
Dia da Visibilidade Trans: celebrar a representatividade trans
O Dia Internacional da Visibilidade Transgénero, assinalado a 31 de março, é um momento de reconhecimento e de afirmação da existência de pessoas trans e não-binárias. Celebrar esta data é, também, a luta por uma sociedade mais justa e inclusiva, principalmente quando a invisibilidade significa (muitas vezes) a negação de direitos básicos.
A conquista de direitos fundamentais é uma batalha contínua e que não pode baixar os braços. Num momento em que o mundo tem necessidade, cada vez mais, de empatia, a visibilidade mostra-se primordial.
Reconhecer as conquistas, histórias e a resiliência das pessoas transgénero é essencial para construirmos mais pontes e derrubarmos os muros do preconceito.
O que é o Dia Internacional da Visibilidade Transgénero?
O Dia Internacional da Visibilidade Transgénero foi instituído em 2009, pela ativista Rachel Crandall, como uma reação à falta de reconhecimento das pessoas trans dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+.
Até 2009, o único dia de destaque para esta população era o Dia Internacional da Memória Trans (20 de novembro), o qual recorda as vítimas de violência transfóbica. A ativista quis, antes, criar um dia em que se celebrasse a vida das pessoas transgénero, que resistem e que contribuem para a sociedade.
Em 2021, o então presidente dos Estados Unidos da América, Joe Biden, proclamou oficialmente o dia 31 de março como o Dia da Visibilidade Transgénero.
Em Portugal, a associação ILGA Portugal celebra todo o mês de março com um programa dedicado à visibilidade trans, com sessões de cinema, exposições, grupos de apoio e workshops.
É importante dizer que a visibilidade não é só um gesto simbólico, mas um ato que salva vidas. Ao se verem representadas na política, nos meios de comunicação, no desporto e na cultura, as pessoas transgénero sentem que têm espaço na sociedade e que pertencem a este mundo.
A importância da diversidade de género na nossa sociedade
A diversidade de género é um pilar para o desenvolvimento humano — nunca uma ameaça. Ao acolhermos e abraçarmos as várias formas de ser e de sentir, enriquecemos as nossas relações, a nossa cultura, e até a nossa economia. A sociedade só tem a ganhar quando todas as pessoas têm a oportunidade de viver de forma autêntica.
A inclusão de pessoas trans nas nossas comunidades aumenta:
- Inovação e criatividade — a inclusão de perspetivas de vida diferentes gera soluções inovadoras e criativas;
- Empatia e coesão social — o convívio com a diferença ensina-nos a respeitar todas as pessoas e a construir ambientes mais seguros;
- Saúde mental coletiva — ter ambientes que validam a identidade de cada pessoa reduz casos de ansiedade e depressão;
- Justiça e igualdade — proteger e garantir os direitos de todas as pessoas, sem exceção, é o único caminho para a democracia, para a igualdade e para a justiça social.
A diversidade de género existe em todas as culturas, e desde sempre. O reconhecimento da diversidade não pode ser visto como apenas uma tendência da modernidade, mas como o resultado de séculos de luta pelo direito de existir na sua plenitude.
Em Portugal, a Lei n.º 38/2018 foi um marco histórico, garantindo o direito à autodeterminação da identidade de género sem necessidade de diagnóstico médico ou cirurgia.
No entanto, em março de 2026, o Parlamento aprovou propostas que reintroduzem a obrigatoriedade de validação médica para a mudança de género, num retrocesso que especialistas e associações de saúde classificaram como grave.
Assim, é importante que nunca se baixem os braços, pois nenhum direito está garantido. A tua voz e o teu apoio são, hoje, mais importantes do que nunca.
Figuras inspiradoras: da política à Miss Portugal transgénero
Ter pessoas transgénero em espaços de destaque na sociedade, além de trazer representatividade, inspira e dá força às novas gerações. Em Portugal, temos exemplos de grande coragem e sucesso que merecem ser celebrados neste dia da visibilidade trans.
Júlia Mendes Pereira: a primeira voz trans na política portuguesa
Júlia Mendes Pereira é política e ativista trans, com um percurso marcado por várias conquistas, mas também pela luta contínua pelo reconhecimento da diversidade de género. Lutou pela aprovação da lei de identidade de género, de 2018, e é presença constante no debate público.
Em 2011, foi a primeira pessoa transgénero a conseguir os documentos corrigidos na conservatória do registo civil de Lisboa. No mesmo ano, torna-se a primeira pessoa trans a integrar a direção da ILGA Portugal.
Em 2014, volta a fazer história ao ser eleita para a Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, tornando-se a primeira mulher trans dirigente de um partido político em Portugal.
O seu percurso não parou por aí e, em 2025, tornou-se a primeira pessoa trans a encabeçar uma lista às eleições autárquicas (concorreu à Câmara Municipal do Entroncamento).
Marina Machete: a primeira Miss Portugal transgénero
Em outubro de 2023, Marina Machete quebrou todas as barreiras e estereótipos ao tornar-se a primeira Miss Portugal transgénero e ao representar o nosso país no Miss Universo, tendo alcançado o top 20 mundial.
Foi a primeira mulher trans a competir ao título e a sua vitória trouxe grande visibilidade à comunidade transgénero, mostrando que a beleza não está nos padrões estéticos, mas na autenticidade.
A visibilidade trans como um ato de resistência
Numa sociedade cisnormativas, assumir uma identidade transgénero é um verdadeiro desafio e exige uma coragem gigantesca. Cada pessoa trans que mostra o seu rosto, que ocupa o seu espaço no mercado de trabalho/escola, que exige ser tratada pelo seu nome, está, antes de qualquer outra coisa, a ter um ato de resistência.
Apoiar a comunidade transgénero é fundamental e, por isso, deves adotar algumas atitudes no teu dia a dia que, apesar de simples, podem ser transformadoras:
- Usa o nome e os pronomes corretos de cada pessoa;
- Ouve as experiências e vivências das pessoas transgénero, sem julgamentos e validando sempre os seus sentimentos;
- Educa-te sobre questões que envolvem a comunidade, como a linguagem inclusiva e a identidade de género;
- Participa de eventos da comunidade;
- Posiciona-te contra atitudes e comentários transfóbicos (incluindo piadas);
- Apoia organizações que defendem os direitos das pessoas transgénero.
Vivermos num mundo onde a visibilidade é a celebração da vida depende de todxs nós. Cada atitude contra a transfobia (e outros preconceitos) tem um poder enorme.
O teu apoio é fundamental, cada palavra de reconhecimento é ouro para minorias que veem os seus direitos serem atacados diariamente. Continua, connosco, a luta por uma sociedade mais justa e inclusiva — porque o Dia Internacional da Visibilidade Transgénero não é apenas um dia para celebrar, é uma luta que temos de travar todos os dias.