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Mãos de 3 mulheres com unhas pintadas segurando bebidas para mostrar o significado de casa de alterne.

Casa de alterne: significado e como funciona?

Os bares de alterne continuam a levantar muitas ideias erradas, estigma e confusão. Muitas pessoas associam-nos ao Trabalho Sexual, mas o significado de casa de alterne é outro.

O Trabalho Sexual tem várias formas e pode envolver todo o tipo de pessoas. Mas os bares de alterne não entram, necessariamente, neste mundo.

Na verdade, o significado de casa de alterne está associado a pessoas que fazem companhia a clientes, conversando, socializando e incentivando o consumo de bebidas. Portanto, o sexo não faz parte da designação na sua essência.

Continua a ler para entender melhor o que é uma casa de alterne, como funciona, quais os riscos de exploração sexual comercial, e que direitos têm as pessoas que trabalham neste contexto.

Casa de alterne: significado

Podemos resumir o significado de casa de alterne ao seguinte:

➤ Um bar, ou clube, onde profissionais do alterne trabalham a fazer companhia a clientes, promovendo o consumo de bebidas, sem que o sexo faça parte do acordo laboral.

Portanto, não se trata de prestar serviços sexuais. Os rendimentos dxs trabalhadorxs provêm, normalmente, de:

  • Comissões sobre bebidas consumidas pelxs clientes;
  • Prémios internos;
  • Percentagens acordadas com a gerência.

Apesar disso, o estigma social e a falta de informação fazem com que estes espaços sejam, frequentemente, confundidos com bordéis.

O que é o alterne?

O alterne é um tipo de trabalho que envolve:

  • Conversar com clientes;
  • Fazer companhia;
  • Criar um ambiente social agradável;
  • Incentivar o consumo de bebidas.

O objetivo é manter x cliente no espaço, levando-x a consumir mais bebidas para aumentar o lucro do estabelecimento.

O sexo não faz parte da função profissional dxs “alternadeirxs”. Contudo, por vezes, ocorre  havendo uma negociação privada, fora do contrato.

É essencial distinguir trabalho de alterne, que envolve companhia e socialização, de Trabalho Sexual, que presta serviços sexuais, e de exploração sexual comercial, que implica situações de coerção, abuso ou controlo.

A "Casa da Mãe Kikas" e porque ficou tão famosa

O La Siesta, mais conhecido como a "Casa da Mãe Kikas", tornou‑se uma lenda da noite portuguesa, especialmente no Ribatejo, e é uma das casas de alterne mais conhecidas de Portugal.

Kikas foi uma empresária ribatejana que ganhou projeção nacional pela fama do seu bar de alterne, chegando a merecer reportagens em canais como a SIC. Antes de entrar no negócio da noite, foi conhecida como “rainha da sucata”.

O La Siesta tornou‑se um ponto de encontro de milhares de clientes, incluindo figuras públicas, magistrados e jogadores de futebol, segundo relatos jornalísticos.

Há relatos de noites com mais de 2 800 entradas, excursões organizadas de todo o país, e um ambiente que mistura espetáculo, música, alterne e uma estética muito própria.

Processos judiciais e PME Líder

A notoriedade da Kikas também foi marcada por polémicas.

A empresária e a sua empresa foram constituídas arguidas por lenocínio e auxílio à imigração ilegal, após buscas do antigo SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras] que identificaram cerca de 50 trabalhadoras, metade delas em situação irregular. Acabaram absolvidas.

Apesar disso, a sua empresa chegou a ser distinguida como PME [Pequena Média Empresa] Líder pelo Turismo de Portugal, mesmo já estando envolvida no processo judicial, algo que gerou muito debate público.

Em 2023, Kikas anunciou que iria abandonar a noite para se dedicar à família, e transferiu o La Siesta para empresários espanhóis.

Como funciona uma casa de alterne?

Embora cada espaço tenha regras próprias, o funcionamento típico inclui um ambiente e uma dinâmica semelhantes.

O bar funciona como qualquer outro estabelecimento noturno. Trabalhadorxs circulam, conversam e acompanham clientes, e incentivam o consumo de bebidas.

Muitas vezes, xs “alternadeirxs” têm metas internas para cumprir, nomeadamente quanto ao número de bebidas consumidas pelxs clientes.

A gerência do bar de alterne é que define horários, metas e regras internas. Mas em contextos saudáveis, existe autonomia e respeito pelos direitos dxs trabalhadorxs.

Modelo de remuneração

As pessoas que trabalham em alterne recebem comissões por bebida (por exemplo, de 20% a 50% do valor). Os pagamentos podem ser diários ou semanais.

