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Duas mãos humanas, uma segura um frasco de vidro castanho e a outra tem na palma comprimidos de doxyPEP azuis e brancos.

DoxyPEP: o que é e como funciona a profilaxia pós-exposição a IST

A doxyPEP é uma estratégia de prevenção de algumas infeções sexualmente transmissíveis (IST) de origem bacteriana que consiste em tomar doxiciclina após uma relação sexual de risco.

O objetivo é diminuir o risco de desenvolver determinadas IST, sobretudo sífilis e clamídia, e, em menor grau, gonorreia.

Nos últimos anos, a doxyPEP tem despertado interesse entre pessoas com maior exposição às IST, incluindo algumas pessoas trabalhadoras do sexo.

Mas não é uma solução universal, nem deve ser utilizada por iniciativa própria. A eficácia depende da população, do contexto e da forma como é utilizada.

Além disso, existem preocupações importantes relacionadas com a resistência aos antibióticos.

Mas o que é a doxyPEP?

DoxyPEP significa “doxycycline post-exposure prophylaxis”, ou seja, profilaxia pós-exposição com doxiciclina.

A doxiciclina é um antibiótico utilizado há décadas para tratar várias infeções bacterianas. Na doxyPEP, é utilizada de forma preventiva, depois de uma exposição sexual de risco.

A intenção é tentar impedir que determinadas bactérias responsáveis por IST se estabeleçam no organismo.

Mas é importante distinguir a doxyPEP de outras estratégias de prevenção:

  • DoxyPEP: doxiciclina tomada depois de um ato sexual, para reduzir o risco de algumas IST bacterianas;
  • PrEP: medicação tomada antes da exposição para prevenir a infeção pelo HIV;
  • PPE: medicação de emergência tomada depois de uma possível exposição ao HIV.

Também importa notar que não é o mesmo que o tratamento de uma IST, onde se usa um antibiótico quando uma infeção já foi diagnosticada ou existe indicação clínica para a tratar.

A doxyPEP não previne HIV, herpes, HPV, hepatites virais ou outras IST que não sejam sensíveis à doxiciclina. Por isso, não substitui a utilização de preservativo ou a adoção de outras estratégias de prevenção, nem a realização regular de testes.

Para que IST funciona a doxyPEP?

A evidência científica mais sólida sobre a doxyPEP provém de ensaios clínicos realizados sobretudo em homens que fazem sexo com homens e em mulheres trans com risco acrescido de IST.

Nos principais ensaios clínicos realizados, foi estudada a toma de 200 mg de doxiciclina até 72 horas após uma relação sexual, revelando-se especialmente eficaz contra a sífilis e a clamídia. A proteção contra a gonorreia é mais variável.

➤ O que mostram os principais estudos

Um dos primeiros ensaios clínicos a avaliar a doxyPEP foi realizado em França, e publicado na revista científica de referência The Lancet Infectious Diseases.

O estudo mostrou que 200 mg de doxiciclina, tomados até 24 horas após sexo sem preservativo, reduziram significativamente — em cerca de 70% — o risco de clamídia e sífilis em homens que fazem sexo com homens.

Já para a gonorreia, não foi observada uma redução significativa do risco.

Outro importante ensaio clínico realizado nos EUA, avaliou a eficácia da doxyPEP em homens que fazem sexo com homens e em mulheres trans com histórico recente de sífilis, clamídia ou gonorreia.

Os participantes tomaram 200 mg de doxiciclina até 72 horas depois de uma relação sexual sem preservativo ou receberam os cuidados habituais sem doxyPEP.

Publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, o estudo concluiu que a doxyPEP reduziu em cerca de dois terços a ocorrência combinada de sífilis, clamídia e gonorreia.

A redução foi particularmente elevada para a clamídia e a sífilis, enquanto o efeito sobre a gonorreia foi menor.

Os investigadores observaram, por exemplo, que entre as pessoas que estavam a fazer PrEP para o HIV, uma IST ocorreu em 10,7% dos trimestres no grupo que utilizava doxyPEP, comparativamente com 31,9% no grupo que recebeu apenas os cuidados habituais. Entre as pessoas que viviam com HIV, os valores foram de 11,8% e 30,5%, respetivamente.

