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Equipa de cinco técnicos do GAT, incluindo Júlio Esteves de óculos, a sorrir e a segurar Prémio AproXima-te com cartaz em cima a dizer "Trabalho Sexual é trabalho".

Falta “compreensão” sobre dimensão do Trabalho Sexual em Portugal

O GAT  Grupo de Ativistas em Tratamentos ganhou o segundo lugar no Prémio AproXima-te 2025, numa votação que teve a particularidade de ter sido feita por pessoas que fazem Trabalho Sexual (PTS).

A distinção acaba, assim, por ser uma validação do trabalho realizado por este projeto junto de uma população que sofre com os efeitos da “invisibilidade”, como repara Júlio Esteves, técnico comunitário de saúde no GAT que faz trabalho de par junto de trabalhadorxs do sexo.

Quem faz Trabalho Sexual continua a viver à margem da sociedade, carregando o peso do estigma e do preconceito internalizado por se sentirem “moralmente inferiores”, como repara Júlio Esteves nesta entrevista.

O técnico do GAT realça ainda que falta compreender a dimensão desta atividade em Portugal, notando que é importante caracterizá-la paracompreender as necessidades específicas” das PTS e “desenhar respostas” adequadas.

“O Plano AproXima tem sido muito útil”

Plano AproXima  Que significado teve para o GAT o Prémio AproXima-te?

Júlio Esteves  O dinheiro é importante, mas mais importante é a simbologia que é receber o Prémio e as implicações que tem para nós. É importante para o trabalho que desenvolvemos, até porque a população de trabalhadorxs do sexo não é facilmente identificável e é difícil ouvir a sua voz. São populações ocultas que não fazem reuniões, não fazem manifestações, nem greves... 

Plano AproXima Portanto, o prémio é uma espécie de validação do vosso trabalho.

Júlio Esteves Reafirma a necessidade de continuar neste caminho e de o reforçar, para dar resposta a todas as pessoas.

Plano AproXima  E como o prémio ajuda a reforçar ou expandir o apoio do GAT às PTS?

Júlio Esteves Somos uma estrutura muito grande, temos muitas necessidades e cada vez é mais difícil dar resposta às PTS. O dinheiro vai ser usado, sobretudo, para gastos com medicação, apoios alimentares e tratamentos de infeções sexualmente transmissíveis (IST).

Plano AproXima  Como avalia a parceria do GAT com o Plano AproXima? É importante para o vosso trabalho?

Júlio Esteves É importante para o nosso trabalho e para todas as associações e projetos que atuam na área do Trabalho Sexual. Temos de trabalhar em rede, que é a única forma de percebermos as necessidades e de encontrarmos respostas para essas necessidades. O Plano Próxima tem sido muito útil porque consegue também preencher algumas das nossas necessidades, por exemplo, com os guias, como o de Saúde Mental, os guias de bolso, com uma linguagem fácil de compreender a explicar uma série de fatores.

Plano AproXima  O GAT também costuma participar nos eventos do Plano AproXima. O que retira de positivo desses momentos?

Júlio Esteves Os eventos do Plano são como uma reunião de uma família que está dispersa  que somos as pessoas que trabalhamos na área  para partilhar experiências, fortalecer redes de trabalho, conhecer necessidades que nos podem parecer não tão óbvias... São momentos importantes para reforçar o trabalho entre os diferentes grupos, associações e projetos.

"O Plano AproXima tem sido muito útil porque consegue preencher algumas das nossas necessidades, por exemplo, com os guias de bolso, com uma linguagem fácil de compreender a explicar uma série de fatores."

Plano AproXima  O GAT tem outras parcerias essenciais? O financiamento é público ou também privado?

Júlio Esteves É um mix. Para o nosso trabalho, todas as parcerias são essenciais. Sentimos um decréscimo do apoio, tanto no setor privado como no público. Como o Trabalho Sexual não é tão bem visto, não é considerado, é sempre posto em último para dar resposta a outras questões. Xs trabalhadorxs do sexo não são apoiadxs o suficiente e terminam abandonadxs e menos toleradxs do que já eram.

Falta compreender dimensão do Trabalho Sexual em Portugal

Plano AproXima  Essa perceção negativa do Trabalho Sexual é o maior obstáculo estrutural que encontram para a realização do vosso trabalho?

