
Vitória Vaz: a história de uma trabalhadora do sexo que recusa a invisibilidade
Estivemos à conversa com Vitória Vaz, trabalhadora do sexo há mais de 10 anos, que nos conta a sua história e a forma como entrou nesta atividade.
Esta entrevista insere-se na Campanha Invisíveis que pretende dar voz a pessoas trabalhadoras do sexo (PTS), contribuindo para as retirar da invisibilidade social em que vivem.
Vitória Vaz revela que entrou no mundo do Trabalho Sexual por razões económicas, as mesmas que a seguram nesta atividade até hoje. Mas, como mãe solteira, também precisa da “flexibilidade” que este trabalho lhe permite para poder cuidar dos filhos.
Entre os desafios e as dificuldades, encontra “muita alegria” no seu trabalho e apela a outrxs trabalhadorxs do sexo para não se isolarem. “Nada do que estamos a fazer está errado”, sublinha.
“Na primeira vez com um cliente , foi tudo muito engraçado”
Plano AproXima: Há quanto tempo é trabalhadora do sexo?
Vitória Vaz - Há 16, 17 anos.
Plano AproXima: Como entrou nesta atividade?
Vitória Vaz - Entrei porque andava a fazer drogas ilícitas, andava muito envolvida com a cocaína, e deixei de pagar o meu crédito à habitação. E foi o que me lembrei onde poderia fazer dinheiro logo na mão. Não havia outra coisa que me pudesse dar dinheiro tão rapidamente.
Plano AproXima: E como começou?
Vitória Vaz – Fiz uma pesquisa na Internet e encontrei um número de telefone de uma madame. Fiquei de encontrar-me com ela em Lisboa e pensava que ia ser uma entrevista. Mas o cliente já estava à minha espera num hotel.
Plano AproXima: Como é que se sentiu com isso?
Vitória Vaz – Fiquei em choque! Mas ou aceitava ou não aceitava e ia perder o dinheiro – e o dinheiro era muito bom! Na altura, nem imaginava que seria tanto.
Plano AproXima: E recebeu alguma dica sobre o que deveria fazer, ou como deveria comportar-se?
Vitória Vaz – Não. Ela só me disse: vai comprar preservativos e pensa. Quando vieres, falamos mais um pouco.
Plano AproXima: Quando voltou, aceitou o serviço?
Vitória Vaz – Sim, e perguntei à madame se ela sabia o que o cliente queria. Ela disse que era uma pessoa muito simples e que só queria um momento de ternura. Perguntei-lhe como ele era e ela só disse: "Isto não é o Pretty Woman!"
Plano AproXima: E como correu o encontro com o cliente?
Vitória Vaz – Como primeira situação, foi tudo muito engraçado. Fui para o quarto de hotel super nervosa – vestia uma camisa e tinha umas marcas de suor enormes por estar mesmo nervosa. Ele apercebeu-se e ainda me disse que podia ir embora, se quisesse, e que o dinheiro estava num envelope, em cima da mesa. Mas fiquei e tivemos relações. Era um cavalheiro à moda antiga, muito querido.
Plano AproXima: Neste momento, porque continua na atividade?
Vitória Vaz – Por questões financeiras e de flexibilidade. Sou mãe solteira, o que é extremamente difícil e não tenho apoio de lado nenhum. Não é fácil encontrar alternativas.
“Faço muito trabalho de terapeuta”
Plano AproXima: Quais são os desafios mais difíceis que enfrenta enquanto profissional do sexo?
Vitória Vaz – Faço muito trabalho de terapeuta quando não tenho qualquer tipo de ferramentas para o fazer. O sexo é a parte mais fácil para mim. A parte mais difícil, por vezes, é ouvir as pessoas e calar. Às vezes, sentem-se à vontade para dizer tudo e não convém manifestar a minha opinião, a não ser com clientes que já o são há algum tempo.
Plano AproXima: E já passou por situações desagradáveis?
Vitória Vaz – Uma vez, estava a trabalhar num hotel, um dos trabalhadores pediu-me sexo oral em troca de silêncio sobre o que estava a fazer. Não o fiz porque não estava a fazer nada que fosse crime.
Plano AproXima: E, pelo contrário, situações que a tenham surpreendido de forma positiva? Já falou daquele primeiro cliente…
Vitória Vaz – Tive imensas situações positivas! Muitos gestos de carinho dxs clientes, até de preocupação comigo. Uma vez, um deu-me o dinheiro de que precisava, na altura, para pagar a renda. Ajudou-me imenso! Depois, paguei-lhe em serviços.
Plano AproXima: Que ideia errada aparece com mais frequência associada ao Trabalho Sexual?
Vitória Vaz – Que não é trabalho. Que não temos qualquer tipo de competências – que não sabemos fazer mais nada.
Plano AproXima: Falando em competências, quais são as mais fundamentais para quem faz Trabalho Sexual e que quase nunca são valorizadas?
Vitória Vaz – Saber ouvir, mas também a parte administrativa que é uma organização enorme; a capacidade de adaptação que temos a cada pessoa e de mostrar interesse pelo que lhe interessa a ela; o instinto para depressa perceber se alguém é seguro ou não; e o poder de comunicação que é mesmo muito importante.
Plano AproXima: Porque, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, o sexo é apenas uma parte do trabalho que envolve também um acompanhamento mais do foro “psicológico”.
