- Sangramento fora da menstruação;
- Sangramento após relações sexuais;
- Fadiga;
- Náuseas e vómitos.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico de DIP é clínico e baseia-se no histórico médico, comportamentos de risco, assim como alguns exames ginecológicos. Regra geral, a avaliação médica inclui:
- Exame ginecológico e pélvico — com o intuito de perceber se há dor ou sensibilidade à movimentação do colo do útero e nos órgãos reprodutores;
- Análise de secreções — é feita a recolha de uma amostra de corrimento vaginal e do colo do útero para testar (geralmente através de testes PCR) a presença de bactérias como a clamídia e a gonorreia, por exemplo;
- Análises à urina e ao sangue — análises ao sangue podem ser feitas para confirmar a infeção (hemograma e marcadores de inflamação, como a Proteína C Reativa — PCR — e a Velocidade de Hemossedimentação — VHS). O exame à urina pode ser pedido para descartar uma infeção do trato urinário (ITU);
- Teste de gravidez — este pode ser feito para descartar uma gravidez ectópica;
- Exames de imagem — ecografia pélvica ou transvaginal e ressonância magnética são essenciais para perceber a extensão da inflamação, assim como para detetar possíveis bloqueios nas trompas e abcessos.
Com os resultados obtidos, já é possível determinar o estágio da doença e adequar o tratamento.
Doença inflamatória pélvica: infertilidade e outras complicações
Não procurar atendimento médico atempado pode ter consequências graves a longo prazo. Cicatrizes (adesões) nos órgãos reprodutores podem (a par de obstruções) levar a complicações sérias que afetam a qualidade de vida, entre elas:
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Complicação |
Como acontece? |
Qual o impacto? |
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Infertilidade |
A DIP é uma das causas mais comuns de infertilidade feminina, pois as cicatrizes bloqueiam as trompas de Falópio, impedindo que o óvulo se encontre com o espermatozoide. |
A dificuldade em engravidar aumenta a cada nova infeção. Uma das alternativas, neste caso, é o recurso a fertilização in vitro (FIV). |
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Gravidez ectópica |
O óvulo é fecundado, mas não consegue passar para o útero, pois a trompa está danificada. A gravidez desenvolve-se na própria trompa. |
É uma emergência médica que coloca a vida da pessoa em risco e o feto não sobrevive. |
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Dor pélvica crónica |
O tecido com cicatrizes e a inflamação prolongada causam dor pélvica e abdominal contínua. |
A dor pode durar meses ou anos. Manifesta-se no dia a dia, durante as relações sexuais ou durante a ovulação. |
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Abcesso tubo-ovariano |
Formação de uma bolsa de pus (infeção) nas trompas ou ovários. |
O abcesso tubo-ovariano pode causar doença grave. No caso de rebentar, pode causar uma infeção generalizada e peritonite. Esta é uma emergência médica. |
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Síndrome de Fitz-Hugh-Curtis |
A infeção dissemina-se para os tecidos ao redor do fígado. |
Causa dor intensa no lado superior direito do abdómen. |
Doença inflamatória pélvica: tratamento
A doença inflamatória pélvica tem cura, desde que diagnostica e tratada de forma precoce. Assim sendo, quanto mais cedo começares o tratamento, menos probabilidades tens de sofrer danos permanentes.
O tratamento-padrão para a DIP é feito com antibióticos (via oral ou injetável). O tratamento deve ser feito até ao fim (geralmente durante 14 dias), mesmo que já não apresentes sintomas. Se parares de tomar a medicação antes, a infeção pode não ser eliminada totalmente.
Em casos de gravidez, presença de abcesso, sintomas muito intensos (febre alta e/ou vómitos) ou se não houver melhoria em 72 h, deves ir ao hospital de imediato.
Prevenir a DIP é a melhor opção
Quando falamos de saúde, a prevenção é sempre a melhor escolha. Sabendo que a maior parte dos casos de SIP tem origem em IST, a prevenção passa muito pela adoção de comportamentos sexuais seguros.
Assim, deves:
- Usar preservativo — podes usar o preservativo masculino ou feminino, mas é importante que o uses em todas as relações sexuais;
- Fazer rastreios regulares — todas as pessoas sexualmente ativas devem fazer testes regulares de IST, até porque muitas são assintomáticas;
- Conversar sobre saúde sexual — é fundamental que fales abertamente com as pessoas que tens relações sexuais. Ter uma conversa franca é sinal de respeito e não deves ter vergonha de falar. Se perceberes que a outra pessoa tem lesões nos genitais ou corrimento anormal, evita ter relações sexuais com ela;
- Evitar duches vaginais — lavar a parte interna da vagina altera o pH e a microbiota natural, levando bactérias para o útero;
- Marcar consulta ginecológica de rotina — manter um acompanhamento ginecológico regular é essencial para detetar alterações precocemente.
Procura ajuda médica ao menor sinal de alerta e nunca ignores sintomas, mesmo que te possam parecer pequenos.
Qualquer dor ou corrimento fora do normal é motivo para procurares ajuda. Lembra-te de que, quanto mais cedo detetares a doença inflamatória pélvica, menos probabilidade tens de desenvolver complicações graves.