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Homem jovem de camisola às riscas azuis a atirar folhas ao ar e a gritar com mulher que tem as mãos a tapar os ouvidos para ilustrar a síndrome de Estocolmo na violência doméstica.

Síndrome de Estocolmo na violência doméstica: porque é tão difícil sair?

| Susana Valente | Saúde mental

A Síndrome de Estocolmo na violência doméstica é vista como comum para explicar porque é que tantas vítimas permanecem em relações abusivas, mesmo quando enfrentam perigo real. 

No entanto, a realidade é mais complexa do que um rótulo psicológico.

O que parece, do exterior, uma “escolha irracional” é, na verdade, um conjunto de respostas neurobiológicas ao trauma, mecanismos de sobrevivência e dinâmicas de poder profundamente enraizadas.

Neste artigo, exploramos o que é a Síndrome de Estocolmo, como funciona o ciclo do abuso e porque é tão difícil romper com uma relação violenta.

Além disso, vamos abordar porque é que muitos especialistas preferem o termo “apaziguamento” (“appeasement” em Inglês) e falar do fenómeno de "trauma bonding".

No final, vais entender melhor esta associação entre Síndrome de Estocolmo e violência doméstica, e também saber onde podes pedir ajuda, se precisares.

👉 O que é a Síndrome de Estocolmo?

A Síndrome de Estocolmo descreve um fenómeno psicológico em que uma vítima desenvolve sentimentos positivos, empatia ou lealdade para com x agressorx.

O termo surgiu após um assalto a um banco em Estocolmo (Suécia), em 1973, quando xs reféns começaram a defender xs sequestradores.

Na violência doméstica, este mecanismo pode manifestar-se quando:

  • A vítima depende emocionalmente dx agressorx;
  • Existe alternância entre violência e “carinho”;
  • A vítima acredita que a sobrevivência depende de agradar ax agressorx;
  • isolamento social e económico;
  • Existe medo constante e imprevisibilidade.

Contudo, muitos especialistas em trauma consideram o termo inadequado para descrever relações abusivas prolongadas.

A Síndrome de Estocolmo sugere uma “identificação irracional” quando, na verdade, estamos perante respostas de sobrevivência.

O conceito de “apaziguamento”

Alguns especialistas e vários estudos recentes defendem que, em vez de falarmos da Síndrome de Estocolmo na violência doméstica, devemos, antes, referir “apaziguamento”. E porquê?

O apaziguamento é uma reação biológica ao trauma que surge como "uma poderosa resposta inconsciente de sobrevivência" perante "uma ameaça à vida no contexto da violência interpessoal", como sublinha um estudo publicado em 2023, na publicação científica "European Journal of Psychotraumatol".

Assim, junta-se às respostas clássicas de luta, fuga ou congelamento. Quando lutar ou fugir não é possível, o corpo ativa um quarto mecanismo: agradar, acalmar, submeter-se para reduzir o perigo.

Isto não é uma escolha consciente. É uma resposta automática do sistema nervoso.

"A estratégia de apaziguamento enfatiza a assimetria e a adaptação utilizadas para regular e acalmar x agressorx, minimizando assim o potencial de lesões e abusos", sublinha o citado estudo que critica o uso de Síndrome de Estocolmo aplicado ao contexto da violência doméstica.

Neste âmbito, o apaziguamento pode manifestar-se como:

  • Minimizar a gravidade da violência;
  • Justificar o comportamento dx agressorx;
  • Tentar “não provocar”;
  • Assumir a culpa para evitar escaladas;
  • Mostrar gratidão por pequenos gestos de “bondade”.
O apaziguamento não é amor. Não é dependência emocional “por fraqueza”. É neurobiologia da sobrevivência.

O ciclo do abuso

A violência doméstica raramente é contínua. Ela segue um padrão repetitivo conhecido como ciclo do abuso, composto por quatro fases:

Infográfico sobre o ciclo do abuso na violência doméstica.

➤ 1.ª Fase: tensão

A pessoa que agride torna-se irritável, controladora e crítica.

Enquanto isso, a vítima tenta evitar conflitos, ajusta comportamentos, cede, apazigua.

➤ 2.ª Fase: ato violento

Esta fase é marcada com um ato violento da parte dx agressorx, que pode ser físico, psicológico, sexual, económico ou digital.

A vítima sente medo, choque e humilhação.

➤ 3.ª Fase: reconciliação (a “lua-de-mel”)

Quem agride pede desculpas, promete mudar, mostra carinho, oferece presentes, chora e diz que “não sabe o que lhe deu”.

Esta fase é crucial para criar confusão emocional na vítima.

