Skip to main content
Mão de mulher com as palavras "Stop Abuse" escritas na palma contra o abuso sexual.
| Susana Valente | Segurança

O que fazer em caso de abuso sexual? Guia de ação

O abuso sexual é uma das formas mais graves de violência e uma violação profunda dos direitos humanos. Aprende a denunciar e vê como agir.

Há situações de abuso sexual a acontecerem em todos os contextos  relações íntimas, família, espaços públicos, trabalho, encontros ocasionais e também no contexto do Trabalho Sexual. Mas, independentemente da situação, ninguém tem o direito de tocar no teu corpo sem consentimento. Nunca!

Neste artigo, vamos ajudar-te com dicas claras e práticas sobre o que fazer em caso de abuso sexual, informação clara sobre como agir, apoiar e denunciar.

Definição de abuso sexual: o que é e o que não é

A definição de abuso sexual, segundo entidades como a Ordem dos Psicólogos e a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, inclui qualquer ato sexual:

  • Sem consentimento;
  • Obtido por coerção, manipulação, ameaça, violência ou incapacidade de resposta;
  • Com contacto físico ou sem contacto físico.

Isto significa que abuso sexual não é apenas violação. Inclui também:

  • Toques indesejados em zonas íntimas;
  • Beijos forçados;
  • Obrigar alguém a tocar outra pessoa;
  • Exposição de órgãos genitais sem consentimento;
  • Obrigar a assistir a atos sexuais;
  • Pressão emocional ou psicológica para ter relações sexuais;
  • Atos sexuais com pessoas incapazes de consentir (por exemplo, sob efeito de álcool, drogas, inconscientes ou em estado de choque, e menores de idade).
O abuso sexual é crime em Portugal, independentemente da relação entre vítima e agressor, do local, da roupa, do comportamento ou da profissão da vítima.

📌 O que fazer em caso de abuso sexual: passos imediatos

Se o abuso acabou de acontecer, é normal sentir confusão, medo, vergonha, raiva ou até um estado de choque. Mas nada disto significa que fizeste algo errado.

E há passos imediatos, práticos e realistas, que podes, e deves, dar para salvaguardares a tua segurança. Toma nota!

1. Garante a tua segurança imediata

Se ainda estás perto da pessoa agressora, tenta afastar-te para um local seguro:

  • Casa de alguém de confiança;
  • Estabelecimento público;
  • Esquadra da polícia;
  • Hospital.

Se não consegues sair sozinhx, liga para alguém de confiança ou para o 112.

2. Não tomes banho nem mudes de roupa (se conseguires)

Se o abuso sexual envolver relações sexuais, tenta evitar:

  • Tomar banho;
  • Lavar dentes;
  • Trocar de roupa;
  • Lavar roupa;
  • Urinar.

Sabemos que é difícil  o primeiro instinto de muitas pessoas abusadas é a urgência em lavar o corpo. Mas, se fores vítima de abuso sexual, isso pode apagar provas importantes e impedir que x culpadx seja punidx.

No entanto, mesmo que já tenhas tomado banho e tratado de te limpar, ainda continuas a ter o direito a denunciar.

A falta de provas físicas não invalida o teu testemunho.

3. Procura atendimento médico o mais rápido possível

Mesmo que não haja ferimentos visíveis, é fundamental:

Podes deslocar-te a:

  • Serviços de Urgência;
  • Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF);
  • Hospitais com protocolo de violência sexual.
O atendimento médico não obriga a denúncia, mas é fundamental para cuidares da tua saúde física e mental.

4. Contacta uma linha de apoio especializada

Existem linhas de apoio especializadas para atender pessoas que sofrem de diversos tipos de violência, incluindo o abuso sexual, que sabem exatamente como ajudar, sem julgamentos. Eis alguns exemplos:

  • APAV  Associação Portuguesa de Apoio à Vítima;
  • Quebrar o Silêncio (para homens e rapazes);
  • AMCV  Associação de Mulheres Contra a Violência.

Estas organizações oferecem apoio psicológico, jurídico e emocional e podem ajudar-te a saber melhor o que fazer em caso de abuso sexual.

5. Escreve ou grava o que te lembras

O trauma afeta a memória. Então, é importante que tomes nota de todos os detalhes de que te lembrares sobre o abuso sexual de que foste vítima, nomeadamente:

  • O que aconteceu;
  • Onde;
  • Quando;
  • Quem estava presente;
  • Características da pessoa agressora;
  • Mensagens, prints, objetos, roupas…

Isto pode ajudar mais tarde, mesmo que não queiras denunciar de imediato.

Apoio emocional e psicológico: o que esperar e como cuidar de ti

O abuso sexual tem impacto emocional profundo e não existe uma forma “certa” de reagir.

Perante um episódio deste tipo, é comum sentir-se:

  • Medo;
  • Vergonha;
  • Raiva;
  • Ansiedade;
  • Dificuldade em dormir;
  • Sensação de sujidade;
  • Isolamento;
  • Culpa (mesmo sem razão).
É importante reforçar que a culpa nunca é da vítima.

