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Penso branco com coração rosa feito de renda recortado em cima e uma tulipa rosa com a flor em cima numa representação da dignidade menstrual.

Saúde feminina e dignidade menstrual: direitos e desafios

A dignidade menstrual é hoje reconhecida como um pilar essencial da saúde feminina, da igualdade de género e dos direitos humanos.

No contexto do Dia Internacional da Saúde Feminina e do Dia Internacional da Dignidade Menstrual que se assinalam a 28 de maio, é ainda mais urgente discutir como a menstruação é vivida por diferentes grupos de pessoas que menstruam.

No caso dxs trabalhadorxs do sexo, o assunto é ainda mais premente, uma vez que estas pessoas já enfrentam desigualdades estruturais que podem ser agravadas pela menstruação.

Em Portugal, a discussão sobre dignidade menstrual ganhou força com iniciativas públicas, campanhas educativas e medidas de combate à pobreza menstrual, incluindo a distribuição gratuita de produtos menstruais em escolas e Unidades Locais de Saúde (ULS).

No entanto, quando falamos de pessoas em contextos de vulnerabilidade social, como é o caso das que se dedicam ao Trabalho Sexual, a conversa precisa de ser mais profunda, mais realista e mais centrada nos direitos.

O que é a dignidade menstrual

A dignidade menstrual refere‑se ao direito de todas as pessoas menstruadas a terem acesso a:

  • Produtos menstruais seguros e adequados;
  • Informação clara e cientificamente correta sobre saúde menstrual;
  • Condições de higiene e privacidade;
  • Cuidados de saúde sem discriminação;
  • Ambientes sociais e laborais que respeitem o corpo e o ciclo menstrual.

A Direção Geral de Saúde (DGS) reforça que a menstruação deve ser entendida como um fenómeno biológico normal, que não pode ser motivo de vergonha, discriminação ou exclusão.

Foi para sublinhar estes aspetos que se criou o Dia Internacional da Dignidade Menstrual, uma iniciativa impulsionada por entidades como a ONU, e que se foca no combate à chamada "pobreza menstrual".

O objetivo é garantir o acesso universal a produtos de higiene básica, saneamento e educação sobre o ciclo menstrual, combatendo o estigma e a exclusão social.

Trata-se, no fundo, de destacar um dos grandes pilares da saúde feminina, uma área que, durante muitos anos, não foi devidamente valorizada.

Para enfrentar esse “esquecimento”, já tinha sido criado, em 1984, o Dia Internacional da Saúde Feminina para sensibilizar o mundo para as especificidades médicas dos corpos femininos, e para fomentar a equidade no acesso aos cuidados de saúde.

Assim, estas duas datas sublinham a importância dos direitos sexuais e reprodutivos, da saúde materna, do planeamento familiar e da prevenção de doenças.

👉 Pobreza menstrual: um problema real também em Portugal

Quando falamos em “pobreza menstrual”, a tendência é pensarmos em países do Terceiro Mundo. Mas este é um problema que também se sente em países como Portugal.

A pobreza menstrual é a dificuldade ou incapacidade de adquirir produtos menstruais, mas também envolve a dificuldade de acesso a casas de banho adequadas e a falta de informação sobre saúde menstrual.

Em Portugal, o Governo reconheceu oficialmente este problema e implementou medidas como a distribuição gratuita de produtos menstruais em escolas públicas.

Um documento da Direção-Geral de Educação sublinha a importância da “distribuição mensal prioritária a crianças e jovens em condições de vulnerabilidade social”, mas destaca que “nenhuma criança ou jovem” deve ser “impedida de aceder aos produtos”.

O mesmo documento especifica que é preciso “acautelar a discrição na entrega, garantindo que a medida não provoca qualquer forma de discriminação, segregação ou estigma”.

Penso higiénico e dois tampões em cima de tábua castanha para assinalar a pobreza menstrual.

Um problema mundial

É importante notar que, em alguns países, a menstruação continua a ser um tabu. E, nalgumas culturas, é vista como uma coisa “suja”, que leva a proibir o contacto com as mulheres durante esta fase.

No entanto, a pobreza menstrual não se limita a adolescentes ou pessoas em situação de pobreza económica. Afeta também quem trabalha em contextos informais, precários ou estigmatizados, como é o caso do Trabalho Sexual.

UNICEF reforça que a pobreza menstrual afeta a saúde, a autoestima, a assiduidade escolar e a participação social das pessoas que menstruam.

Dignidade menstrual e Trabalho Sexual

As pessoas que fazem Trabalho Sexual (PTS) enfrentam desafios específicos relacionados com a menstruação que raramente são discutidos em políticas públicas ou campanhas de saúde.

Alguns dos principais desafios são os seguintes:

➤ Estigma e silêncio

A menstruação já é, por si só, um tema envolto em tabus. No Trabalho Sexual, este silêncio é ainda maior.

Muitxs trabalhadorxs do sexo sentem que não podem falar sobre o ciclo menstrual com clientes e colegas, e nem com profissionais de saúde, por medo de julgamento.

➤ Pressão económica

Para muitxs trabalhadorxs do sexo, não trabalhar significa não ter rendimento. E trabalhar com o período pode ser um problema para alguns clientes, o que cria desafios às PTS.

