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Mulher branca com cabelo ruivo e camisa branca a falar com homem negro de camisa em tons de cinzento sobre alienação parental, com criança no meio, a tapar as orelhas.
| Susana Valente | Direitos

Alienação parental: o que é, como identificar e porque é urgente falar disto

A alienação parental continua a ser um dos fenómenos mais silenciosos, complexos e devastadores que podem ocorrer no seio de famílias em processo de separação.

No âmbito do Dia Internacional de Consciencialização para a Alienação Parental, que se assinala a 25 de Abril, importa reforçar que este não é um tema abstrato, nem um conceito jurídico distante. Trata-se de uma realidade que afeta crianças reais, todos os dias, em Portugal e no mundo.

Apesar de muitas pessoas se questionarem sobre se a alienação parental é crime, a verdade é que Portugal não possui uma lei específica que criminalize este ato.

No entanto, a legislação portuguesa prevê mecanismos de proteção através da regulação das responsabilidades parentais que é sempre orientada pelo superior interesse da criança.

Neste artigo, vamos esclarecer o que é alienação parental, apresentar exemplos e explicar como provar alienação parental em Portugal, como identificar sinais de alerta, e ainda refletir criticamente sobre o uso abusivo deste conceito.

👉 O que é alienação parental?

A alienação parental ocorre quando uma das pessoas progenitoras, ou outra pessoa adulta com autoridade sobre a criança, interfere de forma continuada na relação da criança com x outrx progenitorx, promovendo rejeição, medo, hostilidade ou afastamento injustificado.

Habitualmente, falar sobre o que é alienação parental refere-se a “uma criança que é encorajada por um dos pais a resistir ou recusar o contato com o outro pai, levando, assim, à quebra de contacto e/ou vínculo entre a criança e este pai percebido como não-preferido”, como se refere na tese de doutoramento da investigadora Telma Marques na Universidade de Lisboa.

A dissertação de mestrado da investigadora Ana Sofia Santos, também na Universidade de Lisboa, acrescenta que os exemplos de alienação parental conhecidos resultam, muitas vezes, de “situações de conflito” já “pré-existentes, onde a raiva, o ódio e a difamação detêm um papel preponderante”.

As pessoas progenitoras acabam por “descarregar nos filhos as suas frustrações", levando a "casos de manipulação da criança e descredibilização do outro progenitor” e, portanto, a situações de alienação parental, como sublinha Ana Sofia Santos.

É um abuso emocional

Mas não se trata de um simples conflito entre pessoas adultas. É um abuso emocional com impacto direto no desenvolvimento psicológico da criança.

Segundo vários estudos académicos, a alienação parental pode surgir em contextos de separação litigiosa, onde a criança é exposta a:

  • Discursos depreciativos sobre x outrx progenitorx;
  • Manipulação emocional;
  • Pressão para tomar partido;
  • Falsas acusações;
  • Distorção de memórias;
  • Impedimento de contacto.
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As consequências deste tipo de abuso emocional podem ser tão graves que chegam a desencadear quadros de depressão, ansiedade e perturbações alimentares em crianças e adolescentes.

Alienação parental é crime?

Em Portugal, não existe um crime autónomo designado por “alienação parental”. Contudo, isso não significa ausência de proteção legal.

A lei portuguesa atua, neste tipo de casos, através de:

  • Regulação das responsabilidades parentais;
  • Intervenção dos Tribunais de Família e Menores;
  • Avaliação por equipas multidisciplinares;
  • Medidas de promoção e proteção;
  • Alteração da guarda ou do regime de visitas, quando necessário.

Assim, embora a alienação parental não seja tipificada como crime, os comportamentos associados podem configurar:

  • Incumprimento do regime de responsabilidades parentais;
  • Abuso emocional;
  • Violação de direitos da criança;
  • Desobediência a decisões judiciais.
Portanto, o foco da lei portuguesa não é punir o progenitor, mas proteger a criança.