Júlio Esteves O apoio público e a compreensão do problema. Não podemos tratar um fenómeno sem ter a compreensão do seu tamanho, porque é de acordo com isso que se podem compreender as necessidades específicas e desenhar respostas.

Plano AproXima  Então, seria importante caracterizar esta população, estudá-la?

Júlio Esteves Exatamente. Eu encontro muitxs jovens que utilizam o corpo para conseguir que lhes comprem o iPod, o iPad, que querem viajar... Isso é Trabalho Sexual, mas essas pessoas não se veem como trabalhadoras do sexo, embora também o comercializem. E têm as mesmas necessidades das PTS.

Plano AproXima  Isso acrescenta uma camada extra a todo um fenómeno que é muito desconfortável para a sociedade  e que, por isso mesmo, se prefere não ver. Essa é mais uma complicação para o trabalho do GAT?

Júlio Esteves Complica, complica muitíssimo! Por exemplo, eu trabalho sozinho e sem levar identificação, porque, se andasse com um uniforme, estaria a expor as pessoas. Temos de andar “escondidos”!

Plano AproXima  Também deve complicar o facto de as pessoas que fazem Trabalho Sexual serem muito diversas, com diferentes percursos e origens.

Júlio Esteves No Trabalho Sexual, temos diferentes gerações, diferentes culturas, e nem toda a gente é fã ou tem literacia para o online. Eu acompanho pessoas nacionais, não nacionais, pessoas que têm licenciaturas, doutoramentos, pessoas que vivem na rua, que vêm de diferentes origens...

Plano AproXima  Que gostaria que o público em geral entendesse sobre o Trabalho Sexual que ainda é frequentemente mal compreendido?

Júlio Esteves  Reduzem-se as pessoas que fazem Trabalho Sexual a prostituídas, sem se entender que são pessoas e que, como tal, têm filhos, maridos, mulheres, família, hobbies... E não percebem que, às vezes, não têm dinheiro para pagar a alimentação.

“A moral está a imperar de uma maneira amoral”

Plano AproXima  Que mudanças nas políticas públicas é que poderiam ser positivas para melhorar a situação das PTS?

Júlio Esteves Temos de trabalhar a invisibilidade, a invisibilidade perante os decisores políticos e a invisibilidade das pessoas que se querem esconder porque se sentem moralmente inferiores por fazerem Trabalho Sexual.  

Plano AproXima  E como se pode fazer isso? Está a falar de regulamentação? De sensibilização?

Júlio Esteves É a necessidade de alguma melhoria a nível legal, de condições de trabalho, de desmistificação do Trabalho Sexual com xs terapeutas sexuais e com uma série de questões que se consideram importantes.

Plano AproXima  Portanto, também se trata de mudar as mentalidades.

Júlio Esteves No fundo, trabalhar a sociedade e a formação das pessoas para essa realidade  de nada serve mudar a lei e continuarmos com os pruridos morais. Tem de ser um trabalho em conjunto porque, às vezes, estas mudanças, quando obrigadas, podem levar a posteriori a um maior estigma.

Plano AproXima  Referiu mudanças legais… Acha que Portugal pode implementar, a médio-longo prazo, um modelo de descriminalização semelhante ao belga? E seria isso positivo para quem faz Trabalho Sexual?

Júlio Esteves  Seria positivo esse marco legal. Agora, não vejo disponibilidade na atualidade, nem nos próximos tempos, pelo populismo e por uma série de coisas que estão a acontecer a nível mundial. É, realmente, a moral que está a imperar de uma maneira amoral.

Plano AproXima  Continuará, então, este limbo em que o Trabalho Sexual não é legal, mas também não é ilegal...

Júlio Esteves  Neste momento, não é um tema. Mas já vejo muitas pessoas que reconhecem que seria importante que deixasse de ser uma coisa que nem é sim nem é não, para as suas vidas, para as vidas dos seus filhos e para a sociedade. Tendo também em conta que isto tem implicações na saúde pública.

"Pessoas que fazem Trabalho Sexual têm filhos, maridos, mulheres, família, hobbies... E, às vezes, não têm dinheiro para pagar a alimentação."

“80% põe preservativo de maneira que não funciona”

Plano AproXima  Falando de saúde pública, existem, hoje, menos campanhas de prevenção de IST e para o uso do preservativo do que noutros tempos. Como explica este aparente desinvestimento?