Em 2025, após acompanhamento de longo prazo dos participantes no estudo, os resultados publicados na The Lancet Infectious Diseases reforçaram estas conclusões. A doxyPEP continuou a reduzir a ocorrência de IST bacterianas nesta população.

Infográfico que explica o que é doxypep e como tomar de forma segura.

➤ DoxyPEP e resistência à gonorreia: um sinal de alerta

A utilização repetida de doxiciclina também levanta preocupações sobre o desenvolvimento de resistência aos antibióticos.

Um estudo francês publicado na revista científica Clinical Infectious Diseases analisou especificamente a resistência da Neisseria gonorrhoeae, a bactéria responsável pela gonorreia.

Os investigadores verificaram que, entre as estirpes de gonorreia analisadas, a resistência elevada às tetraciclinas, grupo de antibióticos a que pertence a doxiciclina, era mais frequente entre quem utilizava doxyPEP — 35,5% comparativamente com 12,5% no grupo que não usava doxyPEP.

O estudo encontrou também uma maior frequência de estirpes com menor sensibilidade à cefixima, um antibiótico utilizado no tratamento da gonorreia, entre as pessoas que utilizavam doxyPEP (32,3% vs. 10%).

Os investigadores alertam, por isso, para a necessidade de acompanhar de perto a resistência antimicrobiana quando a doxyPEP é utilizada.

Estes resultados não significam que a doxyPEP provoque inevitavelmente resistência em todas as pessoas que a utilizam.

👉  Significam, sim, que o uso repetido de doxiciclina pode exercer pressão seletiva sobre as bactérias, favorecendo a sobrevivência e multiplicação de algumas estirpes mais resistentes.

É uma das principais razões pelas quais a doxyPEP deve ser utilizada de forma criteriosa e acompanhada por profissionais de saúde.

➤ E nas mulheres cisgénero?

É importante ter cautela ao interpretar os resultados destes estudos, sobretudo quando falamos de mulheres cisgénero trabalhadoras do sexo.

A evidência disponível para esta população é muito mais limitada.

Num ensaio clínico realizado no Quénia, com 449 mulheres cisgénero, a doxyPEP não reduziu significativamente a incidência global de IST, de clamídia ou de gonorreia.

A eficácia contra a sífilis não pôde ser avaliada adequadamente devido ao reduzido número de casos.

Os investigadores encontraram também níveis baixos de toma efetiva da doxiciclina, o que pode ter contribuído para os resultados.

Por isso, ainda não é possível assumir que a eficácia demonstrada noutros grupos seja igual nas mulheres cisgénero, nomeadamente devido a diferenças biológicas.

Não podemos assumir que a doxyPEP tenha nas mulheres cisgénero a mesma eficácia demonstrada nos homens que fazem sexo com outros homens e nas mulheres trans.

O que sabemos, afinal, sobre doxyPEP?

A evidência atual permite dizer que a doxyPEP é uma estratégia eficaz para reduzir o risco de sífilis e clamídia, e que pode também reduzir o risco de gonorreia, sobretudo em determinados grupos com maior risco de IST.

👉 Mas a eficácia não é igual para todas as populações, nem para todas as bactérias.

Além disso, a utilização repetida de doxiciclina levanta preocupações sobre a seleção de bactérias resistentes, pelo que a estratégia deve ser acompanhada por rastreios regulares de IST e reavaliada periodicamente.

Se és uma pessoa trabalhadora do sexo, a decisão de utilizar doxyPEP deve ser tomada por ti em conjunto com umx profissional de saúde, avaliando o teu tipo de práticas sexuais, histórico de IST, riscos, medicamentos que tomas e outros fatores de saúde.

DoxyPEP: como tomar?

