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pessoa segura cartaz pela defesa dos direitos trans em manifestação de rua
| Sara Paiva | LGBTQIAPN+

Guia para familiares e amigxs de pessoas trans: como ajudar?

Se umx familiar ou amigx te conta que é uma pessoa trans, é importante que ajas com empatia e que x abraces como é, sem julgamentos. Apesar da surpresa, confusão ou dor, lembra-te de que este é o início de um caminho de autenticidade, essencial para o bem-estar.

Quando alguém partilha contigo que é uma pessoa trans, esta é uma prova de que te considera de confiança e quer que faças parte do seu círculo de confiança. Ela quer mostrar-te quem realmente é, sem reservas, então este é um momento de aproximação, nunca de desvio.

Por isso, mesmo que para ti possa ser difícil num primeiro momento, abraça o momento com empatia e amor.

Se estás a passar por isto, aqui vamos ajudar-te. Vais perceber melhor o que é ser trans, vais aprender que muito do que se pensa e diz não passa de preconceitos e mitos, e, acima de tudo, vamos dar-te formas eficazes de apoiares a pessoa que amas.

O teu apoio é fundamental e necessário para uma vida plena e livre de sofrimento. A aceitação da família e de amigxs está associada a uma melhor saúde mental e a uma redução de riscos para as pessoas trans.

O que significa ser trans?

A verdadeira aceitação só acontece quando entendes a linguagem corretamente. A identidade de género é, de facto, um conceito muito complexo, mas que deves compreender para dares um maior suporte.

O que é uma pessoa transgénero?

A pessoa transgénero (ou trans) é alguém que tem uma identidade de género diferente do sexo atribuído à sua nascença. O sexo é sempre atribuído no nascimento e tem como base os órgãos genitais (masculino, feminino ou intersexo). Assim, o sexo biológico é uma classificação médica e legal.

Já a identidade de género é a experiência interna e individual do género de cada pessoa. Falamos, portanto, da convicção que cada pessoa tem de ser mulher, homem, ambos, nenhum, ou algo diferente.

Tendo em conta estas informações, podemos ser:

  • Cisgénero — quando a nossa identidade de género corresponde ao sexo atribuído à nascença, ou seja, quando nos identificamos plenamente com o sexo que nos atribuíram quando nascemos;
  • Transgénero — quando a nossa identidade de género não corresponde ao sexo atribuído à nascença, ou seja, quando não nos identificamos com o sexo que nos atribuíram ao nascimento.
A pessoa transgénero não se define pelo rótulo que lhe foi dado à nascença.

Diferença entre identidade de género, expressão de género e orientação sexual

Muitas pessoas confundes o ser transgénero com o ser homossexual, por exemplo, mas este é um erro que deves evitar. Para tal, deves entender estes três conceitos:

Conceito

O que significa?

Exemplo

Identidade de género

Quem tu és no teu íntimo (homem, mulher, não-binárix).

Uma pessoa que foi designada mulher à nascença, mas que se identifica como homem (homem trans).

Expressão de género

Como tu manifestas o teu género (roupa, cabelo, formas de agir).

Uma pessoa trans pode ter uma expressão de género feminina, masculina ou andrógina, independentemente da sua identidade.

Orientação sexual

Por quem tu te sentes atraídx (heterossexual, homossexual, bissexual, etc.).

Um homem trans pode ser homossexual (atraído por homens), heterossexual (atraído por mulheres) ou bissexual (atraído por homens e por mulheres).

 
A identidade de género não tem nada que ver com a orientação sexual. Uma pessoa trans pode ter qualquer orientação sexual, tal como uma pessoa cisgénero.

O que é um homem trans e o que é uma mulher trans?

  • Mulher trans: alguém que foi designado homem à nascença, mas que se identifica como mulher. A sua identidade é mulher.
  • Homem trans: alguém que foi designado mulher à nascença, mas que se identifica como homem. A sua identidade é homem.
O termo transexual é antigo e é, por vezes, considerado patologizante. O termo transgénero é o mais aceite e inclusivo.

Mitos comuns: desconstruindo o preconceito

São vários os mitos que envolvem a identidade de género, os quais contribuem para o perpetuar de preconceitos. É normal que tenhas ouvido muitos deles ao longo da vida (tantas vezes que até passas a crer que são verdade), mas é importante que os desconstruas, de forma que consigas ajudar genuinamente.

