
Redes de apoio informal no Trabalho Sexual: partilhar informação salva vidas
Ter uma rede de apoio informal é essencial para quem faz Trabalho Sexual, uma atividade onde a segurança não é apenas uma questão individual: é coletiva.
Quando as pessoas trabalhadoras do sexo partilham informação sobre clientes abusivxs ou perigosxs, incidentes de violência ou situações de risco, estão a construir uma rede de apoio informal que protege vidas e fortalece a comunidade.
Redes de apoio informal e o poder da partilha de informação entre pares
A história mostra que as redes de proteção entre pessoas trabalhadoras do sexo existem há décadas.
Nos anos de 1980, em Victoria, na Austrália, surgiu o primeiro esquema formalizado de "ugly mugs" (literalmente, "caras feias" na tradução de inglês para português), um sistema de alerta que permitia a trabalhadorxs do sexo partilhar informações sobre indivíduos perigosos.
Este modelo espalhou-se internacionalmente e, em 2012, o Reino Unido lançou o National Ugly Mugs, o primeiro serviço do país para partilha de informação entre pessoas trabalhadoras do sexo.
➤ Como funciona o National Ugly Mugs
O National Ugly Mugs (NUM) funciona como um sistema de reporte de terceiros: as pessoas trabalhadoras do sexo podem reportar incidentes de violência ou comportamento preocupante de forma anónima.
Depois disso, o sistema emite alertas para toda a rede de apoio informal via smartphone. Simultaneamente, partilha a informação com as forças policiais, com o objetivo de reduzir as incidências relacionadas com agressorxs perigosxs.
O National Ugly Mugs oferece várias ferramentas práticas à comunidade, tais como:
- Report something (Reportar algo): Formulário online para reportar incidentes de violência ou comportamento preocupante;
- Alert tool (Ferramenta de alerta): Sistema de subscrição de alertas sobre pessoas a evitar, enviado por notificação ou SMS;
- Checker tool (Ferramenta de verificação): Base de dados pesquisável para verificar detalhes de clientes antes de aceitar serviços;
- Remove online contente (Remover conteúdo online): Apoio para remover conteúdo online não autorizado (por exemplo: imagens partilhadas sem consentimento);
- Caseworkers (Profissionais de acompanhamento de casos): Equipa de profissionais (ISVAs - Independent Sexual Violence Advisors, ou Consultores Independentes em Violência Sexual) que apoia vítimas de violência com aconselhamento, saúde mental e orientação jurídica.
Identificar e comunicar situações de risco
Uma rede de apoio informal eficaz começa pela capacidade de identificar sinais de alerta, o que ajuda a evitar situações de risco. Alguns indicadores comuns de clientes ou situações de risco incluem:
- Comportamento agressivo ou ameaçador;
- Recusa em fornecer identificação ou dados de contacto;
- Pressão para serviços não acordados ou sem proteção;
- Histórico de violência reportado por outrxs trabalhadorxs;
- Tentativas de isolar x trabalhadorx do seu ambiente habitual;
- Consumo excessivo de álcool ou drogas durante o encontro.
➤ A importância de registar informação após um incidente
Depois de um incidente, é fundamental registar informação relevante sobre o que se passou para:
- Proteção futura: Detalhes como descrição física, veículo, números de telefone, nomes falsos usados, locais de encontro e padrões de comportamento ajudam outrxs trabalhadorxs a identificar x mesmx agressorx;
- Apoio jurídico: Mesmo que não decidas denunciar às autoridades imediatamente, ter um registo detalhado pode ser útil se mudares de ideias mais tarde ou se outras vítimas decidirem avançar;
- Padrões de segurança: A acumulação de relatos permite identificar padrões de agressorxs que têm comportamentos violentos repetitivos, tornando os alertas mais precisos e eficazes.
O que deves registar após um incidente:
- Data, hora e local do incidente;
- Descrição física detalhada dx agressorx;
- Qualquer informação de contacto fornecida;
- Veículo (marca, modelo, cor, matrícula);
- Modus operandi (como abordou, que serviços pediu, que comportamentos teve);
- Testemunhas ou outras informações relevantes;
- Impacto físico e/ou emocional que sofreste.
