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rio com larvas que provocam esquistossomose genital feminina

Esquistossomose genital feminina (EGF): sintomas e tratamento

A esquistossomose genital feminina (EGF) é uma doença debilitante que afeta cerca de 56 milhões de pessoas do sexo feminino, principalmente na África Subsaariana. É essencial o diagnóstico precoce para evitar lesões crónicas.

A esquistossomose (também conhecida por bilharziose ou "doença do caramujo") é mais comum nos trópicos, mas, com o aumento da imigração e das viagens para países tropicais, tornou-se um tema de saúde global.

Apesar de não ser uma IST, é muitas vezes diagnosticada como tal, uma vez que os seus sintomas são idênticos a várias infeções sexualmente transmissíveis. A falta de formação específica em doenças tropicais de profissionais de saúde em todo o mundo agrava a situação, deixando as pessoas sem tratamento adequado durante anos.

O que é a esquistossomose genital feminina (EGF)

A esquistossomose é uma doença parasitária transmitida através do contacto com água doce contaminada por larvas de Schistosoma. Estas larvas penetram na pele e entram na corrente sanguínea, onde depois se desenvolvem em vermes adultos.

No caso da EGF, os ovos destes parasitas (principalmente da espécie Schistosoma haematobium) alojam-se nos tecidos do trato reprodutivo feminino, causando inflamação, lesões, úlceras e nódulos no colo do útero e na parede vaginal.

É crucial entender que a EGF não é uma IST. Contrai-se simplesmente ao entrar em contacto com água contaminada durante atividades quotidianas, como lavar a roupa, tomar banho, nadar ou trabalhar na agricultura.

Sintomas de esquistossomose genital feminina

A EGF é difícil de identificar, principalmente pela semelhança nos sintomas de várias IST. Por isso, muitas pessoas recebem tratamentos ineficazes para IST que não têm, enquanto a esquistossomose continua a progredir.

Os sintomas mais comuns incluem:

  • Corrimento vaginal anormal (frequentemente com mau cheiro ou com sangue);
  • Sangramento vaginal fora do período menstrual ou após as relações sexuais;
  • Dor durante a relação sexual;
  • Dor pélvica ou abdominal;
  • Ardor e comichão genital;
  • Incontinência urinária de esforço.

EGF: diagnóstico e tratamento

O diagnóstico da EGF não é fácil, principalmente se for feito por profissionais não especialistas em doenças tropicais. As análises à urina e às fezes falham muitas vezes na deteção da doença, sendo necessária a observação das lesões características através de um colposcópio, idealmente por umx profissional treinadx.

A esquistossomose é tratável, geralmente com praziquantel (medicamento seguro, acessível e eficaz na eliminação de vermes adultos). No entanto, é importante dizer que este medicamento não reverte as lesões genitais crónicas se a doença já estiver numa fase avançada.

Por esta razão, o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo com praziquantel durante a infância e adolescência são essenciais.

Assim, se tens sintomas persistentes que não melhoram com tratamentos habituais, e, principalmente, se viveste em zonas endémicas (como África, Médio Oriente ou partes da América do Sul e Ásia) ou viajaste para estas regiões e tiveste contacto com água doce:

  • Procura acompanhamento médico em consultas de ginecologia;
  • Menciona o teu histórico de viagens e a possibilidade de exposição a água doce contaminada (lagos, rios);
  • Não tenhas vergonha de sugerir a possibilidade de esquistossomose, caso os tratamentos para IST não estejam a resultar.

EGF e HIV: porque é importante tratar cedo?

Segundo o relatório da UNAIDS, de 2019, No more neglect. Female genital schistosomiasis and HIV, a EGF tem uma ligação forte ao HIV, uma vez que pessoas com EGF têm três a quatro vezes mais probabilidade de contrair o HIV, porque:

  • As lesões e úlceras genitais causadas pela EGF quebram a barreira natural da mucosa vaginal, facilitando a entrada do vírus;
  • A inflamação crónica atrai células imunitárias para a zona genital (como os linfócitos CD4+), que são exatamente as células que o HIV usa para infetar o organismo;
  • O sangramento frequente durante as relações sexuais aumenta o risco de transmissão.

O impacto da EGF na saúde reprodutiva a longo prazo

Quando não é diagnosticada nem tratada atempadamente, a EGF tem consequências irreversíveis para a saúde sexual e reprodutiva. A inflamação crónica e a formação de cicatrizes nos órgãos reprodutivos podem levar a:

  • Infertilidade — a obstrução das trompas de Falópio impede a fecundação;
  • Gravidez ectópica — o óvulo fecundado fixa-se fora do útero. Esta é uma condição que pode pôr em risco a vida da pessoa grávida;
  • Aborto espontâneo e partos prematuros — as alterações nos tecidos reprodutivos dificultam o desenvolvimento saudável da gravidez.

A EGF na Europa e o contexto da imigração

Embora a transmissão da esquistossomose ocorra predominantemente em países tropicais, a EGF é uma realidade na Europa devido aos fluxos migratórios e às viagens para zonas endémicas.

O estudo Imported female genital schistosomiasis: a neglected health issue across borders, publicado em 2026, aponta que uma percentagem significativa de pessoas migrantes africanas a residir na Europa sofre de sintomas relacionados com a EGF. No entanto, o tempo médio entre a chegada ao país de acolhimento e o diagnóstico correto pode demorar anos.

Este atraso no diagnóstico em países não-endémicos acontece por duas razões principais:

  • Falta de consciencialização — muitxs profissionais de saúde em ginecologia e saúde sexual não têm formação específica em medicina tropical e não incluem a EGF no seu diagnóstico diferencial. No inquérito a profissionais de saúde europeus Awareness and knowledge regarding female genital schistosomiasis among European healthcare workers: a cross-sectional online survey revelou-se que apenas 43,7% dos médicos e 12% dos enfermeiros e parteiras tinham conhecimento da EGF. Os especialistas em ginecologia apresentavam taxas de conhecimento inferiores (40%) comparativamente a infectologistas e especialistas em medicina de viagem (69%);
  • Barreiras no acesso à saúde — pessoas migrantes enfrentam frequentemente obstáculos linguísticos, económicos e administrativos no acesso a cuidados de saúde adequados.

A esquistossomose genital feminina é tratável e podemos evitar danos maiores se o diagnóstico e o tratamento forem feitos precocemente. Profissionais de saúde devem levar em consideração a EGF durante o diagnóstico referencial, e pacientes devem alertar se tiverem sintomas persistentes.