Estratégias de autocuidado emocional

Perante o turbilhão de emoções que podes sentir, é importante agir o quanto antes, adotando estratégias de autocuidado emocional.

Nesse sentido, podes fazer o seguinte:

  • Fala com alguém de confiança;
  • Procura apoio psicológico especializado;
  • Evita tomar decisões importantes nos primeiros dias após o episódio traumático;
  • Mantém rotinas básicas (comer, dormir, hidratar);
  • Evita o isolamento total;
  • Permite-te sentir  não há emoções erradas.

Terapia especializada em trauma

Profissionais especializados em trauma sexual utilizam abordagens como:

  • EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares);
  • Terapia cognitivo-comportamental focada no trauma;
  • Terapia somática;
  • Aconselhamento psicológico de crise.

O acompanhamento psicológico é um direito e pode ser gratuito através de várias organizações.

Abuso sexual definicao

📌 Denunciar abuso sexual: como, quando e porquê

A denúncia é um direito, nunca uma obrigação. Não te deves sentir obrigadx a denunciar, mas pensa que fazê-lo pode:

  • Impedir que a pessoa agressora volte a abusar;
  • Garantir-te proteção legal;
  • Dar-te acesso a medidas de apoio;
  • Contribuir para justiça e responsabilização.

Como denunciar abuso sexual em Portugal

Podes fazer a denúncia na/no:

  • Polícia Judiciária (especializada em crimes sexuais);
  • PSP ou GNR;
  • Ministério Público.

As denúncias também podem ser feitas pelo 112.

Podes denunciar oralmente ou por escrito, e podes fazê-lo mesmo que não saibas quem praticou o abuso sexual.

Se a vítima tiver menos de 16 anos, devem ser xs progenitorxs ou familiares próximxs, cuidadorxs ou responsáveis legais a formalizar a queixa.

O que acontece depois da denúncia?

Há uma série de passos básicos que se seguem à apresentação de uma denúncia relacionada com abuso sexual, tais como:

  1. Recolha de testemunho;
  2. Avaliação médica e psicológica;
  3. Investigação criminal;
  4. Possível aplicação de medidas de proteção;
  5. Acompanhamento por equipas especializadas.

Em todo o processo, a vítima de abuso sexual tem direito a:

  • Ser tratada com respeito e dignidade;
  • Apoio psicológico e jurídico;
  • Proteção policial (se necessário);
  • Informação clara sobre o processo.

👉 Trabalho Sexual e abuso sexual: direitos que não mudam

É fundamental reforçar que as pessoas que fazem Trabalho Sexual (PTS) têm exatamente os mesmos direitos que qualquer outra pessoa.

O facto de alguém se dedicar a esta atividade não retira o direito ao consentimento, nem obriga a aceitar práticas que não deseja.

Isto significa que:

  • A denúncia é um direito;
  • Violência sexual contra trabalhadorxs do sexo é crime, tal como contra qualquer outra pessoa;
  • Umx cliente não tem direito a ultrapassar limites acordados;
  • Pressão, chantagem ou manipulação não são consentimento;
  • O acesso a apoio psicológico e jurídico é um direito;
  • A profissão não invalida a credibilidade da vítima.

Portanto, se és profissional do sexo e foste vítima de abuso sexual, tens direito a:

  • Atendimento médico;
  • Apoio psicológico;
  • Denúncia;
  • Proteção;
  • A ser tratadx com respeito e sem julgamentos morais.

E se a vítima de abuso sexual for uma criança?

O abuso sexual infantil é uma das formas mais graves de violência e exige uma resposta imediata, protegida e altamente cuidadosa.

As crianças nunca têm capacidade para consentir com atos sexuais. Portanto, qualquer contacto sexual com uma criança é sempre abuso, independentemente da relação com o agressor, do contexto ou da forma como aconteceu.

Em Portugal, o abuso sexual de crianças é crime público, o que significa que qualquer pessoa que tenha conhecimento ou suspeita tem o dever legal e ético de comunicar.

Como reconhecer sinais de abuso sexual infantil

Nem sempre uma criança consegue verbalizar o que aconteceu. Muitas vezes, o corpo e o comportamento falam primeiro. Alguns sinais possíveis incluem:

 Sinais emocionais e comportamentais:

  • Medo repentino de certas pessoas ou lugares;
  • Regressão (voltar a fazer chichi na cama, falar como bebé, etc.);
  • Pesadelos ou dificuldade em dormir;
  • Mudanças bruscas de humor;
  • Isolamento ou retraimento;
  • Comportamentos sexualizados inadequados para a idade;
  • Ansiedade, tristeza ou irritabilidade persistente.

 Sinais físicos:

  • Dores ou feridas na zona genital;
  • Dificuldade em andar ou sentar;
  • Infeções urinárias ou genitais recorrentes;
  • Sangramento ou corrimento incomum.