O papel das comunidades e organizações na disseminação de alertas
As redes de apoio formal e informal complementam-se na proteção das pessoas trabalhadoras do sexo.
Enquanto as redes informais surgem organicamente entre pares, organizações como o National Ugly Mugs estruturam e amplificam estes esforços, oferecendo:
- Plataformas seguras e anónimas para reporte;
- Sistemas de alerta em tempo real;
- Apoio de profissionais especializados;
- Ligação com serviços de saúde mental e apoio jurídico;
- Advocacia para mudar políticas e reduzir o estigma.
Como poderia ser uma boa rede de apoio informal em Portugal
O modelo do National Ugly Mugs britânico tem inspirado iniciativas semelhantes em todo o mundo, e continua a expandir os seus serviços, incluindo apoio alimentar e vouchers para produtos de higiene.
Outras iniciativas internacionais incluem esquemas locais de "ugly mugs" em várias cidades, muitas vezes geridos por organizações de apoio a trabalhadorxs do sexo em parceria com serviços de saúde e justiça.
Em Portugal, falta ainda estabelecer uma rede de apoio informal semelhante. Mas se passos fossem dados nesse sentido, deveria incorporar as seguintes características:
- Ter uma plataforma digital segura (app ou website) com opção de registo anónimo;
- Manter canais de comunicação criptografados (por exemplo: Telegram, Signal) para partilha rápida e confidencial de informação;
- Ter uma linha telefónica de apoio disponível em horários alargados.

Em termos de ferramentas práticas, seria ideal que tivesse:
- Sistema de alerta em tempo real por SMS ou notificação push;
- Base de dados pesquisável de alertas anteriores (com proteções de privacidade);
- Formulários simples e rápidos para reporte de incidentes.
➤ Apoio integrado e colaboração institucional
Para que tudo funcionasse da forma ideal, esta rede de apoio informal nacional teria de manter parcerias com organizações de saúde, de apoio jurídico e com serviços sociais.
Seria igualmente fundamental ter acesso a mediadores de pares treinados em violência no Trabalho Sexual, e a recursos de saúde mental específicos para a comunidade.
A capacitação da comunidade de pessoas trabalhadoras do sexo também seria essencial, com:
- Formação em segurança, direitos e autodefesa;
- Encontros presenciais ou virtuais regulares para fortalecer laços;
- Materiais informativos em português e outras línguas faladas pela comunidade.
A ligação com forças policiais sensíveis à realidade do Trabalho Sexual seria outro vetor obrigatório.
👉 Parcerias com projetos como o Plano Aproxima, para apoio técnico e institucional, também seriam altamente benéficas.
➤ Inclusão e diversidade
Esta rede de apoio informal em Portugal teria de ter particular atenção a grupos vulneráveis, nomeadamente a migrantes, pessoas trans e pessoas em situação de sem-abrigo, disponibilizando materiais e apoio em múltiplas línguas.
A abordagem também deveria reconhecer as diferentes realidades do Trabalho Sexual (rua, interior, online, agências) para incluir todxs.
Porque é que ter uma rede de apoio informal e formal importa
As barreiras que as pessoas trabalhadoras do sexo enfrentam ao aceder à justiça criminal são significativas. Estigma, discriminação e medo de represálias fazem com que muitas vítimas não denunciem crimes às autoridades.
Esta realidade é conhecida pelxs agressorxs que exploram esta vulnerabilidade, contando com a menor probabilidade de as pessoas trabalhadoras do sexo reportarem os danos sofridos.
É precisamente por isso que as redes de apoio formal e informal são tão críticas, oferecendo alternativas de justiça, proteção e cura nos próprios termos das pessoas trabalhadoras do sexo, sem dependência exclusiva de sistemas que frequentemente as falham.
A segurança é um direito, não um privilégio — e quando nos unimos através de redes de apoio informal e formal para nos protegermos mutuamente, transformamos a vulnerabilidade individual em força coletiva.