Em alguns casos, o alojamento pode estar associado ao trabalho  e isso pode aumentar a vulnerabilidade das pessoas trabalhadoras a situações de exploração sexual comercial.

Em contextos abusivos, podem surgir pressões, retenção de documentos, dívidas forçadas ou controlo excessivo.

O vazio legal e os riscos de exploração sexual comercial

Em Portugal, tanto o alterne como o Trabalho Sexual existem num vazio legal: não são proibidos, mas também não são regulados.

A falta de regulamentação leva, por vezes, a problemas com a justiça devido à associação ao crime de lenocínio.

Este cenário também cria terreno fértil para casos de exploração sexual comercial, especialmente quando a gerência da casa de alterne pressiona para práticas sexuais.

Nas situações abusivas, pode haver controlo sobre horários, deslocações ou alojamento, e dívidas impostas (por exemplo, uma “renda” inflacionada).

Também há casos de retenção de documentos, nomeadamente com pessoas migrantes.

A exploração sexual comercial também faz vista grossa ao consentimento da pessoa, que não é respeitado, e que fica sujeita a abusos por não ter alternativas económicas.

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A ausência de regulamentação significa também que não há contratos formais, nem proteção laboral clara, deixando xs trabalhadorxs mais vulneráveis.

Direitos fundamentais de quem trabalha em casas de alterne

Mesmo sem regulamentação específica, os direitos humanos e laborais aplicam‑se a todas as pessoas, incluindo a quem trabalha numa casa de alterne.

A autodeterminação é um desses direitos fundamentais e inclui o direito de:

  • Decidir o que fazer e o que não fazer;
  • Recusar práticas, clientes ou situações desconfortáveis;
  • Sair do trabalho quando quiser.

As pessoas que fazem alterne também têm direito a trabalhar sem violência, coerção ou ameaças, a condições dignas de higiene e descanso, e a acesso a cuidados de saúde.

A importância do consentimento

Já falámos do consentimento antes, mas nunca é demais reforçar a sua importância. Este tem de ser:

  • Livre (sem pressão);
  • Informado (sabendo o que está em causa);
  • Revogável (pode ser retirado a qualquer momento);
  • Específico (para cada situação).
Nenhuma gerência pode obrigar alguém a beber álcool, a acompanhar clientes fora do bar, a prestar serviços sexuais, nem a cumprir metas abusivas.

Para que o consentimento esteja sempre em primeiro lugar e seja evidente, é fundamental estabelecer limites com:

  • Clientes (o que é permitido e o que não é);
  • Gerência (horários, regras, autonomia);
  • Colegas (respeito e apoio mútuo).

Desmistificar: alterne não é automaticamente Trabalho Sexual

Um dos maiores equívocos é assumir que todas as casas de alterne são bordéis.

Na realidade, o trabalho de alterne é social, não sexual. Pode até existir a prestação de serviços sexuais, mas não é obrigatória, nem faz parte do contrato de “alternadeirx”.

Existe uma confusão entre alterne e exploração sexual comercial, e isso só aumenta o estigma e dificulta o acesso a direitos.

Desmistificar esta ligação é essencial para:

  • Proteger trabalhadorxs;
  • Combater situações reais de exploração sexual comercial;
  • Promover informação baseada em factos;
  • Reduzir o estigma social.

Dicas para prevenir abusos  

Há algumas estratégias essenciais que se devem seguir para prevenir abusos e como forma de autoproteção quando se pratica o alterne. Toma nota:

  • Conhecer os direitos fundamentais;
  • Evitar entregar documentos pessoais à gerência ou a terceiros;
  • Manter contactos de confiança fora do local de trabalho;
  • Estabelecer limites claros desde o início;
  • Procurar apoio em organizações comunitárias ou associações de direitos humanos;
  • Registar situações de abuso ou coerção.

A informação é uma das ferramentas mais poderosas para prevenir a exploração sexual comercial.

Infográfico com dicas sobre como prevenir abusos em casas de alterne.

Após compreender o significado de casa de alterne…

Entender claramente o significado de casa de alterne é fundamental para desmistificar estes espaços e proteger quem neles trabalha.

O alterne é, em teoria, um trabalho de companhia e socialização, não envolvendo serviços sexuais. No entanto, o vazio legal e o estigma criam condições que podem favorecer a exploração sexual comercial.

Por isso, é essencial conhecer direitos, limites e mecanismos de proteção. Lembra-te de que a informação é empoderamento. E empoderar é prevenir abusos.