➤ 4.ª Fase: calmaria

A relação parece tornar-se “normal”. A vítima acredita que a mudança dx agressorx é possível.

Mas, na verdade, quem agride vai retomando o controlo gradualmente. E, depois, o ciclo recomeça.

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Este ciclo de abuso e reconciliação cria uma alternância entre terror e alívio que reforça a ligação emocional, tornando a saída da vítima cada vez mais difícil.

"Trauma Bonding": quando o cérebro se liga ax agressorx

A expressão “trauma bonding descreve a ligação emocional intensa que se forma entre vítima e x agressorx quando há:

  • Ciclos de abuso e reconciliação;
  • Dependência emocional ou económica;
  • Isolamento;
  • Medo constante;
  • Reforço intermitente (carinho seguido de violência).

O reforço intermitente é um dos mecanismos psicológicos mais poderosos. O cérebro fica condicionado a esperar a fase “boa”, mesmo que ela seja cada vez mais curta.

A vítima pode pensar:

  • “Elx só é assim quando está stressadx”;
  • “Elx só perde o controlo porque me ama”;
  • “Se eu me esforçar mais, tudo volta ao normal”;
  • “Elx também teve uma infância difícil”;
  • “Eu sei que no fundo é uma boa pessoa”.
O “trauma bonding” também não é uma manifestação de amor. É dependência criada pelo medo e pela esperança.

Porque é tão difícil sair de uma relação violenta?

De fora, a pergunta parece simples: “Se está a sofrer, porque não sai?”, mas, para quem vive uma situação de violência na pele, a resposta envolve múltiplas camadas, como vamos ver de seguida...

➤ Medo real

A fase mais perigosa para uma vítima de violência doméstica é quando tenta sair, o que demove muitas pessoas de abandonarem este tipo de relações.

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Muitos homicídios em contexto de violência doméstica acontecem após a separação.

➤ Isolamento

X agressorx afasta a vítima de família, amigxs, colegas, recursos financeiros e até do acesso à informação.

Este comportamento deixa a vítima mais isolada e com menos capacidade para pedir ajuda, e para sair da relação abusiva.

➤ Dependência económica

Sem autonomia financeira, a saída parece impossível. Este é outro comportamento muito típico dxs agressorxs na violência doméstica, promovendo a dependência económica das vítimas para as manterem “presas” à relação.

➤ Manipulação emocional

A pessoa que agride alterna os seus comportamentos entre violência e carinho, o que acaba por criar confusão na vítima. E, ao mesmo tempo, dá-lhe esperança de que as coisas mudem para melhor.

➤ Culpa e vergonha

A vítima pode sentir que a culpa é dela, que falhou, que “permitiu” a violência ou que ninguém irá acreditar nela se fizer queixar ou se denunciar.

➤  Normalização do abuso

Quando a violência doméstica é constante, o cérebro adapta-se para sobreviver.

E, então, o que é intolerável para quem observa pode tornar-se “habitual” para quem vive na violência.

➤ Apaziguamento

A vítima acredita que, se mantiver a calma, se estiver submissa ou compreensiva, a violência diminuirá. E esse é mais um “engodo” de quem agride, para manter a pessoa violentada “presa” nas suas garras.

➤ "Trauma bonding"

A ligação emocional criada pelo ciclo do abuso torna a separação dolorosa e confusa, levando a vítima a manter-se na relação abusiva, mesmo que se sinta miserável e infeliz.

👉 Como quebrar o ciclo do abuso

Sair de uma relação violenta não é um ato isolado que se possa tomar por impulso  é um processo que pode ser demorado e que começa muito antes da saída física.

E há passos decisivos que se devem seguir para conseguir quebrar o ciclo do abuso.

Infográfico sobre como quebrar o ciclo de abuso na violência doméstica.

➤ 1. Reconhecer que há violência

A violência doméstica não é apenas física. Inclui:

  • Insultos, humilhações, ameaças;
  • Controlo financeiro;
  • Vigilância digital;
  • Isolamento social;
  • Coerção sexual;
  • Destruição de objetos;
  • Chantagem emocional.

Reconhecer o abuso é o primeiro passo. E, por vezes, as vítimas nem sempre têm essa capacidade, sobretudo no início das relações.

Repara que a violência doméstica quase nunca começa com atos de agressão física. Inicialmente, são pequenos gestos e atitudes que vão progredindo para uma gravidade maior.

Em alguns casos, a violência é psicológica, o que pode tornar mais difícil detetar os sinais. Por isso, é sempre importante estar atentx a indicadores como os apontados.