"É só uma fase. Vai passar."

Muitas pessoas têm a ideia de que a pessoa está a passar só por uma fase e que tudo vai “voltar ao normal”. Contudo, a identidade de género é uma característica persistente da pessoa. Ela não vai mudar. O que poderá mudar ao longo da vida é a sua expressão de género, ou seja, como ela manifesta a sua identidade de género, mas o que ele é não altera.

Fazer com que uma pessoa transgénero reprima a sua identidade é, além de doloroso, prejudicial para a sua saúde mental, podendo levar a quadros depressivos e ansiosos e, em casos extremos, ao suicídio.

"A transexualidade é uma doença mental"

Este é um dos mitos mais dolorosos, até porque muitas pessoas trans (aconteceu o mesmo com pessoas homossexuais) foram internadas em hospitais psiquiátricos para “curar” a sua identidade de género.

Ser transgénero não é ter uma doença ou distúrbio mental.

A OMS já retirou a transexualidade da lista de doenças mentais em 2018. Atualmente, é assumida como uma condição relacionada com a saúde sexual. Portanto, ser uma pessoa trans não é doença, é antes uma variação natural da diversidade humana.

“É assim porque está na moda ou por influência”

Este é um mito comum, mas não passa de mito. Ninguém é trans porque está na moda ou porque convive com outras pessoas trans. A transexualidade não é uma doença que se “apanha”, tão pouco resulta de uma “lavagem cerebral”.

Facto é que ninguém escolhe ser trans. A identidade de género é intrínseca. O que vemos hoje é uma maior abertura social para o discurso sobre transexualidade, o que faz com que mais pessoas se assumam abertamente.

Haver maior visibilidade não significa um aumento da incidência, mas um aumento da aceitação.

Jornada emocional: coming out e fases sociais

O processo de coming out, ou saída do armário, é complexo, requer tempo e deve ser olhado como um ato de coragem, autoconhecimento e afirmação. Não é um caminho fácil e nós, amigxs e familiares de uma pessoa transgénero, devemos olhar para ele com carinho e muito respeito.

Assumir-se como uma pessoa trans é quebrar com um sem-fim de expectativas sociais (não só para a pessoa, mas para todas as outras em seu redor). Por isso, este é um processo contínuo e doloroso, que requer apoio das pessoas que são mais próximas.

Aceitar, para si mesmx, que não se encaixa nos padrões heterocisnormativos já pode ser uma batalha muito dolorosa (e solitária). O binarismo de género está presente desde que nascemos, tal como a heterossexualidade. Fugir destes padrões impostos socialmente não é fácil (podendo mesmo ser um motivo de culpa e vergonha) e pode demorar muito tempo até que a pessoa se sinta confortável no papel que assumiu.

Quando a aceitação pessoal está completa, a pessoa geralmente costuma revelar a sua identidade a pessoas mais próximas, como familiares, amigxs e colegas de trabalho. Este é um momento particularmente importante, pois transforma-se num ato político e emocional.

Ninguém é obrigado a assumir-se — cada pessoa tem o direito de o fazer, se quiser, no seu tempo e da forma como acha melhor para si. Não é mais ou menos autêntica por isso. Respeita, sempre, a decisão individual.

É comum que as pessoas trans tenham medo da reação que as outras pessoas vão ter, e esse medo não é descabido. A sociedade ainda está carregada de preconceitos e estigmas cruéis para pessoas que fogem da heterocisnormatividade (a transfobia é uma realidade em todo o mundo, por exemplo). Por isso, ainda existem muitas pessoas que escolhem não sair do armário (não por vergonha, mas por sobrevivência).

Assim, ter pessoas por perto que recebem bem o coming out é uma libertação. É nesse momento que a pessoa sente que não precisa de se esconder mais, que pode viver e sentir de forma autêntica, construindo relações de verdade.

Ter o apoio de outras pessoas — familiares, amigxs, colegas de trabalho, professorxs, ou até figuras públicas — pode ser, sim, decisivo. Viver num ambiente acolhedor facilita o processo de coming out, além de oferecer um espaço em que a pessoa se sente valorizada e segura.

Como ajudar neste processo?

Sabemos que nem todas as pessoas recebem um anúncio destes com naturalidade (apesar de, num mundo ideal, nem ser necessário alguém assumir a sua identidade, pois uma sociedade que não marginaliza e oprime identidades não-normativas não carece de explicações).