Júlio Esteves  Não consigo compreender... Não há nenhuma lógica em desinvestir em áreas que deviam ser fundamentais. Acham que toda a gente, mesmo os que ainda não nasceram, já têm a informação que foi difundida! Mas há sempre necessidade de ter essa informação renovada, até porque, quando vamos conversar sobre a utilização de preservativo e a sua colocação, pelo menos, 80% das pessoas põe-no de uma maneira que não vai funcionar e vai ser incómodo.

Plano AproXima  A maior eficácia de certos medicamentos, nomeadamente os destinados ao HIV, retirou importância à prevenção?

Júlio Esteves  As pessoas abandonaram as práticas de prevenção através de barreiras e passaram a usar as medicamentosas.

Plano AproXima  Em vez de prevenir, tratar o mal!

Júlio Esteves  E usar a PrEP [Profilaxia Pré-Exposição] para evitar o VIH. Mas, realmente, não há um investimento suficiente. Porque, a partir do momento em que se dá acesso à PrEP, também se deveria dar mais fácil acesso ao diagnóstico de IST  essa pessoa vai estar mais vulnerável às outras infeções.

Plano AproXima  Mas a PrEP é facultada sem qualquer outro tipo de seguimento posterior?

Júlio Esteves  Nas consultas de PrEP que conheço, as pessoas recebem a medicação e, se nos momentos em que fazem exames têm alguma coisa, são tratadas. Mas, depois, é “vai à procura”, “resolve tu”... E as IST são moralmente muito complicadas.

"As IST são moralmente muito complicadas. Acompanhei um rapaz que tinha sido avisado de que tinha sífilis e ele não quis aceitar tratamento. Tinha medo da estigmatização. Vai ficar marcado para o resto da vida e podia ter sido tratado com uma injeção."

Rapaz desenvolveu neuro-sífilis porque não se tratou

Plano AproXima  Há algum caso problemático que tenha acompanhado que possa relatar?

Júlio Esteves  Nas urgências do Hospital de S. José, acompanhei um rapaz que, há uns anos, tinha sido avisado de que, provavelmente, tinha sífilis e ele fechou-se em copas. Não quis aceitar tratamento porque tinha medo da estigmatização, e chegou a neuro-sífilis [complicação grave da sífilis que é causada quando a bactéria invade o sistema nervoso central]. Portanto, vai ficar marcado para o resto da vida e podia ter sido tratado com uma injeção.

Plano AproXima  Ainda voltando à PrEP, o acesso a esta medicação preventiva contra o HIV nem sempre é fácil.

Júlio Esteves  A lista de espera para PrEP nos hospitais é de mais de um ano! Já fizemos um estudo [que concluiu que], entre o momento em que a pessoa solicita PrEP e o momento em que chega à consulta, passa a precisar de tratamento porque desenvolveu a infeção!

Plano AproXima  Portanto, há uma relação direta entre as listas de espera e o aumento do número de infeções?

Júlio Esteves  Exatamente. As pessoas que estão à espera de consulta, por não terem acesso à PrEP, passaram a ser portadoras da infeção. Na área da prevenção e da saúde, é fundamental a continuidade.

Há uma relação direta entre as listas de espera para acesso à PrEP nos hospitais e o aumento do número de infeções por HIV.

GAT disponibiliza apoio médico, social e psiquiátrico

Plano AproXima  Que apoios específicos é que o GAT disponibiliza a PTS?

Júlio Esteves  O GAT tem vários serviços, mas o GAT Intendente é o que está mais dirigido para a população que faz Trabalho Sexual. Mas o Checkpoint LX, o IN-Mouraria e o GAT Afrik também têm PTS, porque esta atividade é transversal a todas as populações.

Plano AproXima  E que serviços as PTS podem encontrar no GAT?

Júlio Esteves  No GAT Intendente, as respostas que temos são a distribuição de materiais de prevenção, que é uma das grandes procuras por parte desta população. Temos os rastreios rápidos para as IST e temos uma consulta específica de enfermagem para infeções bacteriológicas.

Plano AproXima  E também têm consultas médicas?

Júlio Esteves  Temos consultas médicas com tratamento empírico para posterior confirmação das colheitas feitas de IST, porque as PTS não podem parar de trabalhar  não têm Segurança Social, não têm baixa, e têm as contas a cair todos os dias.

