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Várias mãos humanas encostadas, com punhos fechados, a representar uma rede de apoio informal.

Redes de apoio informal no Trabalho Sexual: partilhar informação salva vidas

| Susana Valente | Segurança

Ter uma rede de apoio informal é essencial para quem faz Trabalho Sexual, uma atividade onde a segurança não é apenas uma questão individual: é coletiva.

Quando as pessoas trabalhadoras do sexo partilham informação sobre clientes abusivxs ou perigosxs, incidentes de violência ou situações de risco, estão a construir uma rede de apoio informal que protege vidas e fortalece a comunidade.

Redes de apoio informal e o poder da partilha de informação entre pares

A história mostra que as redes de proteção entre pessoas trabalhadoras do sexo existem há décadas.

Nos anos de 1980, em Victoria, na Austrália, surgiu o primeiro esquema formalizado de "ugly mugs" (literalmente, "caras feias" na tradução de inglês para português), um sistema de alerta que permitia a trabalhadorxs do sexo partilhar informações sobre indivíduos perigosos.

Este modelo espalhou-se internacionalmente e, em 2012, o Reino Unido lançou o National Ugly Mugs, o primeiro serviço do país para partilha de informação entre pessoas trabalhadoras do sexo.

➤ Como funciona o National Ugly Mugs

O National Ugly Mugs (NUM) funciona como um sistema de reporte de terceiros: as pessoas trabalhadoras do sexo podem reportar incidentes de violência ou comportamento preocupante de forma anónima.

Depois disso, o sistema emite alertas para toda a rede de apoio informal via smartphone. Simultaneamente, partilha a informação com as forças policiais, com o objetivo de reduzir as incidências relacionadas com agressorxs perigosxs.

Em 2023, o National Ugly Mugs processou 578 relatos de violência contra pessoas trabalhadoras do sexo que incluíam 812 incidentes ou experiências individuais de dano, segundo um relatório do sistema, o que demonstra a escala do problema e o valor crítico da plataforma para documentar e responder a estas situações. 

O National Ugly Mugs oferece várias ferramentas práticas à comunidade, tais como:

  • Report something (Reportar algo): Formulário online para reportar incidentes de violência ou comportamento preocupante;
  • Alert tool (Ferramenta de alerta): Sistema de subscrição de alertas sobre pessoas a evitar, enviado por notificação ou SMS;
  • Checker tool (Ferramenta de verificação): Base de dados pesquisável para verificar detalhes de clientes antes de aceitar serviços;
  • Remove online contente (Remover conteúdo online): Apoio para remover conteúdo online não autorizado (por exemplo: imagens partilhadas sem consentimento);
  • Caseworkers (Profissionais de acompanhamento de casos): Equipa de profissionais (ISVAs - Independent Sexual Violence Advisors, ou Consultores Independentes em Violência Sexual) que apoia vítimas de violência com aconselhamento, saúde mental e orientação jurídica.

Identificar e comunicar situações de risco

Uma rede de apoio informal eficaz começa pela capacidade de identificar sinais de alerta, o que ajuda a evitar situações de risco. Alguns indicadores comuns de clientes ou situações de risco incluem:

  • Comportamento agressivo ou ameaçador;
  • Recusa em fornecer identificação ou dados de contacto;
  • Pressão para serviços não acordados ou sem proteção;
  • Histórico de violência reportado por outrxs trabalhadorxs;
  • Tentativas de isolar x trabalhadorx do seu ambiente habitual;
  • Consumo excessivo de álcool ou drogas durante o encontro.
Quando identificas uma situação de risco, comunicar rapidamente à tua rede pode prevenir que outras pessoas sejam vítimas.

➤ A importância de registar informação após um incidente

Depois de um incidente, é fundamental registar informação relevante sobre o que se passou para:

  • Proteção futura: Detalhes como descrição física, veículo, números de telefone, nomes falsos usados, locais de encontro e padrões de comportamento ajudam outrxs trabalhadorxs a identificar x mesmx agressorx;
  • Apoio jurídico: Mesmo que não decidas denunciar às autoridades imediatamente, ter um registo detalhado pode ser útil se mudares de ideias mais tarde ou se outras vítimas decidirem avançar;
  • Padrões de segurança: A acumulação de relatos permite identificar padrões de agressorxs que têm comportamentos violentos repetitivos, tornando os alertas mais precisos e eficazes.

O que deves registar após um incidente:

  • Data, hora e local do incidente;
  • Descrição física detalhada dx agressorx;
  • Qualquer informação de contacto fornecida;
  • Veículo (marca, modelo, cor, matrícula);
  • Modus operandi (como abordou, que serviços pediu, que comportamentos teve);
  • Testemunhas ou outras informações relevantes;
  • Impacto físico e/ou emocional que sofreste.