➤ 2. Falar com alguém de confiança

Partilhar o que está a acontecer ajuda a quebrar o isolamento e a validar a experiência pessoal de violência e sofrimento.

É importante procurar pessoas próximas que tenham capacidade de aconselhar e de ajudar, se for preciso.

➤ 3. Criar um plano de segurança

Muitas vítimas ficam em relações abusivas porque não sabem como sair.

Para darem esse passo, além de terem de ultrapassar o medo e todas as condicionantes associadas à violência doméstica, é importante definir um plano de segurança que inclua:

  • Ter os documentos essenciais acessíveis;
  • Preparar uma mala discreta;
  • Memorizar contactos importantes;
  • Identificar locais seguros;
  • Definir um código com amigxs/família.

➤ 4. Procurar apoio especializado

Profissionais de psicologia ou técnicxs habituadxs a trabalharem com vítimas de violência doméstica compreendem o ciclo, o trauma e as dificuldades reais da saída.

Assim, podem ser um apoio essencial para quem quer romper com o ciclo de abuso.

O que fazer depois de sair é outro momento aterrador para vítimas de violência doméstica. Apoio psicológico, aconselhamento jurídico e apoio social são fundamentais para se reconstruir a vida.

👉 Onde pedir ajuda

Se tu ou alguém que conheces está em risco, é importante procurar apoio especializado o quanto antes.

Em Portugal, existem várias estruturas especializadas que oferecem apoio gratuito, confidencial e adaptado a cada situação.

Estes serviços podem ajudar com informação jurídica, apoio psicológico, casas de abrigo, planos de segurança e acompanhamento social.

Eis alguns dos locais onde podes pedir ajuda:

Linha Nacional de Emergência Social (LNES)

Atendimento 24 horas para situações de risco imediato.

  • Telefone: 144

Linha de Apoio à Vítima  APAV

Presta apoio emocional, jurídico e psicológico para vítimas de violência doméstica e outros crimes.

A APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) tem centros de atendimento em todo o país, incluindo Aveiro, Porto, Coimbra e Lisboa, disponibilizando apoio especializado para mulheres, homens, crianças e idosos.

  • Telefone: 116 006 (dias úteis, 9h–19h)
  • Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ter o JavaScript autorizado para o visualizar.

CIG  Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género

A CIG coordena a rede nacional de apoio a vítimas de violência doméstica, incluindo casas de abrigo e respostas de emergência.

UMAR  União de Mulheres Alternativa e Resposta

A UMAR tem projetos especializados em violência doméstica, violência sexual e apoio psicológico feminista.

AMCV  Associação de Mulheres Contra a Violência

A AMCV oferece apoio especializado a mulheres e crianças vítimas de violência doméstica e violência e abuso sexual.

PAV  Programa de Apoio à Vítima (PSP)

A PSP dispõe de equipas especializadas para acompanhar vítimas de violência doméstica.

GNR  Núcleos de Investigação e Apoio a Vítimas Específicas (NIAVE)

Este núcleo da GNR dispõe de acompanhamento especializado em zonas não urbanas.

Serviços de Saúde (SNS)

Os centros de saúde e hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) podem ativar equipas de apoio à vítima e encaminhar para estruturas de proteção.

Cáritas Portuguesa

A Cáritas presta apoio social, psicológico e habitacional em situações de emergência.

Santa Casa da Misericórdia

A Santa Casa da Misericórdia tem apoio social, psicológico e encaminhamento para casas de abrigo em várias localidades portuguesas.

Associações Locais

Existem diversas associações locais em todo o país que prestam apoio especializado a vítimas de violência doméstica, nomeadamente acompanhamento psicológico, jurídico, social e, em alguns casos, casas de abrigo.

Eis algumas associações locais que atuam nesta área:

Muito além da Síndrome de Estocolmo: violência doméstica é mais complexa

A Síndrome de Estocolmo na violência doméstica não cobre a complexidade do fenómeno.

Há inúmeras camadas de trauma e controlo que são especialmente profundas e que importa compreender para entender a verdadeira dimensão da violência doméstica.

Apesar de poder ajudar a explicar a complexidade destas relações, o conceito de Síndrome de Estocolmo não deve ser usado para culpar ou infantilizar as vítimas.

O que está em causa não é “amor pelx agressorx”, mas sim respostas de sobrevivência que estão ligadas aos instintos humanos mais primitivos e prementes.

O apaziguamento, o "trauma bonding" e o ciclo do abuso não são sinais de fraqueza. São sinais de que a vítima fez tudo o que podia para sobreviver num contexto de perigo contínuo.

Sair é possível, mas exige apoio, segurança, validação e tempo.