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Mulher de cuecas brancas com flor rosa na zona íntima a representar a menopausa.

Plano AproXima nas Jornadas da Menopausa: um debate sobre desigualdades e direitos

As Jornadas da Menopausa reuniram no dia 10 de outubro de 2026, na Galeria Geraldes da Silva, no Porto, profissionais de saúde, ativistas e projetos comunitários que abordaram diferentes perspetivas sobre uma experiência que continua a ser pouco compreendida.

Organizado pelo coletivo feminista A Coletiva, pela APF - Associação para o Planeamento da Família e pela associação cultural Cultra, o encontro contou com a presença do Plano Aproxima num painel que abordou os impactos da menopausa na diversidade de corpos, incluindo pessoas trans e trabalhadoras do sexo, pessoas com deficiência e pessoas em situação de sem-abrigo.

Durante as Jornadas, realizaram-se quatro painéis de conversa que cruzaram história, medicina e intervenção comunitária. E ficou claro que a menopausa envolve corpos, saúde, trabalho, migração, Trabalho Sexual, envelhecimento e direitos.

A menopausa como construção social

A menopausa é um processo natural, mas a forma como é vivido é profundamente influenciada pela história, pela cultura, pelas condições económicas e pelo acesso aos cuidados de saúde.

O primeiro painel das Jornadas, intitulado “Corpos sem regras”, centrou-se precisamente na desconstrução da ideia de que a menopausa é apenas um fenómeno biológico.

Andrea Peniche, editora, autora, cofundadora e ativista d´A Colectiva, Gabriela Moita, psicóloga que se tem dedicado à defesa dos direitos sexuais, da diversidade de género e da comunidade LGBTQIAPN+, e Helena G. Ferreira, investigadora e escritora, mostraram como, desde a Antiguidade, a ausência de menstruação foi associada a impureza, desequilíbrio ou perigo.

➤ Corpo feminino vigiado, corrigido e disciplinado

A análise revelou uma constante: o corpo feminino foi repetidamente regulado por discursos médicos, religiosos e sociais.

Em determinados períodos, “praticavam-se sangrias com a intenção de ‘limpar’ o corpo de mulheres que deixavam de menstruar”. Também existiam proibições e crenças segundo as quais uma mulher sem período não deveria tocar em bebés.

Mais do que episódios curiosos do passado, estas práticas revelam uma lógica de controlo.

O corpo feminino foi, frequentemente, tratado como um corpo que precisava de ser vigiado, corrigido e disciplinado – como se a menopausa fosse uma “falha” ou “perda de valor”.

Esta herança histórica ajuda a explicar porque a menopausa continua a ser acompanhada por vergonha, desinformação e silêncio.

“Quando um processo natural é apresentado como defeito, a pessoa pode sentir que o seu corpo deixou de cumprir uma norma”, constatou-se no painel.

A conclusão das intervenções foi inequívoca — o problema não está no corpo, mas nos discursos que o moldaram e na forma como a sociedade desvaloriza a menopausa e a transforma numa experiência solitária.

Natural não significa invisível

O segundo painel centrou-se na explicação médica da menopausa, sem dramatização nem patologização, passando a mensagem de que normalizar esta condição não significa ignorar o sofrimento que lhe pode estar associado.

As médicas Ana Campos, que integra a direção da APF, e Lisa Vicente, coordenadora da Comissão da Sexualidade Feminina da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, falaram das alterações comuns nesta fase e da importância de ter acesso a cuidados que respeitem a diversidade de experiências.

Apesar de ser um processo natural e normal, os sintomas da menopausa não devem ser ignorados ou suportados sem apoio.

➤ Distinguir normalidade de sofrimento evitável

A chamada “transição menopáusica”, o período que antecipa a menopausa, pode incluir alterações do ciclo menstrual, afrontamentos, suores noturnos, dificuldades de sono, alterações do humor, ansiedade, fadiga, secura vaginal, dor nas relações sexuais, sintomas urinários e mudanças na libido.

A experiência varia muito de pessoa para pessoa — algumas têm poucos sintomas; para outras, podem ser intensos e prolongar-se durante anos.

Desta forma, a informação clínica é importante porque permite distinguir normalidade de sofrimento evitável.

Ana Campos e Lisa Vicente, ambas com vasta experiência clínica no tema, também realçaram que a saúde sexual não termina com a menopausa — informação, prevenção, lubrificação, testagem, tratamento e respeito pelas preferências de cada pessoa são fundamentais.

Desigualdades e Trabalho Sexual: o contributo do Plano AproXima

O Plano AproXima participou no terceiro painel, uma roda de conversa com ativistas sociais de diversos contextos que trouxe para o debate a menopausa em situações de vulnerabilidade social.

Técnicxs e ativistas que trabalham com pessoas migrantes, em situação de sem-abrigo e pessoas que fazem Trabalho Sexual (PTS) destacaram barreiras que dificultam o acesso à saúde, como o estigma, a precariedade económica, a falta de informação, barreiras linguísticas e o medo do julgamento.

Para quem faz Trabalho Sexual, estes desafios podem ser ainda mais concretos e diretos, uma vez que sintomas como dor, secura vaginal e perda de lubrificação podem interferir diretamente com a atividade profissional.

