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Dame Catherine Healy, co-fundadora do Colectivo de Trabalhadorxs do Sexo da Nova Zelândia, fala durante o seminário PAR 2025 no Porto.

Catherine Healy confiante no movimento português pelos direitos dxs trabalhadorxs do sexo

Dame Catherine Healy, cofundadora do Colectivo de Trabalhadorxs do Sexo da Nova Zelândia, esteve no Porto, a participar no Seminário PAR, cuja edição de 2025 foi dedicada ao tema "Modelos Internacionais e Caminhos para Portugal".

A ativista pelos direitos dos trabalhadorxs do sexo foi distinguida em 2018, com o título de "Dame" da Ordem de Mérito da Nova Zelândia pelo seu trabalho nesta área.

Ex-professora e ex-trabalhadora do sexo, chegou a ser detida pela polícia nos anos de 1980, quando a prostituição era crime no seu país, depois de uma rusga ao bordel ilegal onde trabalhava.

Em 1986, ajudou a fundar o Colectivo de Trabalhadorxs do Sexo da Nova Zelândia, que passou mais de 15 anos a lutar pela descriminalização do Trabalho Sexual.

Volvidos 20 anos desse marco conquistado em 2003, com a chamada "Prostitution Reform Act", e depois de ter participado no Seminário PAR 2025, organizado pelo Plano AproXima, Catherine Healy fala, nesta entrevista, das conquistas e do que falta ainda fazer para melhorar a vida dxs trabalhadorxs do sexo na Nova Zelândia.

Plano AproXima - Cerca de 20 anos depois de ter sido pioneira na regulamentação do Trabalho Sexual, que lições é que a Nova Zelândia retirou?

Catherine Healy - Não conseguimos tudo o que queríamos e sabíamos que haveria problemas com o que conseguimos, porque não conseguimos convencer xs políticxs sobre certas coisas, como a cláusula anti-imigração que decidiram incluir. Portanto, temos um modelo híbrido de legalização, principalmente descriminalização, mas há alguns elementos de legalização que não nos agradam de todo.

Plano AproXima - Então, não aprecia o modelo dos Países Baixos que é mais rígido em termos de regulamentação.

Catherine Healy - [Na Nova Zelândia], não é assim tão "pesado", mas há coisas, por exemplo, o uso obrigatório do preservativo. Profissionais do sexo, clientes e proprietárixs de bordéis são obrigadxs a tomar todas as medidas razoáveis ​​para usar preservativos, ou promover o seu uso, sob pena de multa. Não queríamos isso na nossa legislação.

Plano AproXima - Queriam algo que não restringisse a liberdade dxs profissionais do sexo, ou que xs fizesse sentir controladxs de alguma forma...

Catherine Healy - É verdade, mas tiramos lições disso e contribuímos para os tribunais e para o processo de acusação policial. Agora, por exemplo, se um preservativo for deliberadamente retirado [durante o ato sexual, sem consentimento], os tribunais reconhecem isso como agressão sexual.

Plano AproXima - É o chamado "stealthing". E houve vários casos desses que chegaram à justiça na Nova Zelândia, não foi?

Catherine Healy - Acho que uns oito clientes foram processados ​​por não usarem preservativo, e depois xs profissionais do sexo disseram: "Na verdade, tiraram os preservativos de propósito". Não deviam ter sido processados simplesmente por os tirarem. Na minha experiência, isso foi um abuso sexual.

Plano AproXima - Em todo o caso, é um avanço significativo em termos de justiça. Contudo, continua a haver alguns problemas. Recentemente, surgiram notícias sobre bancos neo-zelandeses que não tratam xs trabalhadorxs do sexo de forma justa, e continua a haver senhorixs que lhes dificultam o acesso a alojamento. A lei inclui proteção legal contra este tipo de discriminação?

Catherine Healy - Não, não inclui, e isso é algo que gostaríamos, obviamente, de ver refletido nas proteções dos direitos humanos.

Catherine Healy V2

O estigma ainda existe, mas diminuiu devido à descriminalização”

Plano AproXima - Relativamente à questão da habitação, e uma vez que se trata de um direito fundamental, o Governo intervém de alguma forma?

Catherine Healy - O Governo entra em cena e apoia trabalhadorxs do sexo numa cidade específica, Auckland, por exemplo, que é a nossa maior cidade. Por isso, temos uma agência governamental que auxilia trabalhadorxs do sexo a conseguirem habitação social. Isso é bom, mas não significa que xs trabalhadorxs do sexo de todo o país estejam protegidxs da discriminação. Se declarar a sua profissão a um senhorix, este poderá ainda discriminá-lx com base no Trabalho Sexual.

Plano AproXima - Portanto, o estigma continua a existir?

Catherine Healy - O estigma ainda existe, mas diminuiu. É difícil precisar esta redução, mas temos a impressão de que ocorreu devido à descriminalização. Assim, por exemplo, temos mediadores de seguros que dizem: "Queremos trabalhar com xs membrxs [do Colectivo de Trabalhadorxs do Sexo]". A nossa organização é vista como uma agência líder no trabalho com profissionais do sexo, e somos lideradxs por profissionais do sexo, somos ex-profissionais do sexo ou profissionais do sexo em atividade. Isto indica uma redução do estigma, de que já não somos intocáveis, de que querem vir trabalhar connosco. É um exemplo concreto.

Plano AproXima – Mas a regulamentação não acaba imediatamente com o estigma. É mais fácil mudar as leis do que acabar com o estigma?

