
Bissexualidade: o que é uma pessoa bissexual e porque há bifobia
A bissexualidade continua a ser uma das orientações sexuais mais incompreendidas, tanto fora como mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+.
Apesar de ser uma identidade real, estável e tão válida como qualquer outra, muitas pessoas bissexuais enfrentam invisibilidade, bifobia, estereótipos persistentes e uma sensação de não-pertença.
Tudo isso afeta profundamente o seu bem-estar emocional. Por isso, é preciso desconstruir mitos e explicar o que é ser bissexual, para entender o impacto psicológico do preconceito e da invisibilidade.
Bissexualidade: o que é, afinal?
Se procurarmos saber o que é bissexualidade, encontramos definições que variam ligeiramente, mas que convergem num ponto essencial: é a atração romântica e/ou sexual por mais de um género.
➤ Definições sobre o que é uma pessoa bissexual
A Associação de Psicologia Americana (APA) é a entidade científica mais citada no mundo em temas de psicologia e diversidade sexual. A sua definição sobre o que é uma pessoa bissexual é considerada padrão internacional.
A APA define a bissexualidade como:
“Uma orientação sexual caracterizada por atração emocional, romântica e/ou sexual por mais do que um género.”
Este conceito sobre o que é ser bissexual reforça que a bissexualidade não depende do género da parceria atual e que não implica proporções iguais de atração por um género ou outro.
👉 Ou seja, uma pessoa bissexual é alguém que sente atração, ou tem capacidade de se apaixonar, por mais do que um sexo ou género, independentemente da relação que vive no momento.
Porque continuam a existir mitos e estereótipos?
Apesar de décadas de investigação séria sobre a bissexualidade, muitos mitos continuam a circular — e não é por falta de informação.
A verdade é que estes estereótipos persistem porque estão enraizados em estruturas sociais antigas, em preconceitos culturais e em formas de pensar que privilegiam identidades “simples”, lineares e fáceis de categorizar.
A sociedade gosta de caixas simples. A bissexualidade, por natureza, desafia tudo isso, quebrando a lógica tradicional, porque mostra que a atração humana é mais complexa do que caixas arrumadinhas.

É, então, importante desconstruir mitos e ideias que já não devem ter lugar numa sociedade informada. Eis alguns dos mais comuns:
“A bissexualidade é só uma fase.”
Este mito é alimentado por estudos antigos que confundiam identidades de transição com identidades estáveis.
Sim, algumas pessoas passam por fases de questionamento. É algo que acontece em TODAS as orientações sexuais. Mas a maioria das pessoas bissexuais permanece bissexual ao longo de toda a vida.
“Os bissexuais não sabem o que querem.”
❌ Não, não se trata de pessoas que estejam confusas ou que não sabem o que querem.
Confusão é não saber o que se sente. Ser bissexual é saber exatamente o que se sente: atração por mais de um género.
“Bissexuais são promíscuos ou infiéis.”
Este é um dos mitos mais prejudiciais, mas não tem nada que ver com a realidade.
A orientação sexual ❌ não determina o comportamento relacional. Há bissexuais monogâmicxs, poliamorosxs, celibatárixs, aventureirxs, reservadxs... Enfim, é como em qualquer outra orientação.
Este mito nasce do monossexismo, a crença cultural dominante que assume que todas as pessoas são heterossexuais ou homossexuais. Tudo o que foge disso é visto como exceção, fase, curiosidade ou indecisão.
Este preconceito invisibiliza pessoas bissexuais e alimenta a ideia de que “não são bem LGBTQIAPN+”, e de que “não são bem heterossexuais”. É um limbo identitário criado pela sociedade, não pela experiência bi.
“Se estás com uma pessoa do sexo oposto, deixaste de ser bi.”
Este é um dos estereótipos mais dolorosos dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+. A orientação sexual não muda com base na relação atual. A identidade não desaparece porque a sociedade prefere categorias simples.
Bifobia e invisibilidade bi
A invisibilidade bissexual dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+ é um fenómeno real, estudado e amplamente documentado em várias áreas, desde a psicologia à sociologia, passando pelos estudos de género.
E, apesar de vivermos num momento histórico em que a diversidade sexual é cada vez mais discutida, muitas pessoas bissexuais continuam a sentir que não têm espaço, voz ou reconhecimento.
Mas antes de falarmos da invisibilidade bi, é essencial compreender o que está na sua raiz: a bifobia.
➤ O que é a bifobia
A sociedade tende a interpretar a orientação sexual de forma binária: ou és hetero ou és gay/lésbica. Por não caber neste sistema rígido, a bissexualidade é vista como algo “estranho”, “instável” ou “difícil de compreender”.
