
Guia para familiares e amigxs de pessoas trans: como ajudar?
Se umx familiar ou amigx te conta que é uma pessoa trans, é importante que ajas com empatia e que x abraces como é, sem julgamentos. Apesar da surpresa, confusão ou dor, lembra-te de que este é o início de um caminho de autenticidade, essencial para o bem-estar.
Quando alguém partilha contigo que é uma pessoa trans, esta é uma prova de que te considera de confiança e quer que faças parte do seu círculo de confiança. Ela quer mostrar-te quem realmente é, sem reservas, então este é um momento de aproximação, nunca de desvio.
Por isso, mesmo que para ti possa ser difícil num primeiro momento, abraça o momento com empatia e amor.
Se estás a passar por isto, aqui vamos ajudar-te. Vais perceber melhor o que é ser trans, vais aprender que muito do que se pensa e diz não passa de preconceitos e mitos, e, acima de tudo, vamos dar-te formas eficazes de apoiares a pessoa que amas.
O que significa ser trans?
A verdadeira aceitação só acontece quando entendes a linguagem corretamente. A identidade de género é, de facto, um conceito muito complexo, mas que deves compreender para dares um maior suporte.
O que é uma pessoa transgénero?
A pessoa transgénero (ou trans) é alguém que tem uma identidade de género diferente do sexo atribuído à sua nascença. O sexo é sempre atribuído no nascimento e tem como base os órgãos genitais (masculino, feminino ou intersexo). Assim, o sexo biológico é uma classificação médica e legal.
Já a identidade de género é a experiência interna e individual do género de cada pessoa. Falamos, portanto, da convicção que cada pessoa tem de ser mulher, homem, ambos, nenhum, ou algo diferente.
Tendo em conta estas informações, podemos ser:
- Cisgénero — quando a nossa identidade de género corresponde ao sexo atribuído à nascença, ou seja, quando nos identificamos plenamente com o sexo que nos atribuíram quando nascemos;
- Transgénero — quando a nossa identidade de género não corresponde ao sexo atribuído à nascença, ou seja, quando não nos identificamos com o sexo que nos atribuíram ao nascimento.
Diferença entre identidade de género, expressão de género e orientação sexual
Muitas pessoas confundes o ser transgénero com o ser homossexual, por exemplo, mas este é um erro que deves evitar. Para tal, deves entender estes três conceitos:
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Conceito |
O que significa? |
Exemplo |
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Identidade de género |
Quem tu és no teu íntimo (homem, mulher, não-binárix). |
Uma pessoa que foi designada mulher à nascença, mas que se identifica como homem (homem trans). |
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Expressão de género |
Como tu manifestas o teu género (roupa, cabelo, formas de agir). |
Uma pessoa trans pode ter uma expressão de género feminina, masculina ou andrógina, independentemente da sua identidade. |
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Orientação sexual |
Por quem tu te sentes atraídx (heterossexual, homossexual, bissexual, etc.). |
Um homem trans pode ser homossexual (atraído por homens), heterossexual (atraído por mulheres) ou bissexual (atraído por homens e por mulheres). |
O que é um homem trans e o que é uma mulher trans?
- Mulher trans: alguém que foi designado homem à nascença, mas que se identifica como mulher. A sua identidade é mulher.
- Homem trans: alguém que foi designado mulher à nascença, mas que se identifica como homem. A sua identidade é homem.
Mitos comuns: desconstruindo o preconceito
São vários os mitos que envolvem a identidade de género, os quais contribuem para o perpetuar de preconceitos. É normal que tenhas ouvido muitos deles ao longo da vida (tantas vezes que até passas a crer que são verdade), mas é importante que os desconstruas, de forma que consigas ajudar genuinamente.
"É só uma fase. Vai passar."
Muitas pessoas têm a ideia de que a pessoa está a passar só por uma fase e que tudo vai “voltar ao normal”. Contudo, a identidade de género é uma característica persistente da pessoa. Ela não vai mudar. O que poderá mudar ao longo da vida é a sua expressão de género, ou seja, como ela manifesta a sua identidade de género, mas o que ele é não altera.
