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grupo de amigos abraçado em campo de voleibol
| Sara Paiva | Saúde mental

Como criar uma rede de apoio emocional segura e confiável

Sentes-te só? Parece que carregas o peso do mundo nas costas? A vida traz, muitas vezes, desafios que são difíceis de superar a sós, como a maternidade, um problema de saúde, um momento de luto. Ter uma rede de apoio emocional segura e confiável faz toda a diferença em momentos desses.

Haver uma rede de apoio é ter suporte afetivo e prático naqueles momentos em que nos sentimos mais frágeis. É um pilar para a tua saúde mental e emocional, pois, partilhando as tuas preocupações, reduzes o stress, a ansiedade e aumentas a tua capacidade de adaptação perante os problemas e as adversidades. 

Pessoas trabalhadoras do sexo sentem-se, vezes de mais, que não têm a quem recorrer. O estigma e o preconceito afastam-nas do mundo. Mas não tem de ser assim! A verdade é que, se olhares ao teu redor, vais encontrar pessoas que se preocupam genuinamente contigo e que vão estender-te a mão quando precisares. 

O que é uma rede de apoio emocional

Uma rede de apoio é um grupo de pessoas e/ou instituições disponível para ajudar em momentos de adversidade, mas também para partilhar alegrias e conquistas, com quem tenhas relações de confiança, com quem podes ser autênticx, sem máscaras.

A rede de apoio emocional quebra o isolamento tantas vezes vivido por pessoas de grupos marginalizados, como que fazem Trabalho Sexual.

Quando tens uma rede de apoio emocional, sabes que, quando a vida estiver muito difícil, há pessoas que te conhecem e que se importam com o que sentes.

Existem dois tipos de redes de apoio que deves ter:

  • Rede informal — composta por pessoas mais próximas, como pessoas amigas, familiares, vizinhas e colegas. É formada por laços afetivos e de confiança mútua. O apoio é espontâneo, como ouvir um desabafo, ajudar com as crianças, acompanhar numa consulta médica, entre outras ações;
  • Rede formal — profissionais e instituições que oferecem suporte especializado e estruturado, como psicólogxs, assistentes sociais, médicxs, ONG, entre outros.

As duas redes de apoio são importantes porque se complementam — uma oferece calor humano, a outra competência técnica.

A importância de ter uma rede de apoio familiar

A rede de apoio familiar é, regra geral, a primeira linha de defesa ao longo da nossa vida, sobretudo em contextos mais difíceis, como no surgimento de uma doença, na perda de alguém, no envelhecimento…

Esta rede de apoio distingue-se de todas as outras pela história partilhada. Existe uma cultura familiar própria, valores e crenças vividos de forma coletiva, mantendo a união e coesão do grupo. A verdade é que, por isso, quando a família funciona bem, esta se torna uma fonte de força inquebrável.

No entanto, é importante dizer que a família não é a única resposta possível (e nem sempre é a melhor). Se a tua família não te dá o suporte de que precisas, diversifica e adapta o teu círculo de apoio à tua realidade.

O vínculo de confiança é sempre o mais importante.

A importância de uma rede de apoio para a saúde mental e emocional

A tua saúde mental e emocional depende muito do sentimento de pertença e da segurança de saber que tens alguém que está lá para ti sempre, em qualquer circunstância. Ter uma rede de apoio emocional forte:

  • Reduz o stress — quando partilhas um problema com alguém de confiança, a carga emocional associada diminui;
  • Previne doenças mentais — uma rede de apoio sólida atua na prevenção de uma série de doenças psicológicas, como a depressão e a ansiedade (que tanto afetam as pessoas trabalhadoras do sexo). Nota que a solidão crónica é um dos fatores de risco para a saúde mental;
  • Fortalece o sistema imunológico — promovendo um estado de saúde geral mais equilibrado;
  • Aumenta a autoestima — quando tens alguém que te ouve e apoia, sentes que tens valor e que mereces ser cuidadx;
  • Fortalece a resiliência — recuperas mais rápido de situações difíceis, não porque os problemas desaparecem, mas porque tens alguém ao teu lado que os enfrenta contigo.

Quem deve fazer parte do teu círculo de apoio?

Não há uma fórmula certa — o importante é que te rodeies de pessoas com quem tenhas um vínculo de confiança. Contudo, deves ter diferentes tipos de apoio:

  • Emocional — dado por pessoas amigas, familiares ou parceiras, que te escutam, confortam e estão presentes em qualquer momento. Estas pessoas são essenciais para o suporte emocional, mas também para desabafos e momentos de lazer. Muitas vezes, pessoas amigas acabam por “fazer a vez” da família, até porque uma amizade de confiança pode ter o mesmo poder que um laço de sangue;
  • Prático — vizinhxs e familiares podem ajudar com algumas tarefas do dia a dia, transporte, ou até com as crianças, promovendo um ambiente local mais seguro e solidário. Colegas de trabalho podem ajudar a resolver desafios profissionais, a trocar ideias ou até ajudar quando ficas doente ou quando tens algum imprevisto;
  • Profissional — terapeutas, psicólogxs, médicxs e assistentes sociais podem dar-te orientação técnica e ferramentas para gerires a ansiedade, por exemplo;
  • Comunitário — associações, grupos de interesse e ONG oferecem recursos, pertença e permitem a troca de experiências.