Plano AproXima  E quanto a apoios sociais?

Júlio Esteves  Temos as assistentes sociais que tentam ajudar em diferentes situações, não só os estrangeiros que estão irregulares. Temos portuguesxs, nascidos em Portugal e que viveram sempre em Portugal, que não sabem navegar no sistema de saúde ou nas finanças e que depois têm problemas e que são apoiadxs pelas assistentes sociais.

Plano AproXima  Há apoios na área da psicologia?

Júlio Esteves  Temos uma resposta de psiquiatria que é mais dirigida à problemática do consumo de substâncias e onde temos, sobretudo, homens cisgénero que fazem Trabalho Sexual. As populações não binárias também estão muito com essa necessidade de apoio psiquiátrico.

GAT Espaço Intendente
* Rua Antero de Quental, 8-A Lisboa
* Horário de Atendimento: Dias úteis das 13h às 20h (marcação obrigatória)
* Tel.: 919613092
* Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ter o JavaScript autorizado para o visualizar.
= Formulário de Interesse para Consulta de PrEP

Plano AproXima  O GAT consegue dar resposta a todas as pessoas que precisam?

Júlio Esteves — Como par de PTS e de pessoas que são migrantes, sinto que há necessidades que são muito difíceis de preencher. Estou a lembrar-me, por exemplo, da parte de psicologia — são necessárixs psicólogxs com uma sensibilidade para as necessidades destas pessoas. Por isso é que também mencionei o Guia de Saúde Mental do Plano AproXima, porque, além de ser uma problemática mundial, as PTS estão, muitas vezes, fechadas em si mesmas — é quase um gueto pela necessidade de estarem sempre prontas para receber um cliente —, e acabam por não ter capacidade para procurar uma resposta a nível psicológico, que é muito importante.

Plano AproXima — O GAT também faz trabalho de proximidade junto das PTS nos seus locais de trabalho?

Júlio Esteves — Fora de portas, nos espaços de Trabalho Sexual, tenta-se, através de conversas ao mesmo nível de pessoas pares, falar de prevenção e de estratégias de redução de riscos. Esse trabalho de outreach é acompanhado também pela distribuição de material de prevenção e pela possibilidade de fazer testes rápidos.

Plano AproXima — Quais são as principais dificuldades que enfrentam nesse trabalho de proximidade?

Júlio Esteves — Para o futuro, está-se a desenhar a possibilidade de ampliar a oferta dos serviços dos exames bacteriológicos aos apartamentos, pela perceção da dificuldade que estas pessoas têm de sair dos seus espaços e pelo tempo que perdem no nosso espaço, à espera de serem atendidas e dos resultados.

Plano AproXima — E como é que essa ida aos locais é organizada? São as pessoas que vos ligam a marcar?

Júlio Esteves — São as pessoas que nos procuram através do “boca a boca” que difunde o nosso contacto.

Entrevista GAT 2

Júlio Esteves, técnico comunitário de saúde no GAT, com o troféu do Prémio AproXimaTe 2025.  

“Não temos capacidade para dar resposta a tudo”

Plano AproXima — Quais são as necessidades mais frequentes entre as pessoas que acompanham?

Júlio Esteves — Foi com a COVID que começamos a ter uma resposta de psiquiatria, é necessária e não temos capacidade para dar resposta a tudo. Também reconhecemos que não podemos fazer tudo, e aí temos de dar importância às parcerias que são fundamentais.

Plano AproXima — Quer dar exemplos de parcerias importantes neste âmbito?

Júlio Esteves — Por exemplo, o projeto das Taipas, que tem uma lista prioritária para a população que nós servimos e que consegue dar resposta, felizmente, com êxito. E estamos a falar desde jovens a pessoas da terceira idade que ainda fazem Trabalho Sexual.

Plano AproXima — Essa instituição está relacionada com o consumo de substâncias?

Júlio Esteves — Não é só substâncias. É o consumo de pornografia, de jogos online, de compras... Se isso te começa a complicar...

Plano AproXima — Mas como funciona esse apoio? São as pessoas que vos contactam a pedir ajuda?

Júlio Esteves — Normalmente, são as pessoas que nos procuram. Mas isto começou ao contrário: era no trabalho de outreach que tínhamos a perceção das dificuldades das pessoas e isso levou a desenvolver, há mais de 10 anos, uma parceria muito gratificante com as Taipas.

