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Pessoas na rua com uma mulher em destaque, a segurar um cartaz colorido em forma de coração que diz "Não estou confusa" em espanhol, para ilustrar o que é ser bissexual.

Bissexualidade: o que é uma pessoa bissexual e porque há bifobia

| Susana Valente | LGBTQIAPN+

A bissexualidade continua a ser uma das orientações sexuais mais incompreendidas, tanto fora como mesmo dentro da comunidade LGBTQIAPN+.

Apesar de ser uma identidade real, estável e tão válida como qualquer outra, muitas pessoas bissexuais enfrentam invisibilidade, bifobia, estereótipos persistentes e uma sensação de não-pertença.

Tudo isso afeta profundamente o seu bem-estar emocional. Por isso, é preciso desconstruir mitos e explicar o que é ser bissexual, para entender o impacto psicológico do preconceito e da invisibilidade.

Bissexualidade: o que é, afinal?

Se procurarmos saber o que é bissexualidade, encontramos definições que variam ligeiramente, mas que convergem num ponto essencial: é a atração romântica e/ou sexual por mais de um género.

➤ Definições sobre o que é uma pessoa bissexual

A Associação de Psicologia Americana (APA) é a entidade científica mais citada no mundo em temas de psicologia e diversidade sexual. A sua definição sobre o que é uma pessoa bissexual é considerada padrão internacional.

A APA define a bissexualidade como:

“Uma orientação sexual caracterizada por atração emocional, romântica e/ou sexual por mais do que um género.”

Este conceito sobre o que é ser bissexual reforça que a bissexualidade não depende do género da parceria atual e que não implica proporções iguais de atração por um género ou outro.

👉 Ou seja, uma pessoa bissexual é alguém que sente atração, ou tem capacidade de se apaixonar, por mais do que um sexo ou género, independentemente da relação que vive no momento.

A bissexualidade não é uma fase, nem indecisão. É uma orientação sexual legítima, estável e diversa, que pode manifestar-se de formas diferentes ao longo da vida.

Porque continuam a existir mitos e estereótipos?

Apesar de décadas de investigação séria sobre a bissexualidade, muitos mitos continuam a circular — e não é por falta de informação.

A verdade é que estes estereótipos persistem porque estão enraizados em estruturas sociais antigas, em preconceitos culturais e em formas de pensar que privilegiam identidades “simples”, lineares e fáceis de categorizar.

A sociedade gosta de caixas simples. A bissexualidade, por natureza, desafia tudo isso, quebrando a lógica tradicional, porque mostra que a atração humana é mais complexa do que caixas arrumadinhas.

Infográfico sobre o que é bissexualidade, com formas de combater a bifobia.

É, então, importante desconstruir mitos e ideias que já não devem ter lugar numa sociedade informada. Eis alguns dos mais comuns:

“A bissexualidade é só uma fase.”

Este mito é alimentado por estudos antigos que confundiam identidades de transição com identidades estáveis.

Sim, algumas pessoas passam por fases de questionamento. É algo que acontece em TODAS as orientações sexuais. Mas a maioria das pessoas bissexuais permanece bissexual ao longo de toda a vida.

“Os bissexuais não sabem o que querem.”

❌ Não, não se trata de pessoas que estejam confusas ou que não sabem o que querem.

Confusão é não saber o que se sente. Ser bissexual é saber exatamente o que se sente: atração por mais de um género.

“Bissexuais são promíscuos ou infiéis.”

Este é um dos mitos mais prejudiciais, mas não tem nada que ver com a realidade.

A orientação sexual ❌ não determina o comportamento relacional. Há bissexuais monogâmicxs, poliamorosxs, celibatárixs, aventureirxs, reservadxs... Enfim, é como em qualquer outra orientação.

Este mito nasce do monossexismo, a crença cultural dominante que assume que todas as pessoas são heterossexuais ou homossexuais. Tudo o que foge disso é visto como exceção, fase, curiosidade ou indecisão.

Este preconceito invisibiliza pessoas bissexuais e alimenta a ideia de que “não são bem LGBTQIAPN+”, e de que “não são bem heterossexuais”. É um limbo identitário criado pela sociedade, não pela experiência bi.

“Se estás com uma pessoa do sexo oposto, deixaste de ser bi.”

Este é um dos estereótipos mais dolorosos dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+. A orientação sexual não muda com base na relação atual. A identidade não desaparece porque a sociedade prefere categorias simples.

Uma pessoa bissexual num relacionamento heterossexual continua bissexual. Uma pessoa bissexual num relacionamento homossexual continua bissexual.

Bifobia e invisibilidade bi

A invisibilidade bissexual dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+ é um fenómeno real, estudado e amplamente documentado em várias áreas, desde a psicologia à sociologia, passando pelos estudos de género.

E, apesar de vivermos num momento histórico em que a diversidade sexual é cada vez mais discutida, muitas pessoas bissexuais continuam a sentir que não têm espaço, voz ou reconhecimento.

Mas antes de falarmos da invisibilidade bi, é essencial compreender o que está na sua raiz: a bifobia.  

➤ O que é a bifobia

A sociedade tende a interpretar a orientação sexual de forma binária: ou és hetero ou és gay/lésbica. Por não caber neste sistema rígido, a bissexualidade é vista como algo “estranho”, “instável” ou “difícil de compreender”.

É assim que nasce a bifobia que inclui comportamentos como:

  • Negar que a bissexualidade existe (“isso é só curiosidade”);
  • Assumir que pessoas bi são infiéis ou promíscuas;
  • Invalidar a identidade com base nx parceirx atual;
  • Tratar a bissexualidade como “meio termo” ou “porta de entrada”;
  • Excluir pessoas bi de espaços LGBTQIAPN+;
  • Fetichizar relações bi ou usar a identidade como fantasia;
  • Questionar constantemente, “mas tens a certeza?”
É importante perceber que a bifobia não vem apenas de pessoas heterossexuais. Ela também existe dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, e isso torna a experiência bi particularmente complexa.