👉  Sinais de alienação parental: como identificar no dia a dia

Reconhecer precocemente os sinais de alienação parental é essencial para agir em prol do interesse superior da criança.

Seguem-se alguns dos indicadores mais comuns:

➤ 1. Rejeição repentina e sem justificação

A criança passa a rejeitar uma das pessoas progenitoras de forma brusca, sem motivo concreto.

Este tipo de episódios acontece mesmo sem que tenha ocorrido qualquer evento traumático que justifique essa mudança  e, por isso mesmo, é um sinal de alienação parental.

➤ 2. Vocabulário adulto ou “ensaiado”

A criança utiliza expressões que claramente não são suas, como, por exemplo:

  • “Elx destruiu a família”;
  • “Elx só quer saber de dinheiro”;
  • “Elx é tóxicx”.

Isto é revelador de que está a reproduzir discursos de outras pessoas.

➤ 3. Impedimento constante de visitas ou contactos

A pessoa progenitora alienadora cria obstáculos sucessivos, apresentando desculpas como:

  • “A criança está doente”;
  • “Tem atividades”;
  • “Não quer ir”;
  • “Não atende porque está a dormir”.

Quando isto se repete sistematicamente, é um sinal de alerta de alienação parental.

➤ 4. Exigência de lealdade

A criança sente que demonstrar afeto pelx outrx progenitorx “trai” a pessoa cuidadora com quem vive.

Várias investigações realizadas descrevem casos em que as crianças desenvolvem uma culpa intensa, medo de magoar x progenitorx alienadorx e até sintomas físicos associados ao stress.

➤ 5. Narrativas distorcidas

A criança apresenta histórias exageradas, incoerentes ou que não correspondem à realidade, mas que favorecem x progenitorx alienadorx.

👉 Exemplos de alienação parental

Alguns comportamentos típicos que são bons exemplos de alienação parental incluem:

  • Dizer à criança que x outrx progenitorx não a ama;
  • Inventar doenças ou perigos para evitar visitas;
  • Esconder informações escolares ou médicas;
  • Mudar de residência sem aviso para dificultar contactos;
  • Fazer falsas denúncias para afastar x outrx progenitorx;
  • Ridicularizar ou desvalorizar o papel parental dx outrx;
  • Obrigar a criança a escolher “um lado”.

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O impacto devastador na saúde mental das crianças

A alienação parental não é apenas um conflito familiar: é uma forma de violência emocional que implica consequências impactantes para as crianças, nomeadamente em termos de saúde mental. Entre as mais frequentes estão:

  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Baixa autoestima;
  • Culpa e vergonha;
  • Conflitos de lealdade;
  • Dificuldade em confiar em pessoas adultas;
  • Perturbações alimentares;
  • Ideação suicida;
  • Problemas de vinculação na vida adulta.

Estudos académicos reforçam que crianças expostas a conflitos parentais intensos podem desenvolver comportamentos autodestrutivos, isolamento social e dificuldades escolares.

Muitas vezes, a criança torna-se porta-voz do conflito, carregando um peso emocional que não lhe pertence  e isso é terrível para o seu desenvolvimento psicológico e emocional.

Alienação parental e violência doméstica: um debate necessário

É essencial reconhecer que o conceito de alienação parental tem sido, por vezes, instrumentalizado. Em alguns processos judiciais, a acusação de alienação parental é usada para:

  • Desacreditar mães/pais que denunciam violência doméstica;
  • Pressionar vítimas a aceitar regimes de visitas perigosos;
  • Inverter a narrativa e proteger x agressorx.

Por isso, qualquer alegação de alienação parental deve ser analisada com rigor e a escuta ativa da criança.

Mas também é preciso fazer uma avaliação técnica especializada e uma análise do contexto familiar, bem como uma investigação de possíveis situações de abuso.

A proteção da criança não pode ser usada como arma contra vítimas de violência.

Alienação parental (lei portuguesa): o que diz a legislação

Embora Portugal não tenha uma lei específica, nem um crime concreto designado por “alienação parental”, o enquadramento jurídico inclui várias possibilidades para lidar com este tipo de casos.