Por isso, se esse é o teu caso, é importante que saibas que é normal sentires-te confusx, com medo, e até triste. Não é bom que reprimas esses sentimentos. É importante que reconheças e valides o que sentes, mas sem projetar na pessoa trans.

O luto pelas expectativas em pais e mães

Pais e mães costumam sentir que perderam (ou estão a perder) o filho ou filha que idealizaram. Fizeram planos para o futuro com base na identidade de género que assumiram para x filhx, planos esses que podem acabar com o coming out. Portanto, pais e mães (na sua maioria) precisam de passar por um processo de luto pelas expectativas (não pela pessoa em si).

Se estás a sentir-te desta forma:

  1. Valida o que sentes — é mais do que normal sentires-te confusx e sobrecarregadx neste momento. Procura ajuda e apoio em grupos de pais (como a AMPLOS) ou com umx psicólogx;
  2. Separa as tuas expectativas da pessoa — a pessoa que amas é exatamente a mesma, ainda mais autêntica. O que perdes são as expectativas que tinhas de alguém, não estás a perder ninguém! Antes estás a ganhar a sua versão mais verdadeira;
  3. Foca no presente — o passado e as expectativas não realizadas devem ser deixadas de lado. Foca no prese4nte, no bem-estar e na felicidade da pessoa que amas.

Como reagir no momento da revelação?

A forma como reages inicialmente é, talvez, a coisa mais importante. Assim, deves:

  • Ouvir com atenção — deixa a pessoa falar, sem interrupções, perguntas ou negações;
  • Agradecer a confiança — agradece pela confiança que a pessoa depositou em ti e verbaliza a tua empatia, dizendo que imaginas o quão difícil deve ter sido contar;
  • Perguntar apenas o essencial — questiona qual o nome e os pronomes deves usar na comunicação;
  • Não fazer perguntas intrusivas — perguntas sobre vida sexual, genitália e cirurgias devem ser deixadas para trás. Estes são temas que a pessoa, se quiser, partilha.

Estratégias práticas de apoio: como ser umx aliadx

Ser aliadx da pessoa trans não é apenas aceitar; envolve agir em prol dela, estar ativamente ao seu lado, defendendo e apoiando na transição.

Nome e pronome

Usar o nome e os pronomes corretos (nome social) é o primeiro passo para validares a identidade da pessoa trans. Assim:

  • Usa o nome social — deves deixar de usar o nome de nascimento e passar a usar o nome que a pessoa escolheu;
  • Usa os pronomes corretos — se é um homem trans, utiliza ele; se é uma mulher trans, usa ela; se é uma pessoa não-binária, usa pronomes com que se identifique, como elx (elu), delx (delu). A linguagem inclusiva deve estar presente no teu dia a dia;
  • Corrige-te quando te aperceberes do erro — é normal, especialmente num primeiro momento, que te enganes na forma de te dirigires à pessoa. Corrige-te assim que te aperceberes do erro. Não precisas de fazer um drama em volta disso. Apenas corrige e segue adiante.

Educa-te

A pessoa não tem de te ensinar tudo, então, procura informação e educa-te:

  • Pesquisa informações em fontes confiáveis (além do blog do Plano AproXima, encontras informações preciosas na ILGA e na AMPLOS, por exemplo);
  • Lê livros, artigos e documentários sobre pessoas trans;
  • Frequenta grupos de apoio e questiona sempre que tiveres dúvidas. Evita perguntar a uma pessoa trans, mas, de tiveres de o fazer, sê o mais respeitosx e breve possível.

Apoia a pessoa em diferentes contextos

O teu apoio não deve terminar em casa ou no círculo de amizades. Deves apoiar a pessoa trans em diferentes contextos:

  • Escola/trabalho — assegura-te que todas as pessoas respeitam o nome social e que este é usado em todos os registos (formais e informais); defende o seu direito a usar a casa de banho que corresponde à sua identidade de género;
  • Com outros familiares — adota o papel de mediador, educa os outros membros da família e estabelece limites. Quem não respeita a identidade da pessoa trans não pode ser bem-vindx;
  • Consultas de medicina — acompanha sempre a pessoa trans às consultas (exceto se não for de sua vontade) e ajuda a que o seu nome social e pronomes corretos sejam usados.