Vitória Vaz – Em termos de relacionamentos humanos, é um dos trabalhos mais exigentes. Os serviços ao cliente são, geralmente, muito genéricos em muitas atividades, mas aqui não - cada pessoa é uma pessoa e é preciso adaptação a cada uma. Até para manusear o corpo – nem todas as pessoas têm o mesmo tipo de autonomia. Há pessoas que têm deficiências e temos também de saber lidar com isso.
Plano AproXima: O atendimento a clientes com incapacidades deve ser ainda mais desafiante. Como é que se aprende a lidar com essas diferenças?
Vitória Vaz – É preciso não ter medo de perguntar, e criar confiança do outro lado.
“Manter mentira é desgaste muito grande”
Plano AproXima: Que impacto tem o Trabalho Sexual na sua vida?
Vitória Vaz – Tem muito impacto! Manter uma mentira é de um desgaste muito grande. As pessoas que eu mais amo sabem, mas é um privilégio. No dia a dia é muito difícil, quando inscrevo os filhos na escola, quando vou ao banco… Quando a pergunta [sobre o que faço] surge, tenho uma resposta pronta, mas é sempre um murro no estômago.
Plano AproXima: E vive-se com esse medo de se ser descoberta?
Vitória Vaz – Tenho imenso medo! Até porque tenho dois filhos pequenos e temo pela segurança deles. Ainda por cima, vivo num sítio bastante rural, muito católico, com uma mentalidade muito antiga. E também faço webcam e há sempre o receio de que partilhem imagens.
Plano AproXima: Que mudanças é que tornariam o Trabalho Sexual mais seguro e mais respeitado?
Vitória Vaz – Se fosse visto como trabalho, se pudéssemos sindicalizar-nos, se pudéssemos ter proteção, se pudéssemos ter uma força policial que estivesse do nosso lado...
Plano AproXima: Faz parte do Movimento dos Trabalhadorxs do Sexo (MTS) que luta pelos direitos das pessoas que fazem Trabalho Sexual (PTS). Como é que se poderia avançar nesse sentido?
Vitória Vaz – A descriminalização ou a legalização, o que for. O Trabalho Sexual já é visto como legal em Portugal, mas depois, existe o lenocínio simples que é crime. Isso impossibilita as pessoas de terem, por exemplo, um segurança, ou de 3, 4 pessoas alugarem uma casa para trabalharem juntas sem serem criminalizadas.
Plano AproXima: Somos o país dos brandos costumes. A atividade não é ilegal, mas também não é bem legal...
Vitória Vaz – É tapar o sol com a peneira!
Atendimento a clientxs em Portugal é “mecânico e aborrecido”
Plano AproXima: Esta sua veia ativista em prol dos direitos das PTS começou com a adesão ao MTS?
Vitória Vaz – Não, mesmo antes do MTS, embora não soubesse que era ativismo. Estive ligada a uma associação – a Labuta – que já defendia os direitos dxs trabalhadorxs do sexo. E quando estava a morar em Londres, pertencia a outras organizações internacionais.
Plano AproXima: Portanto, também fez Trabalho Sexual em Londres – nota diferenças na atividade em comparação com Portugal?
Vitória Vaz – Muitas diferenças para melhor nxs clientes. Lá há mais poder de compra e xs clientes – pelo menos, os que eu consegui – são mais diversificadxs e senti-me mais bem tratada. Era mais um “tu cá, tu lá”. Aqui são mais clientes com vontade de falar delxs, sem interesse na pessoa com quem estão. É mais mecânico, mais aborrecido.
Plano AproXima: Que mensagem gostaria de deixar para outras pessoas que também fazem Trabalho Sexual?
Vitória Vaz – Que venham procurar o MTS. Estamos abertxs para quem quiser e precise. Não se isolem. Somos muitxs. Não temos de estar fechadxs dentro dos nossos quartos, dos nossos apartamentos, dentro do nosso mundo.
Plano AproXima: A questão do isolamento pode ser bastante negativa na vida das PTS?
Vitória Vaz – O isolamento, por se sentir vergonha, é bastante violento. Mas a força da comunidade é muito grande! E não têm de fazer ativismo para serem parte do MTS – podem só estar para um abraço, para uma conversa... Não se isolem. Nada do que estamos a fazer está errado.
Plano AproXima: E o que diria a quem não conhece o mundo do Trabalho Sexual por dentro?
Vitória Vaz – Que tenham curiosidade para saber mais sobre o tema e para ouvir as vozes das pessoas ativas [no Trabalho Sexual], que são as que sabem e entendem este momento. Que venham com aquelas perguntas todas que querem fazer porque nós, normalmente, até gostamos de falar e de explicar. Que se lembrem de que os direitos dxs trabalhadorxs do sexo também são direitos humanos. E procurem debates que tenham as nossas vozes e que não sejam só aquelas histórias sórdidas, mórbidas e tristes. Também há muita alegria! As pessoas não sabem, mas há.
Plano AproXima: Onde encontra essa alegria no seu trabalho?
Vitória Vaz – Só o facto de se conseguir fugir à pobreza, já é uma alegria enorme! Uma das coisas de que me apercebi, quando comecei a fazer este trabalho, e não querendo ser muito dramática, é que nunca mais vou passar fome. O trabalho está aqui para quando eu precisar de entrar e sair, conforme for necessário – e esse é um privilégio muito grande porque nem toda a gente pode entrar e sair quando quer.