Como identificar necessidades emocionais

Começa por perceber em que áreas da vida precisas de mais apoio:

  • Precisas de ajuda com as tarefas do dia a dia?
  • Sentes-te sobrecarregadx emocionalmente e precisas de uma pessoa que te ouça sem julgamentos?
  • Sentes necessidade de conselhos de alguém que esteja a passar pela mesma situação que tu?
  • Precisas de um espaço seguro para falar sobre algo que não consegues partilhar com a família?
  • Tens sintomas persistentes de ansiedade e tristeza?

Sabendo do que precisas, é mais fácil saberes a quem deves recorrer. Não tens de resolver todos os teus problemas com a mesma pessoa. Cada membro da tua rede de apoio pode ter um papel diferente na tua vida, mas igualmente valioso.

jovem chora abraçada a uma pessoa amiga

Como comunicar as necessidades à rede de apoio emocional

As pessoas, por mais próximas que te sejam, não adivinham o que sentes. Por isso, é importante que lhes digas do que precisas. Não tens de te sentir envergonhadx por pedir ajuda, não penses que vais incomodar ou que vão pensar mal de ti. Lembra-te de que as pessoas gostam de ti e querem ajudar-te (só precisam de saber como).

  • Sê diretx — não faças rodeios, expressa o que sentes e do que precisas diretamente;
  • Deixa claro o tipo de apoio de que precisas — se procuras uma pessoa para desabafar, diz logo no início da conversa que só queres que a pessoa te ouça e que não procuras soluções. Desta forma, permites que a outra pessoa esteja presente de verdade e evitas mal-entendidos;
  • Não esperes que as outras pessoas percebam tudo — as pessoas à tua volta andam ocupadas com as suas vidas e com os próprios desafios. Por isso, podem não perceber que estás a precisar de ajuda. Assim, não esperes que elas entendam do que precisas, vai ter com elas e fala.

Estabelecer limites saudáveis

Ter uma rede de apoio emocional não significa que tenham de se intrometer na tua vida. Estabelecer limites é essencial para o apoio não se transformar numa fonte de stress adicional.

Limites não são barreiras, antes são fronteiras que protegem as relações.

Aqui, algumas situações que devem ter limites claros:

  • Palpites — principalmente quando não foram pedidos e em temas sensíveis como a tua profissão, relacionamentos, educação das crianças. Agradece a intenção da pessoa, mas deixa claro que já tomaste uma decisão;
  • Disponibilidade — nem tu nem as pessoas da tua rede de apoio têm de estar disponíveis o tempo inteiro. Se não tens energia para ajudar alguém, diz isso, sem culpa;
  • Informações sobre a tua vida — não tens de partilhar todas as informações sobre a tua vida com todas as pessoas da tua rede de apoio.

Dicas práticas para construir e cultivar a tua rede de apoio emocional

Criar e manter uma rede de apoio exige dedicação. Além de não se construir da noite para o dia, é preciso que se alimente, com pequenos gestos consistentes. Segue as dicas que te trazemos aqui:

  • Identifica as pessoas que já tens na tua vida — antes de procurares novas conexões, olha para as pessoas que já estão presentes na tua vida. Por vezes, o apoio de que precisamos já existe, só não foi pedido. Percebe quem te escuta, tem empatia, está disponível e demonstra cuidado;
  • Participa de diferentes grupos sociais — não deves recorrer apenas a uma ou duas pessoas. É importante que a tua rede de apoio emocional seja diversificada. Portanto, participa em diferentes comunidades — trabalho, grupos de voluntariado, fóruns online, entre outros;
  • Trabalha as relações que já tens — laços duradouros precisam de contacto regular, mas também de carinho mútuo. Envia uma mensagem às pessoas a perguntar como estão. Por vezes, pequenos gestos valem mais do que horas de convívio presencial;
  • Cultiva a reciprocidade — relações saudáveis são recíprocas. Assim, não procures as pessoas só quando precisas delas (ninguém gosta de se sentir usadx). Oferece ajuda, preocupa-te genuinamente, pois é esta relação de apoio mútuo que vai fortalecer os laços de confiança.

Quando procurar apoio profissional

Há alturas na nossa vida que, por muito apoio que tenhamos da nossa família e amigxs, precisamos de ajuda profissional. Reconhecer que não consegues ultrapassar este momento sem apoio não é sinal de fraqueza, mas sim de maturidade emocional.

Assim, deves procurar ajuda profissional quando:

  • Sentes que as tuas emoções te estão a prejudicar no dia a dia (afetam o teu trabalho, o teu sono, as tuas relações);
  • Estás a enfrentar um trauma, um luto difícil, uma doença grave;
  • Sentes ansiedade e/ou tristeza profunda constante;
  • Precisas de um espaço neutro e confidencial para falar, sem o peso emocional que uma pessoa amiga ou familiar possa trazer;
  • Sentes que a tua rede de apoio está sobrecarregada.

Pedir ajuda demonstra uma grande coragem, nunca fraqueza. Só uma pessoa muito forte é capaz de enfrentar os seus problemas de frente e de reconhecer que ter ajuda especializada vai ajudar nesse caminho.

Ter uma rede de apoio é, portanto, um ato de cuidado contigo, mas também um presente para as pessoas que a integram. Cada pessoa dessa rede de apoio sai a ganhar — segurança, companhia e sentimento de pertença.