Quando a doxyPEP é indicada e prescrita, as recomendações clínicas mais utilizadas atualmente apontam para o uso de:

  • 👉 200 mg de doxiciclina, o mais rapidamente possível após a relação sexual, idealmente nas primeiras 24 horas e no máximo até 72 horas depois.
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Não se deve ultrapassar a toma de 200 mg de doxiciclina num período de 24 horas.

Portanto, a doxyPEP não é para tomar, em princípio, de forma diária e automática. É uma estratégia pós-exposição, utilizada de acordo com um plano definido com umx profissional de saúde.

➤ Como tomar doxyPEP de forma a reduzir os efeitos secundários?

A doxiciclina pode provocar náuseas, vómitos, diarreia, desconforto gastrointestinal e irritação do esófago. Também pode aumentar a sensibilidade da pele ao sol.

Para diminuir estes problemas, as recomendações incluem:

  • Ingerir a doxiciclina com bastante água;
  • Tomar com alimentos, se recomendado pelx profissional de saúde, para reduzir o desconforto gástrico;
  • Não se deitar durante, pelo menos, uma hora depois da toma;
  • Evitar tomar ao mesmo tempo que antiácidos ou suplementos de ferro, cálcio ou magnésio, porque podem interferir com a sua absorção;
  • Ter especial atenção à exposição solar, devido ao risco de fotossensibilidade.

Também é importante informar x profissional de saúde sobre outros medicamentos ou suplementos que estejas a tomar.

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Não uses restos de antibióticos de tratamentos anteriores, nem partilhes doxiciclina com outras pessoas.

DoxyPEP em Portugal: onde comprar?

A doxiciclina está disponível em Portugal, existindo medicamentos com este princípio ativo autorizados e comercializados no nosso país. Mas são sujeitos a receita médica, o que significa que não se podem comprar livremente.

Assim, se estás a pensar em comprar doxyPEP em Portugal, fala com umx profissional de saúde para confirmar se tens indicação para a sua utilização e para obter a receita médica. Só depois poderás comprar o medicamento numa farmácia autorizada.

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Não é recomendável comprar doxiciclina através de sites não autorizados, redes sociais ou outros canais informais. Além do risco de falsificação ou conservação inadequada, a automedicação pode levar a doses incorretas, interações medicamentosas e utilização desnecessária de antibióticos.

➤ A doxyPEP está oficialmente recomendada em Portugal?

É importante não confundir a existência da doxiciclina em Portugal com a existência de uma recomendação nacional para que todas as pessoas utilizem doxyPEP.

As recomendações internacionais não são uniformes e continuam a evoluir.

Nos EUA, por exemplo, o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças recomenda que xs profissionais de saúde falem da doxyPEP com homens que fazem sexo com homens e com mulheres trans que tenham tido pelo menos uma IST bacteriana no último ano, para que a decisão de tomar, ou não, seja partilhada entre ambas as partes.

Por isso, em Portugal, a utilização da doxyPEP deve ser avaliada individualmente em conjunto com umx profissional de saúde.

DoxyPEP e resistência bacteriana: qual é o problema?

A principal questão que acompanha a utilização da doxyPEP tem que ver com a resistência bacteriana a antibióticos.

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Quanto mais utilizamos antibióticos, maior pode ser o risco de algumas bactérias se tornarem resistentes a esses medicamentos.

As bactérias resistentes podem deixar de responder a determinados antibióticos. Isto pode tornar futuras infeções mais difíceis de tratar, não apenas para a pessoa que toma o antibiótico, mas também para a comunidade.

No caso da doxyPEP, a preocupação não se limita às bactérias responsáveis pelas IST. A utilização repetida de doxiciclina pode exercer pressão sobre outras bactérias que vivem normalmente no organismo.

➤ Isto significa que a doxyPEP é perigosa?

Não. Significa que não deve ser utilizada de forma indiscriminada e sem acompanhamento médico.

Nos estudos realizados até agora, a doxyPEP apresentou benefícios importantes em determinadas populações e foi geralmente bem tolerada.

Mas os dados sobre utilização durante muitos anos, sobretudo de forma repetida, ainda não são suficientes para conhecer completamente o impacto sobre a resistência bacteriana e o microbioma.