Fazer com que uma pessoa transgénero reprima a sua identidade é, além de doloroso, prejudicial para a sua saúde mental, podendo levar a quadros depressivos e ansiosos e, em casos extremos, ao suicídio.
"A transexualidade é uma doença mental"
Este é um dos mitos mais dolorosos, até porque muitas pessoas trans (aconteceu o mesmo com pessoas homossexuais) foram internadas em hospitais psiquiátricos para “curar” a sua identidade de género.
Ser transgénero não é ter uma doença ou distúrbio mental.
A OMS já retirou a transexualidade da lista de doenças mentais em 2018. Atualmente, é assumida como uma condição relacionada com a saúde sexual. Portanto, ser uma pessoa trans não é doença, é antes uma variação natural da diversidade humana.
“É assim porque está na moda ou por influência”
Este é um mito comum, mas não passa de mito. Ninguém é trans porque está na moda ou porque convive com outras pessoas trans. A transexualidade não é uma doença que se “apanha”, tão pouco resulta de uma “lavagem cerebral”.
Facto é que ninguém escolhe ser trans. A identidade de género é intrínseca. O que vemos hoje é uma maior abertura social para o discurso sobre transexualidade, o que faz com que mais pessoas se assumam abertamente.
Jornada emocional: coming out e fases sociais
O processo de coming out, ou saída do armário, é complexo, requer tempo e deve ser olhado como um ato de coragem, autoconhecimento e afirmação. Não é um caminho fácil e nós, amigxs e familiares de uma pessoa transgénero, devemos olhar para ele com carinho e muito respeito.
Assumir-se como uma pessoa trans é quebrar com um sem-fim de expectativas sociais (não só para a pessoa, mas para todas as outras em seu redor). Por isso, este é um processo contínuo e doloroso, que requer apoio das pessoas que são mais próximas.
Aceitar, para si mesmx, que não se encaixa nos padrões heterocisnormativos já pode ser uma batalha muito dolorosa (e solitária). O binarismo de género está presente desde que nascemos, tal como a heterossexualidade. Fugir destes padrões impostos socialmente não é fácil (podendo mesmo ser um motivo de culpa e vergonha) e pode demorar muito tempo até que a pessoa se sinta confortável no papel que assumiu.
Quando a aceitação pessoal está completa, a pessoa geralmente costuma revelar a sua identidade a pessoas mais próximas, como familiares, amigxs e colegas de trabalho. Este é um momento particularmente importante, pois transforma-se num ato político e emocional.
É comum que as pessoas trans tenham medo da reação que as outras pessoas vão ter, e esse medo não é descabido. A sociedade ainda está carregada de preconceitos e estigmas cruéis para pessoas que fogem da heterocisnormatividade (a transfobia é uma realidade em todo o mundo, por exemplo). Por isso, ainda existem muitas pessoas que escolhem não sair do armário (não por vergonha, mas por sobrevivência).
Assim, ter pessoas por perto que recebem bem o coming out é uma libertação. É nesse momento que a pessoa sente que não precisa de se esconder mais, que pode viver e sentir de forma autêntica, construindo relações de verdade.
Ter o apoio de outras pessoas — familiares, amigxs, colegas de trabalho, professorxs, ou até figuras públicas — pode ser, sim, decisivo. Viver num ambiente acolhedor facilita o processo de coming out, além de oferecer um espaço em que a pessoa se sente valorizada e segura.
Como ajudar neste processo?
Sabemos que nem todas as pessoas recebem um anúncio destes com naturalidade (apesar de, num mundo ideal, nem ser necessário alguém assumir a sua identidade, pois uma sociedade que não marginaliza e oprime identidades não-normativas não carece de explicações).
Por isso, se esse é o teu caso, é importante que saibas que é normal sentires-te confusx, com medo, e até triste. Não é bom que reprimas esses sentimentos. É importante que reconheças e valides o que sentes, mas sem projetar na pessoa trans.