Entende a transição

A transição de género é um processo que envolve mudanças sociais, legais e pode envolver também mudanças médicas. Vale ressaltar que nem todas as pessoas trans procuram intervenções médicas e que, mesmo sem estas, a transição é tão válida como outra qualquer (com ou sem cirurgias e hormonas).

Processo clínico no SNS em Portugal

Toda a pessoa tem direito ao acesso aos cuidados de saúde para a transição em Portugal. O processo clínico no SNS envolve:

  1. Referenciação — x médicx de família referencia a pessoa para uma consulta especializada em identidade de género;
  2. Unidades de referência — existem unidades no SNS que oferecem acompanhamento psicológico, endocrinológico e cirúrgico que prestam apoio a pessoas em transição;
  3. Hormonoterapia — muitas pessoas optam pelo tratamento hormonal, pois este ajuda a alinhas as características físicas com a identidade de género. Homens trans tomam testosterona e mulheres trans tomam estrogénios, ajudando-os a desenvolver as características sexuais e físicas secundárias correspondentes;
  4. Cirurgia(s) de afirmação de género — cirurgias como a mastectomia, vaginoplastia ou faloplastia são procedimentos que ajudam pessoas trans com disforia de género (sofrimento causado pela não identificação com o próprio corpo e sexo). Nem todas as pessoas trans optam por fazer estas cirurgias.

Saúde reprodutiva

Pessoas trans que mantêm os seus órgãos reprodutores e que fazem hormonoterapia devem informar-se sobre os riscos e todas as opções para preservar a fertilidade (se desejarem ter filhos biológicos no futuro).

Por exemplo, um homem trans que não tenha feito histerectomia (remoção do útero) pode engravidar como qualquer outra pessoa com útero. Contudo, o uso de testosterona pode suprimir a ovulação (embora não seja um método contracetivo 100% eficaz).

Assim, é importante o acompanhamento por profissionais de saúde especializados em fertilidade trans caso a ideia seja engravidar.

Legislação em Portugal que asseguram direitos de pessoas trans

Portugal é um país com legislação progressista no que diz respeito aos direitos das pessoas trans, mas é fundamental que conheças a lei para poderes defender x teu familiar ou amigx.

A Lei n.º 38/2018 — Autodeterminação

A Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, estabeleceu o direito à autodeterminação da identidade de género, ou seja, em Portugal, a identidade de género é reconhecida com base na vontade da pessoa, sem ser preciso um diagnóstico médico, psicológico ou cirúrgico.

Alteração de nome e sexo no registo civil

A pessoa trans tem o direito de alterar no registo civil o seu nome próprio e o sexo. Este é um procedimento gratuito e simples.

  • Onde? Conservatória do Registo Civil.
  • Quem? Qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, maior de idade (ou a partir dos 16 anos, com o consentimento dos pais ou representante legal).
  • Como? Apresentando um requerimento por escrito (não vão exigir nenhum relatório médico ou prova de intervenção cirúrgica)

Proteção contra a discriminação

A lei portuguesa proíbe a discriminação em função da identidade e expressão de género em todos os contextos, especialmente nas áreas de:

  • Emprego — é ilegal negar um emprego ou promover o assédio com base na identidade de género;
  • Educação — escolas devem respeitar o nome social e a identidade de género dxs alunxs;
  • Saúde — o acesso aos cuidados de saúde deve ser feito com respeito e sem discriminação.

Recursos e comunidade

O processo de coming out e de transição não é fácil para a pessoa trans e para aqueles que estão em seu redor. Existem organizações em Portugal que se dedicam a apoiar tanto pessoas trans como seus familiares. Lembra-te de que não precisas passar por isto sozinhx.

organizações de apoio a pessoas trans

Se puderes, e quiseres, participa de um grupo de pais ou amigxs que estejam a passar pela mesma situação. Juntos, são sempre mais fortes.

Glossário trans para aliadxs

Para te ajudar a navegar neste novo vocabulário, aqui estão alguns termos essenciais que podes (e deves) guardar:

tabela glossário trans e de identidade de género

Chegaste ao fim deste guia de apoio para familiares e amigxs de pessoas trans, e isso demonstra bem o teu compromisso com a pessoa que amas. Sem dúvida, a tua vontade de aprender e de te educares é o maior presente que lhe podes dar.

Ser pessoa trans não é fácil num mundo que ainda luta para entender a diversidade, mas o apoio, carinho e respeito daquelxs que amam é fundamental para que o caminho se torne mais leve, seguro e feliz.