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pessoas discutem à mesa para criar protocolo de segurança entre pares

Protocolo de segurança entre pares: como criar e modelo

| Sara Paiva | Segurança

Um protocolo de segurança entre pares é um acordo simples para que pessoas trabalhadoras do sexo se possam apoiar mutuamente antes, durante e depois de um atendimento.

Este apoio pode incluir uma pessoa de confiança a quem possam ligar, regras de contacto, sinais de alerta, um plano para quando alguém deixa de responder e um registo seguro de incidentes.

Não se trata de uma forma de controlo, mas de aumentar as opções de apoio, respeitar os limites de cada pessoa e tornar mais fácil pedir ajuda quando algo não corre bem.

O que é um protocolo de segurança entre pares

Um protocolo de segurança entre pares é uma ferramenta construída pelas próprias pessoas que o vão usar ou por pessoas com conhecimentos próximos da realidade do Trabalho Sexual.

Pode ser usado por duas pessoas, por uma pequena rede de apoio informal ou por um coletivo, e o seu formato deve adaptar-se ao contexto: trabalho de rua, em apartamento, online, deslocações, ou outras formas de Trabalho Sexual.

O protocolo serve para reduzir riscos previsíveis e para que não tenhas de enfrentar uma situação difícil sem apoio, mas não elimina totalmente o risco de violência, exploração, roubo, exposição de dados.

Ter um protocolo de segurança entre pares não é uma garantia de segurança, nem substitui serviços de emergência.

Como montar um protocolo de segurança entre pares?

Antes de mais nada, deves reunir todas as pessoas que vão usar o protocolo. Cria um espaço de diálogo aberto, presencial ou à distância, onde todas as pessoas se sintam à vontade para participar, propor alterações, dizer «não» ou sair a qualquer momento.

Algumas perguntas que podem ser úteis nessa conversa:

  • Que situações queremos prevenir ou enfrentar melhor?
  • Que tipos de atendimento, locais e horários vamos incluir?
  • Que informação é aceitável partilhar? Qual nunca deve ser partilhada?
  • Quem pode ser uma pessoa de confiança? Deve ser outra pessoa trabalhadora do sexo?
  • Que acontece se alguém não responder?
  • Que apoio existe/poderá ser preciso depois de um incidente?

É importante dizer que as pessoas podem ter diferentes níveis de risco e, como tal, um protocolo deve ajustar-se, de modo que não aumente o risco das envolvidas.

1 — Definir os princípios do acordo

Depois de teres uma conversa aberta com as pessoas que usarão o protocolo, deves escrever alguns princípios curtos. Por exemplo:

  • Cada pessoa decide que clientes aceita, que limites estabelece e que apoio quer receber;
  • Não se partilham nomes, fotografias, moradas ou conversas sem consentimento explícito, salvo numa situação de risco grave e imediato;
  • Qualquer pessoa pode alterar ou suspender o acordo;
  • O pedido de ajuda não dá lugar a críticas sobre escolhas, roupa, consumo de substâncias ou tipo de trabalho;
  • Recolhe-se apenas a informação necessária para prestar apoio.

2 — Criar um plano com a pessoa de apoio

A pessoa de apoio é aquela que sabe exatamente o que fazer caso o contacto combinado falhe. Definam:

  • Nome ou código da pessoa de apoio;
  • Forma principal de contacto e alternativa;
  • Hora do primeiro contacto;
  • Hora do contacto de saída;
  • Intervalo de tolerância;
  • Mensagem neutra para sinalizar desconforto sem alertar quem está presente;
  • Palavra ou mensagem de emergência;
  • Passos a dar se não houver resposta;
  • Circunstâncias em que não se deve contactar familiares, polícia ou outras pessoas;
  • Informação que pode ser partilhada numa emergência.

3 — Definir sinais de alerta

As pessoas que seguem o protocolo devem criar uma lista de sinais de alerta, como:

  • A pessoa tenta alterar o local do atendimento sem uma explicação;
  • Aparecem mais pessoas do que o combinado;
  • Há intoxicação, agressividade ou pressão para ultrapassar limites;
  • X cliente tenta tirar o telemóvel, documentos ou chaves;
  • X cliente tenta filmar, fotografar ou partilhar conteúdo sem consentimento;
  • Há ameaças, perseguição, roubo ou impedimento de sair;
  • A pessoa trabalhadora do sexo deixa de conseguir comunicar livremente.

Para cada sinal, indiquem uma resposta/palavra-chave. Esta deve ser definida pela pessoa que vai trabalhar, tendo em conta o seu contexto e a sua avaliação do risco.

4 — Criar uma rotina antes do atendimento

Deves manter uma rotina rápida antes do atendimento para que a uses mesmo num dia muito cansativo. A rotina pode incluir, por exemplo:

  • Confirmar a hora e o tipo de atendimento;
  • Enviar a zona aproximada ou um ponto de encontro;
  • Guardar a informação da reserva num canal seguro;
  • Confirmar que o telemóvel tem bateria e dados móveis;
  • Levar carregador e dinheiro;
  • Definir o limite de tempo do atendimento;
  • Verificar a existência de saída acessível.

5 — Proteger os dados do grupo

Um protocolo de segurança pode aumentar o risco se tiver muita informação guardada ou se ficar acessível para as pessoas erradas. Portanto, antes de se escolher uma ferramenta, pensem no que aconteceria se perdessem o telemóvel, se alguém visse o histórico de mensagens ou se alguém invadisse a vossa conta.

Boas práticas a seguir:

  • Usar códigos ou nomes fictícios escolhidos pelas próprias pessoas;
  • Evitar guardar moradas completas;
  • Não partilhar fotografias ou documentos sem necessidade;
  • Ativar bloqueio de ecrã e autenticação de dois fatores;
  • Rever quem tem acesso ao grupo, ficheiros e localizações;
  • Apagar dados antigos;
  • Confirmar se a app usada partilha localização ou contactos automaticamente.

6 — Registar incidentes

Ter um registo de incidentes ajuda a reconhecer padrões e alertar outras pessoas. Definam regras claras para esse registo, como:

  • Que factos podem ser registados;
  • Quem verifica a informação;
  • Quem pode consultar o registo;
  • Como uma pessoa pode corrigir um erro;
  • Quanto tempo os dados ficam guardados.

Usem canais seguros e privados para este registo. O intuito é reduzir riscos, não expor pessoas.

7 — Ensaiar e rever

Façam um ensaio com um cenário fictício e verifiquem se sabem:

  • Qual o primeiro passo;
  • Quando devem insistir;
  • Quando devem parar de contactar;
  • Quem pode acionar ajuda;
  • Como registar o que aconteceu;
  • Como apoiar sem pressionar.

Façam uma revisão ao protocolo de segurança a cada três meses e depois de qualquer incidente relevante. É fundamental que o protocolo seja útil e prático, até porque de nada adianta ter um documento muito bem delineado se depois não ajuda quem precisa.

Modelo editável para imprimir

Se estás a criar um protocolo de segurança, experimenta o nosso modelo editável para preencheres.

Descarrega o modelo hoje

Ter um protocolo de segurança entre pares é uma forma de reduzires os riscos durante os atendimentos. Lembramos que este não é uma garantia de inexistência de incidentes, mas ajudar-te-á a saber o que fazer e como agir nos momentos mais delicados, assim como a teres um plano com pessoas da comunidade em situações de perigo.