Catherine Healy - É uma mudança gradual, não acontece de um dia para o outro, é um processo longo. Mas gostaria de abordar a questão dos bancos. A maioria dos bancos aceita trabalhadorxs do sexo, mas hesita em relação a terceiros, como x proprietárix do bordel, a pessoa que gere, explora ou facilita o negócio em nome dxs trabalhadorxs do sexo, seja como gerente, chefe ou proprietárix.

Plano AproXima - Isso tem a ver com desconfianças relacionadas com a idoneidade dessas pessoas?

Catherine Healy - Os bancos podem dizer que não querem lidar com elxs, o que é frustrante. Já trabalhámos com bancos que disseram: "Ok, aceitaremos operadores de bordéis como clientes, abriremos as suas contas, mas queremos saber um pouco mais sobre as suas práticas", pedindo-nos ajuda com perguntas específicas para terem a segurança ao aceitá-los como clientes e não serem expostos a acusações de facilitar o tráfico de pessoas.

"É uma mudança gradual, não acontece de um dia para o outro, é um processo longo. "

“É preciso mudar a lei que impede migrantes de fazerem Trabalho Sexual”

Plano AproXima - É preciso ter nacionalidade neozelandesa ou australiana, ou ser residente permanente na Nova Zelândia, para se poder fazer Trabalho Sexual de forma legalizada. Sabendo que há muitxs migrantes que se dedicam à atividade, isto não agrava a situação de vulnerabilidade que já enfrentam estando longe dos seus países?

Catherine Healy - Absolutamente, absolutamente, e é repugnante. Quando a lei mudou, não fomos nós que fizemos essa recomendação, foram xs políticxs. É um problema, e é um problema maior do que apenas com xs trabalhadorxs sexuais, porque... É imigração… Não se pode vir como imigrante e ser trabalhadxr independente, que é o que a maioria dxs trabalhadorxs sexuais faz.

Plano AproXima - Como funciona o processo de regularização de imigrantes na Nova Zelândia?

Catherine Healy - Xs migrantes precisam de ter umx empregadorx fixo durante um determinado período, e esse/essa empregadorx pode não ser bom/boa empregadorx, e pode aproveitar-se da situação.

Plano AproXima - Ficam mais vulneráveis ​​à exploração, é isso que está a dizer?

Catherine Healy - Porque têm de ficar com x mesmo empregadorx. Portanto, se me tratar mal como empregadorx e eu for umx trabalhadorx migrante, tenho de ficar consigo. Não tenho escolha. Porque o meu visto está ligado a esse relacionamento específico. Por conseguinte, existe uma preocupação generalizada entre as organizações de migrantes de que esta parte da legislação, que é contra xs migrantes que trabalham como trabalhadorxs do sexo, precisa de ser revogada ou alterada.

Plano AproXima - Portanto, essa é uma das batalhas que o Coletivo de Trabalhadorxs do Sexo da Nova Zelândia pretende travar nos próximos anos?

Catherine Healy - Em termos legais, queremos que o artigo 19.º da nossa lei seja alterado para que xs migrantes [que fazem Trabalho Sexual] sejam tratadxs como qualquer outra população migrante e, claro, que a infraestrutura mais ampla que se aplica aos/às migrantes seja também mais igualitária no tratamento de todxs elxs. Gostaríamos também de ver a legislação antidiscriminação explicitamente mencionada na legislação dos direitos humanos. Sabemos que xs nossxs colegas da Austrália, um país com uma cultura semelhante à nossa, já aprovaram leis antidiscriminação em diferentes estados, o que é fantástico. Esperamos poder desenvolver o nosso modelo para garantir que é abrangente e não opressivo em termos de legislação restritiva.

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“É entusiasmante estar com o movimento português pelos direitos dxs trabalhadorxs do sexo”

Plano AproXima - Na Nova Zelândia, os municípios têm leis específicas relativas ao Trabalho Sexual?

Catherine Healy - As autoridades locais, ou seja, as Câmaras Municipais, têm os seus próprios regulamentos. Podem ter leis específicas ou tomar certas medidas, como definir a localização dos bordéis. Alguns municípios estão a revogar estas leis, mas temos ainda alguns que são problemáticos e bastante hostis para com xs trabalhadorxs do sexo, principalmente para com xs que trabalham de forma independente em residências, onde vivem e trabalham. Mas a maioria das cidades com regulamentos próprios são mais receptivas e tornaram-se muito mais liberais na sua abordagem.

Plano AproXima - Finalmente, acha que este tipo de eventos como o Semanário PAR, que reúnem pessoas de diferentes países, com diferentes experiências e abordagens ao Trabalho Sexual, podem ser importantes para que as pessoas aprendam e partilhem as suas opiniões sobre uma matéria tão complexa e divisiva?

Catherine Healy - Acho que sim. Lembro-me de que lutámos tanto pela descriminalização - demorou 15 anos. Estávamos um pouco sozinhxs no início. E a importância de ouvir relatos em primeira mão dxs nossxs amigxs da Austrália, dxs nossxs colegas do movimento pelos direitos dxs trabalhadorxs do sexo, foi enorme! E ouvir também outras organizações, como a inglesa, que luta há tanto tempo, desde 1975, a francesa e a americana... Portanto, é muito entusiasmante estar aqui com o movimento português pelos direitos dxs trabalhadorxs do sexo.

Plano AproXima - Ainda não é bem um movimento... Está a arrancar...

Catherine Healy –  No início, é muito lento. Mas acho que vai acontecer. Espero que sim. Estou entusiasmada.

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