A pessoa pode ter de escolher entre trabalhar com dor, recusar determinadas práticas e perder rendimentos, ou procurar cuidados e interromper temporariamente a atividade.

Nestas situações, saúde, rendimentos, autonomia e segurança estão diretamente interligados, como demonstram estudos apresentados no painel pelo Plano AproXima.

➤ Sintomas afetam o corpo e as condições de trabalho

Num estudo feito em Sidnei (Austrália) com PTS na transição menopáusica ou já pós‑menopáusicas, descobriu‑se que 83% tinham sintomas da síndrome geniturinária da menopausa. Os sintomas mais comuns eram:

  • Secura vaginal;
  • Perda de lubrificação;
  • Diminuição da libido.

O estudo também mostrou que quanto mais fortes eram os sintomas, maior era o impacto no Trabalho Sexual. As participantes sentiam menos satisfação profissional e mais dificuldade em trabalhar.

Uma outra pesquisa realizada em Nairobi (Quénia) analisou pessoas que fazem Trabalho Sexual para perceber como a idade e a menopausa influenciam alguns marcadores imunitários no sangue e na mucosa cervical.

As participantes eram VIH‑negativas, e os investigadores observaram que esses marcadores mudavam conforme a idade e o estado menopáusico.

Em conjunto, estas investigações mostram que a menopausa tem impactos que vão muito além dos sintomas, afetando tanto o corpo como as condições de trabalho, e reforçam a importância de ouvir as experiências vividas.

Estes estudos são também um alerta para a necessidade de respostas que considerem a realidade de quem vive múltiplas desigualdades — e foi precisamente essa urgência que o Plano AproXima levou ao debate, defendendo políticas públicas que garantam cuidados acessíveis, confidenciais e livres de discriminação.

Mulheres mais velhas e insegurança económica

As Jornadas da Menopausa permitiram ainda destacar os desafios económicos e sociais específicos enfrentados por mulheres mais velhas que fazem Trabalho Sexual.

O primeiro desafio é, desde logo, a instabilidade económica. Quando não existe contrato formal, proteção na doença ou uma reforma suficiente, deixar de trabalhar significa perder imediatamente rendimentos.

A menopausa pode implicar consultas, exames, medicação, lubrificantes, deslocações e tempo para recuperação. Todos estes custos pesam mais quando não existe uma rede de proteção.

➤ Idadismo e a perda de clientes

Há ainda o desafio do idadismo. Em contextos onde a juventude e a aparência são valorizadas, como acontece no Trabalho Sexual, o envelhecimento pode ser penalizado através da perda de clientes ou da redução dos rendimentos.

Porém, é preciso salientar que esta realidade não é igual para todas as pessoas. A experiência, a confiança e as relações estáveis também podem ter valor.

O terceiro desafio diz respeito à negociação de limites. Uma pessoa com dor pode sentir pressão para aceitar uma prática que não deseja ou que lhe causa sofrimento. Isso põe em causa o consentimento e a saúde sexual que tem de estar ligada à autonomia e à segurança.

Há ainda as dificuldades no acesso aos cuidados com complicações como:

  • Horários incompatíveis;
  • Custos associados;
  • Falta de confidencialidade;
  • Comunicação inadequada.

Pessoas migrantes podem enfrentar ainda barreiras linguísticas, administrativas e documentais.

Por fim, existe o risco de invisibilidade. Os serviços de saúde sexual podem concentrar-se no VIH e nas infeções sexualmente transmissíveis sem perguntar pela menopausa.

Paralelamente, os serviços focados na menopausa podem não reconhecer as especificidades do Trabalho Sexual. Assim, algumas pessoas ficam entre dois sistemas que não comunicam entre si.

Uma questão de direitos e de políticas públicas

O último painel das Jornadas teve como participantes a socióloga Marisa Matias, ex-deputada do Bloco de Esquerda e autora da primeira proposta de lei sobre a menopausa em Portugal, e Cristina Mesquita de Oliveira, presidente da ONG VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa.

E ficou claro que a menopausa é uma questão de direitos.

O direito à informação, ao alívio da dor, à confidencialidade e a cuidados adequados deve ser garantido independentemente da idade, origem, rendimento ou atividade profissional.

A formação de profissionais, defenderam as intervenções, deve integrar menopausa, saúde sexual, migração, diversidade de género, redução de danos e violência. E as respostas devem ser construídas com as comunidades, não apenas para elas.

Os serviços devem perguntar sem pressupor. Devem abordar sintomas, saúde sexual, dor, sono, humor, medicação e segurança sem fazer juízos sobre a identidade ou a atividade profissional da pessoa.

A menopausa exige lugar na agenda pública

As Jornadas terminaram com a elaboração de uma carta de recomendações para orientar políticas públicas e práticas que reconheçam a menopausa como uma questão de saúde pública e de justiça social, e que valorizem a diversidade de experiências e as necessidades das pessoas.

A iniciativa teve o mérito de trazer para o debate público um tema frequentemente invisível, mostrando que informação, apoio e autonomia são essenciais para transformar esta fase da vida.

Falar é o primeiro passo. O desafio agora é garantir que a conversa se traduz em cuidados acessíveis, profissionais preparados e políticas que não deixem ninguém para trás.