O papel das comunidades e organizações na disseminação de alertas

As redes de apoio formal e informal complementam-se na proteção das pessoas trabalhadoras do sexo.

Enquanto as redes informais surgem organicamente entre pares, organizações como o National Ugly Mugs estruturam e amplificam estes esforços, oferecendo:

  • Plataformas seguras e anónimas para reporte;
  • Sistemas de alerta em tempo real;
  • Apoio de profissionais especializados;
  • Ligação com serviços de saúde mental e apoio jurídico;
  • Advocacia para mudar políticas e reduzir o estigma.

Como poderia ser uma boa rede de apoio informal em Portugal

O modelo do National Ugly Mugs britânico tem inspirado iniciativas semelhantes em todo o mundo, e continua a expandir os seus serviços, incluindo apoio alimentar e vouchers para produtos de higiene.

Outras iniciativas internacionais incluem esquemas locais de "ugly mugs" em várias cidades, muitas vezes geridos por organizações de apoio a trabalhadorxs do sexo em parceria com serviços de saúde e justiça.

Em Portugal, falta ainda estabelecer uma rede de apoio informal semelhante. Mas se passos fossem dados nesse sentido, deveria incorporar as seguintes características:

  • Ter uma plataforma digital segura (app ou website) com opção de registo anónimo;
  • Manter canais de comunicação criptografados (por exemplo: Telegram, Signal) para partilha rápida e confidencial de informação;
  • Ter uma linha telefónica de apoio disponível em horários alargados.

Infográfico com os 6 pilares para uma rede de apoio informal em Portugal: segurança e confiança; capacitação e desenvolvimento; solidariedade e conexão; informação e acesso; instituições e parcerias; diversidade e inclusão.

Em termos de ferramentas práticas, seria ideal que tivesse:

  • Sistema de alerta em tempo real por SMS ou notificação push;
  • Base de dados pesquisável de alertas anteriores (com proteções de privacidade);
  • Formulários simples e rápidos para reporte de incidentes.

➤ Apoio integrado e colaboração institucional

Para que tudo funcionasse da forma ideal, esta rede de apoio informal nacional teria de manter parcerias com organizações de saúde, de apoio jurídico e com serviços sociais.

Seria igualmente fundamental ter acesso a mediadores de pares treinados em violência no Trabalho Sexual, e a recursos de saúde mental específicos para a comunidade.

A capacitação da comunidade de pessoas trabalhadoras do sexo também seria essencial, com:

  • Formação em segurança, direitos e autodefesa;
  • Encontros presenciais ou virtuais regulares para fortalecer laços;
  • Materiais informativos em português e outras línguas faladas pela comunidade.

A ligação com forças policiais sensíveis à realidade do Trabalho Sexual seria outro vetor obrigatório.

👉 Parcerias com projetos como o Plano Aproxima, para apoio técnico e institucional, também seriam altamente benéficas.

➤ Inclusão e diversidade

Esta rede de apoio informal em Portugal teria de ter particular atenção a grupos vulneráveis, nomeadamente a migrantes, pessoas trans e pessoas em situação de sem-abrigo, disponibilizando materiais e apoio em múltiplas línguas.

A abordagem também deveria reconhecer as diferentes realidades do Trabalho Sexual (rua, interior, online, agências) para incluir todxs.

Porque é que ter uma rede de apoio informal e formal importa

As barreiras que as pessoas trabalhadoras do sexo enfrentam ao aceder à justiça criminal são significativas. Estigma, discriminação e medo de represálias fazem com que muitas vítimas não denunciem crimes às autoridades.

Esta realidade é conhecida pelxs agressorxs que exploram esta vulnerabilidade, contando com a menor probabilidade de as pessoas trabalhadoras do sexo reportarem os danos sofridos.

É precisamente por isso que as redes de apoio formal e informal são tão críticas, oferecendo alternativas de justiça, proteção e cura nos próprios termos das pessoas trabalhadoras do sexo, sem dependência exclusiva de sistemas que frequentemente as falham.

Quando partilhas informação numa rede de pares, não estás apenas a proteger-te a ti: estás a contribuir para um ecossistema de segurança coletiva que beneficia toda a comunidade. Estás também a criar barreiras contra agressorxs e a enviar uma mensagem poderosa de que as vidas das pessoas trabalhadoras do sexo importam.

A segurança é um direito, não um privilégio — e quando nos unimos através de redes de apoio informal e formal para nos protegermos mutuamente, transformamos a vulnerabilidade individual em força coletiva.