O luto pelas expectativas em pais e mães
Pais e mães costumam sentir que perderam (ou estão a perder) o filho ou filha que idealizaram. Fizeram planos para o futuro com base na identidade de género que assumiram para x filhx, planos esses que podem acabar com o coming out. Portanto, pais e mães (na sua maioria) precisam de passar por um processo de luto pelas expectativas (não pela pessoa em si).
Se estás a sentir-te desta forma:
- Valida o que sentes — é mais do que normal sentires-te confusx e sobrecarregadx neste momento. Procura ajuda e apoio em grupos de pais (como a AMPLOS) ou com umx psicólogx;
- Separa as tuas expectativas da pessoa — a pessoa que amas é exatamente a mesma, ainda mais autêntica. O que perdes são as expectativas que tinhas de alguém, não estás a perder ninguém! Antes estás a ganhar a sua versão mais verdadeira;
- Foca no presente — o passado e as expectativas não realizadas devem ser deixadas de lado. Foca no prese4nte, no bem-estar e na felicidade da pessoa que amas.
Como reagir no momento da revelação?
A forma como reages inicialmente é, talvez, a coisa mais importante. Assim, deves:
- Ouvir com atenção — deixa a pessoa falar, sem interrupções, perguntas ou negações;
- Agradecer a confiança — agradece pela confiança que a pessoa depositou em ti e verbaliza a tua empatia, dizendo que imaginas o quão difícil deve ter sido contar;
- Perguntar apenas o essencial — questiona qual o nome e os pronomes deves usar na comunicação;
- Não fazer perguntas intrusivas — perguntas sobre vida sexual, genitália e cirurgias devem ser deixadas para trás. Estes são temas que a pessoa, se quiser, partilha.
Estratégias práticas de apoio: como ser umx aliadx
Ser aliadx da pessoa trans não é apenas aceitar; envolve agir em prol dela, estar ativamente ao seu lado, defendendo e apoiando na transição.
Nome e pronome
Usar o nome e os pronomes corretos (nome social) é o primeiro passo para validares a identidade da pessoa trans. Assim:
- Usa o nome social — deves deixar de usar o nome de nascimento e passar a usar o nome que a pessoa escolheu;
- Usa os pronomes corretos — se é um homem trans, utiliza ele; se é uma mulher trans, usa ela; se é uma pessoa não-binária, usa pronomes com que se identifique, como elx (elu), delx (delu). A linguagem inclusiva deve estar presente no teu dia a dia;
- Corrige-te quando te aperceberes do erro — é normal, especialmente num primeiro momento, que te enganes na forma de te dirigires à pessoa. Corrige-te assim que te aperceberes do erro. Não precisas de fazer um drama em volta disso. Apenas corrige e segue adiante.
Educa-te
A pessoa não tem de te ensinar tudo, então, procura informação e educa-te:
- Pesquisa informações em fontes confiáveis (além do blog do Plano AproXima, encontras informações preciosas na ILGA e na AMPLOS, por exemplo);
- Lê livros, artigos e documentários sobre pessoas trans;
- Frequenta grupos de apoio e questiona sempre que tiveres dúvidas. Evita perguntar a uma pessoa trans, mas, de tiveres de o fazer, sê o mais respeitosx e breve possível.
Apoia a pessoa em diferentes contextos
O teu apoio não deve terminar em casa ou no círculo de amizades. Deves apoiar a pessoa trans em diferentes contextos:
- Escola/trabalho — assegura-te que todas as pessoas respeitam o nome social e que este é usado em todos os registos (formais e informais); defende o seu direito a usar a casa de banho que corresponde à sua identidade de género;
- Com outros familiares — adota o papel de mediador, educa os outros membros da família e estabelece limites. Quem não respeita a identidade da pessoa trans não pode ser bem-vindx;
- Consultas de medicina — acompanha sempre a pessoa trans às consultas (exceto se não for de sua vontade) e ajuda a que o seu nome social e pronomes corretos sejam usados.
Entende a transição
A transição de género é um processo que envolve mudanças sociais, legais e pode envolver também mudanças médicas. Vale ressaltar que nem todas as pessoas trans procuram intervenções médicas e que, mesmo sem estas, a transição é tão válida como outra qualquer (com ou sem cirurgias e hormonas).
