Skip to main content
duas amostras de sangue para rastreio de IST

Rastreio de IST: porque, quando, onde e como fazer?

O aumento de casos de Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST) em Portugal e na Europa alerta para a urgência do rastreio regular. Para as pessoas trabalhadoras do sexo, assim como para todas as pessoas sexualmente ativas, saber onde, quando e como fazer o teste é o primeiro passo para proteger a saúde individual e coletiva.

Aqui, mostramos-te como é o processo de rastreio de IST em Portugal, encontras opções gratuitas, anónimas e confidenciais disponíveis no Serviço Nacional de Saúde (SNS), em organizações de base comunitária e no setor privado. Assim, vais poder cuidar da tua saúde de forma informada, segura e livre de estigma.

A realidade das IST: porque o rastreio é um ato de saúde pública e pessoal?

As IST são mais comuns do que a maioria das pessoas pensa. Estas são causadas por mais de 30 tipos de vírus, bactérias e parasitas, as quais se transmitem, na sua maioria, através do contacto sexual (vaginal, anal ou oral) sem proteção.

Os dados mais recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) são um sério alerta: em 2022, em toda a Europa, os casos de gonorreia aumentaram 48%, os de sífilis 34% e os de clamídia 16% (neste último caso, o aumento refere-se a mulheres entre os 20 e os 24 anos).

Olhando para estes números, a prevenção e o rastreio de IST têm de ser olhados como temas urgentes que nos dizem respeito a todxs.

O perigo das infeções assintomáticas

Muitas IST são assintomáticas e outras têm evolução “silenciosa”, principalmente numa fase inicial, o que dificulta bastante na sua deteção precoce e no tratamento eficiente.

Podes sentir-te saudável, sem dores ou desconforto, e teres uma infeção sem saber. A verdade é que esta é uma realidade muito comum. Nesse sentido, o rastreio de IST é a única forma de saberes o teu estado de saúde.

Ignorar que as IST existem e que podem passar despercebidas, adiando o rastreio, pode ter consequências graves e, em alguns casos, irreversíveis.

Quando não se faz o diagnóstico e tratamento de infeções, estas podem evoluir para quadros clínicos complexos, como, por exemplo:

  • Doença Inflamatória Pélvica (DIP) — trata-se de uma infeção grave dos órgãos reprodutivos femininos que pode causar dor pélvica crónica e infertilidade;
  • Infertilidade — é uma das consequências possíveis de infeções como a clamídia e a gonorreia; pode acometer pessoas de ambos os sexos;
  • Complicações na gravidez — a presença de IST aumenta o risco de parto prematuro, de transmissão da infeção para o bebé (durante a gestação ou parto), assim como aumenta o risco de o bebé nascer com baixo peso;
  • Problemas neurológicos e cardiovasculares — estes dão-se, principalmente, em pessoas em fases avançadas da sífilis não tratada;
  • Maior risco de contrair HIV — pessoas com uma IST, principalmente infeções que causem úlceras genitais (como a sífilis, por exemplo), podem ter as mucosas mais fragilizadas, aumentando (muito) a sua vulnerabilidade à infeção por HIV;
  • Cancro — ter uma infeção persistente por certos tipos de HPV (Vírus do Papiloma Humano) aumenta muito o risco de desenvolver certos tipos de cancro, especialmente o do colo do útero, embora a infeção também esteja associada ao cancro anal, peniano e orofaríngeo.

Fazer o rastreio de IST regular é um ato de cuidado contigo. O diagnóstico precoce leva a um tratamento eficaz que te pode curar ou, no mínimo, ajudar-te-á a manter a infeção controlada.

Além disso, só através do rastreio de IST conseguimos quebrar as cadeias de transmissão na comunidade. Assim, este é também um ato de responsabilidade coletiva.

Quais as IST mais comuns?

Existem muitas IST, mas há algumas que são mais comuns na sociedade e, algumas delas, com consequências sérias para a saúde. São elas:

  • Clamídia e gonorreia — estas são as infeções bacterianas mais comuns e é importante alertar que são, frequentemente, assintomáticas (principalmente em mulheres). Quando existem sintomas, estes incluem corrimento anormal, dor pélvica e dor ao urinar. As duas infeções têm cura (o tratamento reside na toma de antibiótico). Se não forem tratadas, estas infeções podem causar, por exemplo, infertilidade e DIP. O rastreio é feito através de análise à urina ou amostra colhida com zaragatoa;
  • Sífilis — trata-se de uma infeção bacteriana que, na fase avançada, pode levar a complicações neurológicas e cardiovasculares graves. Numa primeira fase, esta infeção causa uma ferida indolor no local da infeção. Numa segunda fase causa erupções cutâneas. É possível que depois entre numa fase sem sintomas (pode mesmo durar anos), culminando na fase avançada. Esta infeção é totalmente curável com penicilina (principalmente durante as fases iniciais). O diagnóstico é feito através de análises ao sangue;
  • HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) — trata-se de um vírus que ataca o sistema imunitário, o que torna o corpo muito vulnerável a outras infeções. A SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida) é o estágio mais avançado da infeção por HIV. Com os tratamentos disponíveis atualmente (antirretrovirais), é possível viver sem nunca desenvolver SIDA e atingir uma carga viral indetetável (quando neste estágio, o vírus não se transmite por via sexual);
  • Hepatite B e C — estas duas infeções virais atacam o fígado e, quando não tratadas, podem causar consequências sérias para a saúde. Hoje, a Hepatite B já pode ser prevenida através de vacinação. A Hepatite C tem tratamento (a taxa de cura é superior a 95%);
  • HPV (Vírus do Papiloma Humano) — de todas as IST, esta é a mais comum do mundo. Existem mais de 100 tipos de HPV, sendo o 16 e o 18 os de maior risco para o desenvolvimento de cancro do colo do útero. A maioria das pessoas elimina o vírus espontaneamente, mas outras vivem infeções persistentes. Atualmente, existe vacina contra o HPV (altamente eficaz na prevenção e disponível gratuitamente no SNS), mas esta não previne todos os tipos.

Onde e como fazer os exames de rastreio de IST?

Agora que já conheces as IST mais comuns, está na hora de fazeres o teu rastreio. Como? Onde? É o que te vamos mostrar aqui.

Testes rápidos, gratuitos e anónimos (HIV, Hepatite B e C)

Os testes rápidos para HIV, Hepatite B e C são feitos com uma gota de sangue, tirada através de uma picada no dedo, e estão disponíveis gratuitamente em:

  • Farmácias comunitárias;
  • Laboratórios de patologia clínica/análises clínicas;
  • Centros de Aconselhamento e Deteção Precoce (CAD);
  • Organizações Não Governamentais (ONG), como o GAT, a AJPAS, a Abraço, entre outras (consulta o nosso mapeamento para acederes a todas as organizações que disponibilizam o rastreio).

O anonimato e confidencialidade são garantidos e não precisas de mostrar documento de identificação.

O resultado está pronto em cerca de 30 minutos.

Se o teu resultado for reativo, serás encaminhadx para uma consulta hospitalar (à tua escolha). Podes marcar tu ou pedir ajuda no local do teste. A consulta, nestes casos, de acordo com a lei, deve acontecer no prazo máximo de 7 dias.

Tanto o tratamento para o HIV como para a Hepatite C é gratuito.

Rastreio completo e gratuito (todas as IST)

Para um check-up completo, que inclua o rastreio a todas as IST, como a clamídia, gonorreia, sífilis, tens as seguintes opções gratuitas:

  • Centros de Saúde (USF) — basta marcares uma consulta com x médicx de família ou enfermeirx de família. Pede que te prescrevam os exames adequados (sangue, urina e zaragatoa);
  • Checkpoints (Lisboa e Porto) ­— o GAT tem checkpoints em Lisboa e no Porto, geridos por pares, que oferecem o rastreio rápido, anónimo, confidencial e gratuito de VIH, Hepatite B e C, sífilis, clamídia e gonorreia.

Setor privado

No setor privado (laboratórios e clínicas privadas) também encontras vários packs de testes de IST, mas não são gratuitos.

Sexo seguro: a melhor forma de prevenção de IST

O rastreio é fundamental para detetar a presença de infeções nos estágios iniciais, mas a prevenção é a tua principal defesa, e essa só depende de ti! Assim, fazeres sexo seguro é a melhor arma que tens para cuidares da tua saúde.

Usa preservativo, sempre! Deves usá-lo de forma consistente e correta em todas as relações sexuais (orais, vaginais e anais), pois este é o único método que te protege de IST.

Usa lubrificante, pois este previne a rutura do preservativo e diminui a fricção, a qual pode causar microlesões que podem ser porta de entrada para infeções.

Cuidado ao escolheres o lubrificante. Usa sempre um à base de água, pois os outros podem danificar o preservativo.

A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é uma estratégia de prevenção do HIV muito eficaz. Consiste na toma de um comprimido diário que impede que o vírus se instale no teu corpo.

A PPE (Profilaxia Pós-Exposição) pode ser feita se tiveste uma situação de risco (rompimento do preservativo, por exemplo). Trata-se de um tratamento de urgência com antirretrovirais e deves iniciá-lo até 72 horas após a exposição.

A tua saúde deve ser sempre a tua prioridade

Cuidares da tua saúde sexual é um direito que tens. Além do sexo seguro, o rastreio de IST é uma das ferramentas mais importantes que tens nas mãos, pois permite-te detetar qualquer IST precocemente e, assim, consegues tratar ou controlar a infeção eficazmente.

Em Portugal, os recursos são acessíveis e todas as pessoas têm direito a eles. Não fiques com medo, vergonha, nem deixes que o estigma te impeça de cuidar da tua saúde. Procura os serviços adequados e exige que te tratem com a dignidade que mereces.