Plano AproXima — E quais são as prioridades do GAT para os próximos anos?

Júlio Esteves — Ante todas estas crises que estão a aparecer — não é só a crise económica, é a crise política —, a complicar a vida das pessoas, é conseguir manter e solidificar o nosso trabalho. Conseguir chegar às populações, mantendo a qualidade e sensibilidade para as necessidades das pessoas.

“O nosso trabalho não tem fronteiras — é de acordo com a procura”

Plano AproXima — Como o GAT garante que o apoio é prestado de forma não-julgadora? Os técnicos têm formação específica?

Júlio Esteves — Somos pares e isso já baixa um bocadinho o julgamento. A formação permite-nos avaliar tecnicamente as situações. Se uma pessoa está a cheirar cocaína, eu não vou dizer, “Olha, não cheires”. Vou perguntar se a pessoa tem a certeza que é cocaína, “sabes se não tem qualquer coisa misturada?”, ou dizer: “Não partilhes o caninho para cheirar”. Portanto, focar na redução de riscos.

Plano AproXima — Para lá dessa formação técnica, que características são fundamentais para se ser par nesta área?

Júlio Esteves — Comunicação, compreensão. E o trabalho de outreach tem de ser feito por pessoas que não são alheias à problemática, que têm mais informação e que têm a capacidade de encaminhar para o sítio certo. Porque, infelizmente, o fechamento [da população de PTS] leva, muitas vezes, à dificuldade de estar na sociedade e de aceder à saúde. Umx técnicx pode dar a resposta mais funcional para a pessoa, de acordo com a sua situação.

Plano AproXima — O GAT está localizado em Lisboa, mas atua numa área geográfica específica? Há associações que estão limitadas a um concelho ou a um distrito...

Júlio Esteves — Nós não temos limites geográficos. Com os anos, tem havido um aumento de projetos locais, mas eu vou a Santarém, ao Porto, à Covilhã, a Braga, ao Algarve... O nosso trabalho não tem fronteiras — é de acordo com a procura.

Plano AproXima — Portanto, acodem a casos de todo o país?

Júlio Esteves — Temos procura por todo o lado! Muitas vezes, usamos o mapeamento do Plano AproXima e tentamos encaminhar as pessoas para as associações locais. Temos, realmente, mais impacto na área da Grande Lisboa, com um trabalho quase único na Península de Setúbal. Mas, em algumas situações, damos resposta a nível nacional.

"Não temos limites geográficos. Eu vou a Santarém, ao Porto, à Covilhã, a Braga, ao Algarve… O nosso trabalho não tem fronteiras. Temos procura por todo o lado!"

Preconceito dxs próprixs trabalhadorxs do sexo é um problema

Plano AproXima — Que desafios encontram xs técnicxs do GAT no contacto com as PTS?

Júlio Esteves — As maiores dificuldades são os preconceitos que as pessoas têm em relação ao Trabalho Sexual, que as limitam para entenderem o que está ali a acontecer.

Plano AproXima — Está a falar do preconceito entre as próprias PTS?

Júlio Esteves — Sim. Estou a lembrar-me de um caso específico... Eu faço monitorização de um site de Trabalho Sexual para homens cis, mas não só, e encontro pessoas que me dizem: “Mas tu és pervertido!”, “Tu vais ver a página web todos os dias e vais contactar as pessoas!”. Não entendem isso como uma oferta, mas pensam que há alguma coisa de taradice associada.

Plano AproXima — É o preconceito internalizado.

Júlio Esteves — É muito complicado! A mim, é a única coisa que me deita abaixo. Infelizmente, há pessoas que têm de vencer também as suas próprias barreiras.

Plano AproXima — E como é que o GAT tenta lidar com esse peso do estigma?

Júlio Esteves — No GAT Intendente, sentíamos que as pessoas chegavam muito tímidas a falar do Trabalho Sexual e davam muitas voltas para assumirem que o faziam. Então, pusemos na entrada uma faixa enorme a dizer: “Trabalho Sexual é trabalho”, e as coisas mudaram.  

Plano AproXima — Mudaram em que sentido?

Júlio Esteves — As pessoas já chegam e dizem: “Sim, sim, eu faço Trabalho Sexual”. O que viram ali fê-las perceber que podem falar, porque as pessoas apoiam-nas.