
Alienação parental: o que é, como identificar e porque é urgente falar disto
A alienação parental continua a ser um dos fenómenos mais silenciosos, complexos e devastadores que podem ocorrer no seio de famílias em processo de separação.
No âmbito do Dia Internacional de Consciencialização para a Alienação Parental, que se assinala a 25 de Abril, importa reforçar que este não é um tema abstrato, nem um conceito jurídico distante. Trata-se de uma realidade que afeta crianças reais, todos os dias, em Portugal e no mundo.
Apesar de muitas pessoas se questionarem sobre se a alienação parental é crime, a verdade é que Portugal não possui uma lei específica que criminalize este ato.
No entanto, a legislação portuguesa prevê mecanismos de proteção através da regulação das responsabilidades parentais que é sempre orientada pelo superior interesse da criança.
Neste artigo, vamos esclarecer o que é alienação parental, apresentar exemplos e explicar como provar alienação parental em Portugal, como identificar sinais de alerta, e ainda refletir criticamente sobre o uso abusivo deste conceito.
👉 O que é alienação parental?
A alienação parental ocorre quando uma das pessoas progenitoras, ou outra pessoa adulta com autoridade sobre a criança, interfere de forma continuada na relação da criança com x outrx progenitorx, promovendo rejeição, medo, hostilidade ou afastamento injustificado.
Habitualmente, falar sobre o que é alienação parental refere-se a “uma criança que é encorajada por um dos pais a resistir ou recusar o contato com o outro pai, levando, assim, à quebra de contacto e/ou vínculo entre a criança e este pai percebido como não-preferido”, como se refere na tese de doutoramento da investigadora Telma Marques na Universidade de Lisboa.
A dissertação de mestrado da investigadora Ana Sofia Santos, também na Universidade de Lisboa, acrescenta que os exemplos de alienação parental conhecidos resultam, muitas vezes, de “situações de conflito” já “pré-existentes, onde a raiva, o ódio e a difamação detêm um papel preponderante”.
As pessoas progenitoras acabam por “descarregar nos filhos as suas frustrações", levando a "casos de manipulação da criança e descredibilização do outro progenitor” e, portanto, a situações de alienação parental, como sublinha Ana Sofia Santos.
É um abuso emocional
Mas não se trata de um simples conflito entre pessoas adultas. É um abuso emocional com impacto direto no desenvolvimento psicológico da criança.
Segundo vários estudos académicos, a alienação parental pode surgir em contextos de separação litigiosa, onde a criança é exposta a:
- Discursos depreciativos sobre x outrx progenitorx;
- Manipulação emocional;
- Pressão para tomar partido;
- Falsas acusações;
- Distorção de memórias;
- Impedimento de contacto.
Alienação parental é crime?
Em Portugal, não existe um crime autónomo designado por “alienação parental”. Contudo, isso não significa ausência de proteção legal.
A lei portuguesa atua, neste tipo de casos, através de:
- Regulação das responsabilidades parentais;
- Intervenção dos Tribunais de Família e Menores;
- Avaliação por equipas multidisciplinares;
- Medidas de promoção e proteção;
- Alteração da guarda ou do regime de visitas, quando necessário.
Assim, embora a alienação parental não seja tipificada como crime, os comportamentos associados podem configurar:
- Incumprimento do regime de responsabilidades parentais;
- Abuso emocional;
- Violação de direitos da criança;
- Desobediência a decisões judiciais.
👉 Sinais de alienação parental: como identificar no dia a dia
Reconhecer precocemente os sinais de alienação parental é essencial para agir em prol do interesse superior da criança.
Seguem-se alguns dos indicadores mais comuns:
➤ 1. Rejeição repentina e sem justificação
A criança passa a rejeitar uma das pessoas progenitoras de forma brusca, sem motivo concreto.
Este tipo de episódios acontece mesmo sem que tenha ocorrido qualquer evento traumático que justifique essa mudança — e, por isso mesmo, é um sinal de alienação parental.
➤ 2. Vocabulário adulto ou “ensaiado”
A criança utiliza expressões que claramente não são suas, como, por exemplo:
- “Elx destruiu a família”;
- “Elx só quer saber de dinheiro”;
- “Elx é tóxicx”.
Isto é revelador de que está a reproduzir discursos de outras pessoas.
➤ 3. Impedimento constante de visitas ou contactos
A pessoa progenitora alienadora cria obstáculos sucessivos, apresentando desculpas como:
- “A criança está doente”;
- “Tem atividades”;
- “Não quer ir”;
- “Não atende porque está a dormir”.
Quando isto se repete sistematicamente, é um sinal de alerta de alienação parental.
➤ 4. Exigência de lealdade
A criança sente que demonstrar afeto pelx outrx progenitorx “trai” a pessoa cuidadora com quem vive.
Várias investigações realizadas descrevem casos em que as crianças desenvolvem uma culpa intensa, medo de magoar x progenitorx alienadorx e até sintomas físicos associados ao stress.
➤ 5. Narrativas distorcidas
A criança apresenta histórias exageradas, incoerentes ou que não correspondem à realidade, mas que favorecem x progenitorx alienadorx.
👉 Exemplos de alienação parental
Alguns comportamentos típicos que são bons exemplos de alienação parental incluem:
- Dizer à criança que x outrx progenitorx não a ama;
- Inventar doenças ou perigos para evitar visitas;
- Esconder informações escolares ou médicas;
- Mudar de residência sem aviso para dificultar contactos;
- Fazer falsas denúncias para afastar x outrx progenitorx;
- Ridicularizar ou desvalorizar o papel parental dx outrx;
- Obrigar a criança a escolher “um lado”.