➤ Como a bifobia alimenta a invisibilidade bi

A invisibilidade bi não acontece por acaso — é consequência direta da bifobia. Ela manifesta-se quando a identidade bi é apagada com base nx parceirx atual, e quando a bissexualidade é tratada como fase ou transição.

Outro reflexo desta invisibilidade é o facto de os media evitarem nomear personagens bi, ou quando os estudos agrupam xs bissexuais em categorias genéricas.

A sociedade assume, à partida, que ser bi é igual a estar indecisx. Portanto, a invisibilidade é um produto cultural: nasce da dificuldade coletiva em aceitar que a atração humana pode ser múltipla, fluida e diversa.

Muitas pessoas bissexuais relatam que, ao procurar apoio dentro da comunidade LGBTQIAPN+, encontram:

  • Desconfiança (“xs bi acabam sempre com pessoas do sexo oposto”);
  • Invalidação (“se estás com uma mulher, és lésbica”);
  • Exclusão (“não és queer o suficiente”);
  • Pressão para “escolher um lado”;
  • Comentários que reforçam estereótipos (“xs bi são instáveis”).

👉 Isto cria um paradoxo doloroso: as pessoas bi procuram um espaço seguro, mas encontram barreiras que as fazem sentir que não pertencem totalmente a lugar nenhum.

Legos brancos para explicar o que é uma pessoa bissexual com a palavra escrita em Inglês a várias cores.

➤ O impacto da bifobia e da invisibilidade na saúde mental

A combinação de bifobia com invisibilidade tem efeitos profundos na saúde mental das pessoas bissexuais. Entre os efeitos mais conhecidos estão:

  • Stress constante;
  • Maior risco de ansiedade e depressão;
  • Sensação de não-pertença;
  • Medo de assumir a identidade;
  • Baixa autoestima;
  • Isolamento social;
  • Dificuldade em encontrar apoio adequado.
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Estudos mostram que as pessoas bissexuais têm níveis mais altos de sofrimento psicológico do que as pessoas gays, lésbicas ou heterossexuais. E isto não é por serem bi, mas porque vivem numa identidade constantemente questionada e desvalorizada.

Bissexualidade no Trabalho Sexual: o estigma duplo

O Trabalho Sexual é um contexto onde a bissexualidade pode ser ainda mais invisibilizada ou estigmatizada.

Trabalhadorxs do sexo bissexuais enfrentam um duplo preconceito — por serem bissexuais e por fazerem Trabalho Sexual.

Isto envolve suposições sobre “promiscuidade” e uma pressão constante para corresponder a fantasias dxs clientes.

Além disso, estas pessoas têm, muitas vezes, de esconder a sua identidade real, com medo de assumirem a orientação por receio de perderem clientes ou de serem alvo de violência.

O duplo estigma aumenta:

  • Risco de burnout;
  • Isolamento;
  • Dificuldade em criar redes de apoio.

➤ Gestão da identidade com diferentes clientes

Pessoas bissexuais que fazem Trabalho Sexual costumam adaptar a forma como falam da sua vida pessoal conforme x cliente. Assim, evitam falar de relações com pessoas do mesmo género.

Também têm de lidar com expectativas dxs clientes que tendem a reforçar os estereótipos — “se és bi, fazes tudo!”

Trabalhadorxs do sexo bissexuais sentem na pele que a sua identidade é fetichizada ou desvalorizada, e isso tem claramente impactos emocionais a que é preciso prestar atenção.

É essencial reconhecer que trabalhadorxs do sexo bissexuais merecem segurança, respeito e validação — dentro e fora da comunidade.

Como reconhecer e validar identidades bissexuais

Reconhecer e validar identidades bissexuais é um gesto simples, mas com impacto enorme na vida de quem ainda enfrenta bifobia, invisibilidade e dúvidas constantes sobre a legitimidade da sua orientação.

Aqui ficam formas práticas, simples e eficazes para o fazer:

✔ Usar linguagem inclusiva — evitar assumir que x parceirx de alguém é sempre de um género específico;

✔ Não questionar a legitimidade da identidade — nunca dizer “tens a certeza?” ou “isso passa”;

✔ Não reduzir a bissexualidade a certos comportamentos — a identidade não depende de experiências sexuais;

Evitar fetichizar — não perguntar detalhes íntimos só porque a pessoa é bi;

Apoiar quando alguém se assume — a validação explícita reduz drasticamente o stress;

Incluir pessoas bi em espaços LGBTQIAPN+ — não as deixar na periferia da comunidade;

Combater estereótipos quando se manifestam — mesmo em conversas informais.

Ver, ouvir e validar a bissexualidade: o caminho para combater a bifobia

A bissexualidade existe, é legítima e merece ser reconhecida sem hesitações. Combater a invisibilidade bi e a bifobia significa:

  • Ouvir sem julgar;
  • Validar sem questionar;
  • Incluir sem condições;
  • Reconhecer que a identidade não depende da relação atual;
  • Apoiar trabalhadorxs do sexo bissexuais, que enfrentam estigma duplo;
  • Criar espaços onde pessoas bi se sintam realmente parte da comunidade.
A invisibilidade e a bifobia não desaparecem sozinhas — desaparecem quando escolhemos ver e respeitar a bissexualidade como uma identidade plena, estável e digna, que merece existir sem explicações, sem justificações e sem condições.