Durante a menstruação, algumas também podem sentir a necessidade de reduzir a atividade, mas não têm condições financeiras para o fazer  se não trabalharem, não ganham e não têm acesso a apoios da Segurança Social

➤ Falta de acesso a produtos adequados

A pobreza menstrual pode afetar pessoas que, apesar de trabalharem, vivem em condições de instabilidade económica, o que dificulta o acesso a certos produtos.

Itens de maior conforto, como coletores menstruais, discos menstruais ou pensos de elevada absorção, podem ser inacessíveis nessas condições.

➤ Risco aumentado de infeções

A gestão inadequada da menstruação, especialmente quando associada a longas horas de trabalho, pode aumentar o risco de:

  • Infeções vaginais;
  • Irritações;
  • Síndrome do choque tóxico (em casos raros, mas graves);
  • Desconforto físico que interfere com o trabalho.

➤ Falta de privacidade

Muitxs trabalhadorxs do sexo não têm acesso a casas de banho seguras, limpas ou privadas durante o horário de trabalho, o que dificulta a troca de produtos menstruais.

Saúde sexual e menstrual: o que é importante saber

A menstruação é parte integrante da saúde sexual e reprodutiva. E no caso de PTS, compreender o ciclo menstrual é essencial para:

  • Identificar alterações hormonais;
  • Reconhecer sinais de infeção;
  • Planear o trabalho de forma mais confortável;
  • Comunicar limites e necessidades.

A menstruação não é um impedimento para o trabalho, mas exige cuidados específicos para garantir segurança e bem‑estar.

4 Formas seguras de gerir a menstruação durante o Trabalho Sexual

A gestão menstrual no Trabalho Sexual deve priorizar a segurança, o conforto e a autonomia.

Se és trabalhadorx do sexo, fica com estas estratégias práticas e seguras para continuares a trabalhar durante o período:

➤ 1. Usa produtos adequados ao tipo de atividade

Cada produto tem vantagens e limitações:

  • Pensos higiénicos  são ideais para pausas entre atendimentos, mas não devem ser usados durante práticas sexuais;
  • Tampões  podem ser usados durante o trabalho, mas devem ser retirados antes do sexo vaginal e trocados a cada 4–6 horas para evitar infeções;
  • Coletores menstruais  são discretos, económicos e seguros e podem ser usados durante várias horas, mas não durante práticas sexuais internas;
  • Discos menstruais  alguns modelos permitem relações sexuais com penetração, mas é essencial escolher marcas seguras e de qualidade.

➤ 2. Evita improvisações perigosas

Há pessoas que, por vezes, recorrem a soluções de improviso que podem colocar a sua saúde em causa. Isso nunca é boa ideia!

Para evitar complicações, nunca deves usar:

  • Algodão solto;
  • Papel higiénico;
  • Esponjas de maquilhagem;
  • Esponjas de cozinha.

Estes materiais aumentam drasticamente o risco de infeções e de retenção de fibras.

➤ 3. Dá prioridade à higiene e à segurança

Os cuidados de higiene são fundamentais para evitares infeções. Por isso, segue estas sugestões:

  • Lava as mãos antes e depois de trocar produtos;
  • Transporta sempre contigo um kit menstrual com produtos extra;
  • Evita usar produtos perfumados;
  • Usa roupa interior confortável e respirável.

➤ 4. Respeita o teu corpo e os teus limites

Fica atentx aos sinais do teu corpo e não passes limites que te agridam de alguma forma.

Se sentires dor intensa, hemorragias anormais ou febre, é essencial que procures cuidados de saúde com urgência.

Trabalho sexual com o periodo infografico

Dignidade menstrual em Portugal: avanços e desafios

Portugal tem dado passos importantes no âmbito da dignidade menstrual, nomeadamente com:

  • Distribuição gratuita de produtos menstruais em escolas;
  • Campanhas de sensibilização;
  • Inclusão do tema na educação para a saúde;
  • Iniciativas de combate à pobreza menstrual.

No entanto, ainda há desafios com os quais é preciso lidar, como a falta de dados sobre a pobreza menstrual em populações mais vulneráveis.

Além disso, não existem políticas específicas para trabalhadorxs do sexo, os quais continuam a debater-se com o estigma persistente e com a desigualdade no acesso a cuidados de saúde.

A dignidade menstrual só será plena quando incluir todas as pessoas que menstruam, nomeadamente aquelas cujas vidas e trabalhos são “invisíveis” aos olhos da sociedade.

Porque o Dia Internacional da Saúde Feminina importa?

O Dia Internacional da Saúde Feminina é uma oportunidade para promover a educação em saúde e combater tabus. Mas, a par do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, também reforça a necessidade de políticas públicas inclusivas e o direito ao corpo e à autonomia.

É ainda o momento ideal para integrar a discussão sobre dignidade menstrual no contexto do Trabalho Sexual, garantindo que estas pessoas não ficam para trás.

👉 Dignidade menstrual é dignidade humana

A dignidade menstrual não é um luxo, nem é um tema secundário. É um direito fundamental que atravessa a saúde, a igualdade, a autonomia e a justiça social.

Para xs trabalhadorxs do sexo, garantir dignidade menstrual significa acesso a produtos seguros e a condições de higiene, cuidados de saúde sem discriminação, informação clara e respeito pelo corpo e pelo ciclo menstrual.

No Dia Internacional da Saúde Feminina, é essencial lembrar que não existe saúde feminina plena sem dignidade menstrual  e que esta dignidade só é real quando chega a todas as pessoas que menstruam, sem exceção.