O impacto devastador na saúde mental das crianças
A alienação parental não é apenas um conflito familiar: é uma forma de violência emocional que implica consequências impactantes para as crianças, nomeadamente em termos de saúde mental. Entre as mais frequentes estão:
- Ansiedade;
- Depressão;
- Baixa autoestima;
- Culpa e vergonha;
- Conflitos de lealdade;
- Dificuldade em confiar em pessoas adultas;
- Perturbações alimentares;
- Ideação suicida;
- Problemas de vinculação na vida adulta.
Estudos académicos reforçam que crianças expostas a conflitos parentais intensos podem desenvolver comportamentos autodestrutivos, isolamento social e dificuldades escolares.
Muitas vezes, a criança torna-se porta-voz do conflito, carregando um peso emocional que não lhe pertence — e isso é terrível para o seu desenvolvimento psicológico e emocional.
Alienação parental e violência doméstica: um debate necessário
É essencial reconhecer que o conceito de alienação parental tem sido, por vezes, instrumentalizado. Em alguns processos judiciais, a acusação de alienação parental é usada para:
- Desacreditar mães/pais que denunciam violência doméstica;
- Pressionar vítimas a aceitar regimes de visitas perigosos;
- Inverter a narrativa e proteger x agressorx.
Por isso, qualquer alegação de alienação parental deve ser analisada com rigor e a escuta ativa da criança.
Mas também é preciso fazer uma avaliação técnica especializada e uma análise do contexto familiar, bem como uma investigação de possíveis situações de abuso.
Alienação parental (lei portuguesa): o que diz a legislação
Embora Portugal não tenha uma lei específica, nem um crime concreto designado por “alienação parental”, o enquadramento jurídico inclui várias possibilidades para lidar com este tipo de casos.
O Código Civil inclui artigos sobre responsabilidades parentais que defendem sempre o princípio do superior interesse da criança.
A lei inclui a possibilidade de alterar a guarda e o regime de visitas, sempre que se justifique como necessário para defender os direitos do menor.
Existe ainda a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo que permite intervenção quando há:
- Abuso emocional;
- Exposição a conflitos graves;
- Manipulação psicológica.
Os Tribunais de Família e Menores também podem determinar:
- Mediação familiar;
- Acompanhamento psicológico;
- Guarda alternada ou unilateral;
- Visitas supervisionadas;
- Medidas de proteção.
Como provar alienação parental em Portugal
A grande dúvida de algumas pessoas é saber como provar alienação parental. É importante entender que a prova precisa sempre de ser multidisciplinar, envolvendo várias vertentes:
➤ Registos documentais
- Mensagens;
- Emails;
- Registos de faltas às visitas;
- Comunicações escolares.
➤ Testemunhos
- Familiares;
- Professores;
- Profissionais de saúde.
➤ Avaliação psicológica
Equipas técnicas especializadas podem identificar:
- Manipulação emocional;
- Discurso induzido;
- Rejeição injustificada.
➤ Relatórios sociais
Estes relatórios sociais devem sempre ser realizados por técnicos especializados.
➤ Intervenção judicial
O tribunal pode solicitar:
- Perícias psicológicas;
- Audição da criança;
- Acompanhamento por equipas multidisciplinares.
👉 Como proceder em caso de alienação parental
Se estás perante um caso de alienação parental, ou suspeitas que uma criança está a ser vítima disso, eis os passos recomendados a seguir:
➤ 1. Procurar apoio jurídico
Um advogado especializado em direito da família pode orientar sobre questões como:
- Alteração do regime de responsabilidades parentais;
- Pedidos urgentes ao tribunal;
- Medidas de proteção.
➤ 2. Recolher provas
É essencial documentar tudo, como já vincámos antes, reunindo mensagens, emails, registos de faltas às visitas e comunicações escolares, entre outras provas.
➤ 3. Solicitar avaliação técnica
Podes recorrer a equipas de psicologia e de serviço social para avaliarem devidamente, e de forma fundamentada, a situação.
➤ 4. Evitar retaliação
É essencial rejeitar o caminho da retaliação, que pode parecer o mais evidente e o mais fácil. Vê que responder com mais conflito só agrava o sofrimento da criança.
➤ 5. Priorizar o bem-estar da criança
Mesmo quando x outrx progenitorx age de forma injusta, a criança não deve ser usada como arma. O bem-estar da criança/adolescente deve sempre estar em primeiro lugar.
Responsabilidades parentais e o papel do Estado
A regulação das responsabilidades parentais existe para garantir que ambxs xs progenitorxs participam na vida da criança e que as decisões são tomadas no seu superior interesse.
Além disso, visa também assegurar que a criança mantém vínculos afetivos saudáveis.
👉 Conclusão: alienação parental é uma violência para as crianças
A alienação parental é uma forma de abuso emocional que deixa marcas profundas nas crianças.
No âmbito do Dia Internacional de Consciencialização para a Alienação Parental, importa reforçar que:
- As crianças são as principais vítimas;
- As pessoas adultas têm a responsabilidade de as proteger;
- O sistema jurídico deve atuar com rigor e sensibilidade;
- Este conceito não pode ser usado para silenciar vítimas de violência.
A separação pode terminar uma relação conjugal, mas não termina a parentalidade, nem justifica qualquer tipo de alienação parental. A criança tem direito a amar ambxs xs progenitorxs — e a crescer sem medo e sem culpa.