É assim que nasce a bifobia que inclui comportamentos como:
- Negar que a bissexualidade existe (“isso é só curiosidade”);
- Assumir que pessoas bi são infiéis ou promíscuas;
- Invalidar a identidade com base nx parceirx atual;
- Tratar a bissexualidade como “meio termo” ou “porta de entrada”;
- Excluir pessoas bi de espaços LGBTQIAPN+;
- Fetichizar relações bi ou usar a identidade como fantasia;
- Questionar constantemente, “mas tens a certeza?”
➤ Como a bifobia alimenta a invisibilidade bi
A invisibilidade bi não acontece por acaso — é consequência direta da bifobia. Ela manifesta-se quando a identidade bi é apagada com base nx parceirx atual, e quando a bissexualidade é tratada como fase ou transição.
Outro reflexo desta invisibilidade é o facto de os media evitarem nomear personagens bi, ou quando os estudos agrupam xs bissexuais em categorias genéricas.
Muitas pessoas bissexuais relatam que, ao procurar apoio dentro da comunidade LGBTQIAPN+, encontram:
- Desconfiança (“xs bi acabam sempre com pessoas do sexo oposto”);
- Invalidação (“se estás com uma mulher, és lésbica”);
- Exclusão (“não és queer o suficiente”);
- Pressão para “escolher um lado”;
- Comentários que reforçam estereótipos (“xs bi são instáveis”).
👉 Isto cria um paradoxo doloroso: as pessoas bi procuram um espaço seguro, mas encontram barreiras que as fazem sentir que não pertencem totalmente a lugar nenhum.

➤ O impacto da bifobia e da invisibilidade na saúde mental
A combinação de bifobia com invisibilidade tem efeitos profundos na saúde mental das pessoas bissexuais. Entre os efeitos mais conhecidos estão:
- Stress constante;
- Maior risco de ansiedade e depressão;
- Sensação de não-pertença;
- Medo de assumir a identidade;
- Baixa autoestima;
- Isolamento social;
- Dificuldade em encontrar apoio adequado.
Bissexualidade no Trabalho Sexual: o estigma duplo
O Trabalho Sexual é um contexto onde a bissexualidade pode ser ainda mais invisibilizada ou estigmatizada.
Trabalhadorxs do sexo bissexuais enfrentam um duplo preconceito — por serem bissexuais e por fazerem Trabalho Sexual.
Isto envolve suposições sobre “promiscuidade” e uma pressão constante para corresponder a fantasias dxs clientes.
Além disso, estas pessoas têm, muitas vezes, de esconder a sua identidade real, com medo de assumirem a orientação por receio de perderem clientes ou de serem alvo de violência.
O duplo estigma aumenta:
- Risco de burnout;
- Isolamento;
- Dificuldade em criar redes de apoio.
➤ Gestão da identidade com diferentes clientes
Pessoas bissexuais que fazem Trabalho Sexual costumam adaptar a forma como falam da sua vida pessoal conforme x cliente. Assim, evitam falar de relações com pessoas do mesmo género.
Também têm de lidar com expectativas dxs clientes que tendem a reforçar os estereótipos — “se és bi, fazes tudo!”
Trabalhadorxs do sexo bissexuais sentem na pele que a sua identidade é fetichizada ou desvalorizada, e isso tem claramente impactos emocionais a que é preciso prestar atenção.
Como reconhecer e validar identidades bissexuais
Reconhecer e validar identidades bissexuais é um gesto simples, mas com impacto enorme na vida de quem ainda enfrenta bifobia, invisibilidade e dúvidas constantes sobre a legitimidade da sua orientação.
Aqui ficam formas práticas, simples e eficazes para o fazer:
✔ Usar linguagem inclusiva — evitar assumir que x parceirx de alguém é sempre de um género específico;
✔ Não questionar a legitimidade da identidade — nunca dizer “tens a certeza?” ou “isso passa”;
✔ Não reduzir a bissexualidade a certos comportamentos — a identidade não depende de experiências sexuais;
✔ Evitar fetichizar — não perguntar detalhes íntimos só porque a pessoa é bi;
✔ Apoiar quando alguém se assume — a validação explícita reduz drasticamente o stress;
✔ Incluir pessoas bi em espaços LGBTQIAPN+ — não as deixar na periferia da comunidade;
✔ Combater estereótipos quando se manifestam — mesmo em conversas informais.
Ver, ouvir e validar a bissexualidade: o caminho para combater a bifobia
A bissexualidade existe, é legítima e merece ser reconhecida sem hesitações. Combater a invisibilidade bi e a bifobia significa:
- Ouvir sem julgar;
- Validar sem questionar;
- Incluir sem condições;
- Reconhecer que a identidade não depende da relação atual;
- Apoiar trabalhadorxs do sexo bissexuais, que enfrentam estigma duplo;
- Criar espaços onde pessoas bi se sintam realmente parte da comunidade.