O Código Civil inclui artigos sobre responsabilidades parentais que defendem sempre o princípio do superior interesse da criança.

A lei inclui a possibilidade de alterar a guarda e o regime de visitas, sempre que se justifique como necessário para defender os direitos do menor.

Existe ainda a Lei de Proteção de Crianças e Jovens em Perigo que permite intervenção quando há:

  • Abuso emocional;
  • Exposição a conflitos graves;
  • Manipulação psicológica.

Os Tribunais de Família e Menores também podem determinar:

  • Mediação familiar;
  • Acompanhamento psicológico;
  • Guarda alternada ou unilateral;
  • Visitas supervisionadas;
  • Medidas de proteção.

Como provar alienação parental em Portugal

A grande dúvida de algumas pessoas é saber como provar alienação parental. É importante entender que a prova precisa sempre de ser multidisciplinar, envolvendo várias vertentes:

➤  Registos documentais

  • Mensagens;
  • Emails;
  • Registos de faltas às visitas;
  • Comunicações escolares.

➤  Testemunhos

  • Familiares;
  • Professores;
  • Profissionais de saúde.

➤  Avaliação psicológica

Equipas técnicas especializadas podem identificar:

  • Manipulação emocional;
  • Discurso induzido;
  • Rejeição injustificada.

➤  Relatórios sociais

Estes relatórios sociais devem sempre ser realizados por técnicos especializados.

➤  Intervenção judicial

O tribunal pode solicitar:

  • Perícias psicológicas;
  • Audição da criança;
  • Acompanhamento por equipas multidisciplinares.
Para saber como provar alienação parental em Portugal é preciso fazer esta articulação entre psicologia, direito e proteção infantil.

👉 Como proceder em caso de alienação parental

Se estás perante um caso de alienação parental, ou suspeitas que uma criança está a ser vítima disso, eis os passos recomendados a seguir:

➤  1. Procurar apoio jurídico

Um advogado especializado em direito da família pode orientar sobre questões como:

  • Alteração do regime de responsabilidades parentais;
  • Pedidos urgentes ao tribunal;
  • Medidas de proteção.

➤   2. Recolher provas

É essencial documentar tudo, como já vincámos antes, reunindo mensagens, emails, registos de faltas às visitas e comunicações escolares, entre outras provas.

➤  3. Solicitar avaliação técnica

Podes recorrer a equipas de psicologia e de serviço social para avaliarem devidamente, e de forma fundamentada, a situação.

➤  4. Evitar retaliação

É essencial rejeitar o caminho da retaliação, que pode parecer o mais evidente e o mais fácil. Vê que responder com mais conflito só agrava o sofrimento da criança.

➤  5. Priorizar o bem-estar da criança

Mesmo quando x outrx progenitorx age de forma injusta, a criança não deve ser usada como arma. O bem-estar da criança/adolescente deve sempre estar em primeiro lugar.

Responsabilidades parentais e o papel do Estado

A regulação das responsabilidades parentais existe para garantir que ambxs xs progenitorxs participam na vida da criança e que as decisões são tomadas no seu superior interesse.

Além disso, visa também assegurar que a criança mantém vínculos afetivos saudáveis.

Quando tudo falha, o Estado tem o dever de intervir.

👉 Conclusão: alienação parental é uma violência para as crianças

A alienação parental é uma forma de abuso emocional que deixa marcas profundas nas crianças.

No âmbito do Dia Internacional de Consciencialização para a Alienação Parental, importa reforçar que:

  • As crianças são as principais vítimas;
  • As pessoas adultas têm a responsabilidade de as proteger;
  • O sistema jurídico deve atuar com rigor e sensibilidade;
  • Este conceito não pode ser usado para silenciar vítimas de violência.

A separação pode terminar uma relação conjugal, mas não termina a parentalidade, nem justifica qualquer tipo de alienação parental. A criança tem direito a amar ambxs xs progenitorxs  e a crescer sem medo e sem culpa.