Nenhum destes sinais, isoladamente, confirma abuso, mas qualquer suspeita deve ser levada a sério.

📌 O que fazer se uma criança revelar abuso sexual

Se uma criança te disser que foi vítima de abuso sexual, a forma como respondes pode influenciar profundamente a sua recuperação. Então, segue estas dicas:

  • Mantém a calma  a criança precisa de segurança para evitar sentir culpa ou medo;
  • Acredita no que ela diz  as crianças raramente inventam relatos de abuso sexual. Então, reforça que acreditas nela e que vais ajudá-la;
  • Não faças perguntas detalhadas  evita perguntas como “O que é que te fez exatamente?” ou “Quantas vezes?”, pois isso pode confundir a criança e prejudicar a investigação.
  • Garante a segurança imediata  se a criança estiver em risco, afasta-a da pessoa agressora e procura uma pessoa adulta responsável ou autoridade competente.

📌 Onde pedir ajuda e como denunciar

Em Portugal, existem mecanismos específicos para proteger crianças vítimas de abuso sexual.

Para isso, precisas de contactar as autoridades competentes:

A denúncia pode ser feita por qualquer pessoa  familiar, vizinhx, professorx, profissional de saúde ou outra pessoa adulta.

Procura atendimento médico

Mesmo que não haja sinais físicos, é importante avaliar a saúde da criança, registar eventuais lesões e garantir apoio psicológico especializado.

O atendimento médico não obriga a criança a prestar depoimento imediato.

Abuso sexual infantil sinais de alerta 1

Apoio psicológico para crianças vítimas de abuso sexual

O impacto emocional do abuso sexual infantil pode ser profundo, mas a recuperação é possível com apoio adequado.

As abordagens mais utilizadas incluem psicoterapia especializada em trauma infantil, terapia lúdica e acompanhamento familiar.

A intervenção visa restaurar o sentimento de segurança, reduzir sintomas de ansiedade, medo ou culpa, ajudar a criança a reorganizar a experiência traumática, e fortalecer a autoestima e a confiança.

E se o agressor for alguém da família?

Infelizmente, muitos casos de abuso sexual infantil acontecem dentro do círculo familiar. Nestes casos, a denúncia continua a ser obrigatória.

A criança pode ser retirada temporariamente do ambiente familiar abusivo e a CPCJ e o Ministério Público avaliam medidas de proteção, depois de ter sido efetuada a denúncia.

A prioridade é sempre a segurança da criança.

Mesmo quando há laços afetivos, proteger a criança é mais importante do que proteger a imagem da família.

📌 Como apoiar alguém que sofreu abuso sexual

Se alguém te confidenciou que foi vítima de abuso sexual, precisas de estar preparadx para uma abordagem positiva e que reforce a segurança da pessoa.

 O que dizer?

  • “Acredito em ti.”
  • “Não tens culpa.”
  • “Obrigadx por confiares em mim.”
  • “Queres que te acompanhe ao hospital ou à polícia?”

 O que evitar?

  • Fazer perguntas que soam a culpa (“Porque foste lá?”, “Estavas bêbeda?”);
  • Pressionar para denunciar;
  • Minimizar o que aconteceu (“Poderia ter sido pior”).

 Como ajudar?

  • Oferece o teu ombro amigo e a tua presença, não soluções imediatas;
  • Ajuda a procurar apoio especializado;
  • Respeita o ritmo da pessoa;
  • Garante que não fica sozinhx nas primeiras horas (se possível).

Mitos comuns sobre abuso sexual (e porque são falsos)

Aproveita, agora, para esclarecer alguns mitos sobre abuso sexual que continuam a existir, muitas vezes por falta de informação e preconceito.

“Se não resistiu, não foi abuso.”

🟥➜ Falso. O corpo entra frequentemente em modo de “congelamento”.

“Só é abuso se houver violência física.”

🟥➜ Falso. Coerção psicológica também é abuso.

“Pessoas que fazem Trabalho Sexual não podem ser violadas.”

🟥➜ Totalmente falso. Consentimento é sempre específico, negociado e revogável.

“Se não houver provas físicas, não vale a pena denunciar.”

🟥➜ Falso. A maioria das condenações baseia-se em testemunhos e contexto.

Abuso sexual não é culpa tua: o teu corpo, os teus limites

O abuso sexual é uma violação profunda da integridade física, emocional e psicológica. Ainda assim, é importante lembrar que:

  • Não tens culpa;
  • Não estás sozinhx;
  • Tens direitos;
  • Há apoio disponível;
  • Podes recuperar.

Se és trabalhadorx do sexo, reforçamos que o teu consentimento é tão válido e tão necessário como o de qualquer outra pessoa.

Nenhum cliente tem direito ao teu corpo. És tu quem define as tuas regras e os teus limites.

O abuso sexual também não define quem és, mas denunciar pode mudar o que vem depois. Estas dicas servem para te apoiar  a ti e a todas as pessoas que querem agir, ajudar e quebrar o silêncio.