Processo clínico no SNS em Portugal
Toda a pessoa tem direito ao acesso aos cuidados de saúde para a transição em Portugal. O processo clínico no SNS envolve:
- Referenciação — x médicx de família referencia a pessoa para uma consulta especializada em identidade de género;
- Unidades de referência — existem unidades no SNS que oferecem acompanhamento psicológico, endocrinológico e cirúrgico que prestam apoio a pessoas em transição;
- Hormonoterapia — muitas pessoas optam pelo tratamento hormonal, pois este ajuda a alinhas as características físicas com a identidade de género. Homens trans tomam testosterona e mulheres trans tomam estrogénios, ajudando-os a desenvolver as características sexuais e físicas secundárias correspondentes;
- Cirurgia(s) de afirmação de género — cirurgias como a mastectomia, vaginoplastia ou faloplastia são procedimentos que ajudam pessoas trans com disforia de género (sofrimento causado pela não identificação com o próprio corpo e sexo). Nem todas as pessoas trans optam por fazer estas cirurgias.
Saúde reprodutiva
Pessoas trans que mantêm os seus órgãos reprodutores e que fazem hormonoterapia devem informar-se sobre os riscos e todas as opções para preservar a fertilidade (se desejarem ter filhos biológicos no futuro).
Por exemplo, um homem trans que não tenha feito histerectomia (remoção do útero) pode engravidar como qualquer outra pessoa com útero. Contudo, o uso de testosterona pode suprimir a ovulação (embora não seja um método contracetivo 100% eficaz).
Assim, é importante o acompanhamento por profissionais de saúde especializados em fertilidade trans caso a ideia seja engravidar.
Legislação em Portugal que asseguram direitos de pessoas trans
Portugal é um país com legislação progressista no que diz respeito aos direitos das pessoas trans, mas é fundamental que conheças a lei para poderes defender x teu familiar ou amigx.
A Lei n.º 38/2018 — Autodeterminação
A Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, estabeleceu o direito à autodeterminação da identidade de género, ou seja, em Portugal, a identidade de género é reconhecida com base na vontade da pessoa, sem ser preciso um diagnóstico médico, psicológico ou cirúrgico.
Alteração de nome e sexo no registo civil
A pessoa trans tem o direito de alterar no registo civil o seu nome próprio e o sexo. Este é um procedimento gratuito e simples.
- Onde? Conservatória do Registo Civil.
- Quem? Qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, maior de idade (ou a partir dos 16 anos, com o consentimento dos pais ou representante legal).
- Como? Apresentando um requerimento por escrito (não vão exigir nenhum relatório médico ou prova de intervenção cirúrgica)
Proteção contra a discriminação
A lei portuguesa proíbe a discriminação em função da identidade e expressão de género em todos os contextos, especialmente nas áreas de:
- Emprego — é ilegal negar um emprego ou promover o assédio com base na identidade de género;
- Educação — escolas devem respeitar o nome social e a identidade de género dxs alunxs;
- Saúde — o acesso aos cuidados de saúde deve ser feito com respeito e sem discriminação.
Recursos e comunidade
O processo de coming out e de transição não é fácil para a pessoa trans e para aqueles que estão em seu redor. Existem organizações em Portugal que se dedicam a apoiar tanto pessoas trans como seus familiares. Lembra-te de que não precisas passar por isto sozinhx.

Se puderes, e quiseres, participa de um grupo de pais ou amigxs que estejam a passar pela mesma situação. Juntos, são sempre mais fortes.
Glossário trans para aliadxs
Para te ajudar a navegar neste novo vocabulário, aqui estão alguns termos essenciais que podes (e deves) guardar:

Chegaste ao fim deste guia de apoio para familiares e amigxs de pessoas trans, e isso demonstra bem o teu compromisso com a pessoa que amas. Sem dúvida, a tua vontade de aprender e de te educares é o maior presente que lhe podes dar.
Ser pessoa trans não é fácil num mundo que ainda luta para entender a diversidade, mas o apoio, carinho e respeito daquelxs que amam é fundamental para que o caminho se torne mais leve, seguro e feliz.