É precisamente por isso que a decisão deve envolver uma avaliação dos benefícios e dos riscos individuais envolvidos.

📌 DoxyPEP não substitui o rastreio de IST

Mesmo que utilizes doxyPEP, podes contrair uma IST. Por isso, a prevenção deve continuar a incluir:

  • Testes regulares às IST;
  • Tratamento adequado quando existe uma infeção;
  • Utilização de preservativo sempre que fizer sentido e for possível;
  • Vacinação recomendada, nomeadamente contra hepatites virais, HPV e mpox, de acordo com a situação individual;
  • PrEP ou PPE para o HIV, quando indicadas;
  • Acompanhamento médico regular.
As recomendações apontam para rastreios de IST e HIV e reavaliação da necessidade de doxyPEP a cada 3 a 6 meses, quando esta estratégia é utilizada.

➤ O que é que a doxyPEP não faz

É igualmente importante conhecer os limites da doxyPEP e saber que:

  • Não previne o HIV;
  • Não previne todas as IST;
  • Não substitui o preservativo;
  • Não elimina o risco de sífilis ou clamídia;
  • Não é um tratamento para uma IST já diagnosticada;
  • Não deve ser usada para substituir o rastreio;
  • Não deve ser partilhada com parceirxs;
  • Não deve ser tomada com maior frequência do que a indicada pelx profissional de saúde;
  • Não deve ser iniciada apenas porque outra pessoa teve bons resultados com ela.

Infográfico sobre contra o que é que a doxyPEP protege e contra o que não protege.

Uma pessoa pode ter uma infeção sem sintomas. Sentires-te bem depois de uma relação sexual não significa que não exista uma IST.

DoxyPEP e Trabalho Sexual

No caso de trabalhadorxs do sexo, a prevenção das IST deve ser pensada de acordo com a realidade concreta de cada pessoa.

O número de parceirxs, a frequência das relações sexuais, os diferentes tipos de práticas, a possibilidade de utilizar preservativo, as condições de trabalho e o acesso aos serviços de saúde podem influenciar o risco de exposição.

👉 Isto não significa que uma pessoa trabalhadora do sexo deva automaticamente tomar doxyPEP. Deve antes ter acesso a informação clara, a serviços de saúde sem julgamento e à possibilidade de discutir diferentes estratégias de prevenção.

A falta de informação e de orientação clínica pode levar algumas pessoas a procurar antibióticos através de redes informais ou a utilizá-los de forma diferente da recomendada. Mas esses são erros que se devem evitar.

Ter informação sobre doxyPEP não significa incentivar a automedicação. Pelo contrário: informação de qualidade permite tomar decisões mais seguras e procurar apoio médico quando necessário.

Então, vale a pena usar doxyPEP ou não?

👉 Para algumas pessoas com risco elevado de determinadas IST bacterianas, pode ser uma ferramenta de prevenção muito útil.

Mas não é adequada para toda a gente e ainda existem perguntas sem resposta, sobretudo relativamente à utilização prolongada, à resistência aos antibióticos, ao microbioma e à eficácia em populações que foram pouco estudadas.

A melhor abordagem é integrar a doxyPEP num plano mais amplo de saúde sexual, em vez de a encarar como uma “pílula mágica" para depois do sexo que elimina o risco de IST.

Em resumo, a doxyPEP pode reduzir significativamente o risco de sífilis e clamídia em algumas populações, mas deve ser utilizada com orientação profissional.

Se estás a considerar a doxyPEP:

  • Fala com umx profissional de saúde sobre o teu risco individual;
  • Não uses antibióticos que sobraram de tratamentos anteriores;
  • Não compres doxiciclina através de canais informais;
  • Segue exatamente a dose e o intervalo prescritos;
  • Mantém o rastreio regular de IST;
  • Lembra-te de que a doxyPEP não protege contra o HIV nem contra todas as IST;
  • Considera também o impacto da utilização repetida de antibióticos e o problema da resistência bacteriana.

👉 Prevenir IST também significa usar os antibióticos de forma responsável.